quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Histórias de Heloísa II (textos)

Minha mãe me recontou tantas vezes esse caso que é como se ele fizesse parte da minha memória tb. Nós morávamos com a minha Bisavó, Carolina, que era uma senhora engraçadíssima, além disso, me defendia até o último fio dos meus cabelos (naquela época eu tinha bastante). Contava minha mãe que o irmão da minha bisavó havia morrido em Campos, cidade do interior do Rio de Janeiro. E que ao saber da notícia, todos nós, Carolina, Heloísa e eu (com 4 anos, aproximadamente) nos dirigimos para ver se conseguíamos chegar antes do sepultamento do irmão dela.
Acontece que ela, Carolina, não sabia nada além do nome do irmão e do número da casa em que ele supostamente morava. Nada além disso numa cidade enorme como Campos.
Depois de uma viagem de 4 horas, chegamos na rodoviária da cidade. Minha bisavó aflita porque o enterro do seu irmão seria no outro dia e ela queria a todo custo ver o corpo antes que ele fosse enterrado. Como fazer para encontrar alguém que (ela supunha ser conhecidíssimo) sequer se sabia o endereço? Ela então a cada pessoa que cruzava o nosso caminho perguntava se se conhecia o fulano de tal (esse detalhe do nome, não lembro). Ninguém conhecia o irmão dela. Ninguém. Então as pessoas querendo ajudar perguntavam pelo endereço: bairro? Rua? Cemitério? Ela apenas com o número da casa. E mais nada!
Ela ficava indignada quando a resposta era negativa. Ela achava que as pessoas tinham a obrigação de conhecer o seu irmão porque 'ele era uma pessoa muito importante', afinal era o seu irmão. A cada negativa, um confusão.
Caiu a noite e nada. Nem sombra do irmão morto. Até que uma senhora, cabeleireira, com pena da nossa situação, nos ofereceu a sua casa para que passássemos a noite. Provavelmente não tínhamos dinheiro algum para hotel, comida, essas coisas. Pelo menos é o que me pareceu.
Dormimos, os três, num sofá, daqueles que abriam e virava uma espécie de cama de casal. Durante a madrugada, segunda a minha mãe, nos levantamos para eu ir ao banheiro, porque eu, é claro, mijava na cama ou em qualquer lugar se me desse vontade.
Quando retornamos, a minha bisavó tinha sumido. O sofá não suportava que alguém ficasse deitado em um lado sem nenhum peso do outro. Minha avó caiu e ficou por lá mesmo. Depois de uma pequena procura, Carolina foi encontrada deitada no chão. Ela disse que passaria à noite por ali mesmo, além, é claro, de reclamar da hospitalidade: "É isso que dá a gente aceitar o convite desse tipo de pessoa. Nos colocam em qualquer lugar sem o mínimo conforto." (Nem aí para o fato da tal senhora ter feito um grande favor).
No outro dia, depois de muita andança, finalmente o cemitério foi encontrado, mas o enterro já tinha sido feito. Segunda minha mãe, mais um escândalo. Minha bisavó queria a todo custo que o corpo fosse desenterrado para que ela se despedisse do irmão.
Não houve jeito.

Um comentário:

  1. Estou gostando muito das histórias de Heloísa.
    Bjs, pedacinho do meu coração.

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