segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Auto-Retrato Falado (Poesia)

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.
(Manoel de Barros)

2 comentários:

  1. A maior riqueza do homem
    é a sua incompletude.
    Nesse ponto sou abastado.
    Palavras que me aceitam como
    sou - eu não aceito.
    Não agüento ser apenas um
    sujeito que abre
    portas, que puxa válvulas,
    que olha o relógio, que
    compra pão às 6 horas da tarde,
    que vai lá fora,
    que aponta lápis,
    que vê a uva etc. etc.
    Perdoai
    Mas eu preciso ser Outros.
    Eu penso renovar o homem
    usando borboletas.
    Manoel de Barros

    Bjs meu trenzinho bonito!

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  2. "Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo"

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