domingo, 17 de outubro de 2010

Tudo no mesmo saco. Que saco! (texto)

Hoje, na volta do almoço peguei um táxi até o hotel e o motorista soltou esse: "A Dilma vai oficializar essa pouca vergonha de casamento entre homens e entre mulheres. Sou totalmente contra isso. Meu filho não precisa ver homens beijando homens na rua e nem mulheres beijando mulheres. Ele precisa ser respeitado." Detalhe, eu estava com um adesivo da Dilma na camiseta (ganhei enquanto estava na feirinha do Largo da Ordem).
Respirei fundo dezessete vezes. Pensei, melhor ficar calado. O motorista continuou: "Eles (referia-se aos gays e lésbicas) deveriam ser acompanhado por um psicólogo para se curarem."
Não aguentei e disse: "Eu acho que o senhor tb deveria ser acompanhado por um psicólogo, porque em 2010, pra mim, é inadmissível alguém ainda acreditar que pode legistar sobre a vontade dos outros. Cada um deve fazer o que quer e pronto. Porque ser homo ou hétero diz respeito apenas aos desejos de cada um."
Por que eu fui dizer isso? Não podia ter ficado calado? O motorista soltou a língua e fez a relação que podia entre uso de droga, pedofilia, senvergonhice, doença, falta de respeito e ladeira abaixo.
E nada de chegarmos ao hotel. Ele me disse até que sexo anal era antinatural. Aí perguntei se ele já havia assistido a qualquer filme pornô porque sexo anal é uma prática tão difundida que eu estava mesmo incrédulo diante da sua afirmação.
Ele ainda me disse que se o filho dele fosse gay (ele disse de outra maneira: "se o meu filho virasse a mão"), ele o colocaria para fora de casa. Eu disse que se eu fosse seu filho eu sairia antes, porque aguentar um pai com essa cabeça realmente não deve fazer bem a saúde mental de ninguém.
Depois me toquei de que eu estava na mesma sintonia que ele. Não ia adiantar eu tentar mudá-lo assim como eu não mudaria. Finalmente chegamos ao hotel. Paguei a corrida e lhe desejei um bom dia de trabalho.
Mas foi interessante saber, primeiro, como ele acha que o presidente da república (seja lá quem for) tem o poder de mudar o país sem que haja discussão em torno dos temas, sem que os projetos passem pelos deputados e senadores. Depois, o fato de ainda confundirem homossexualidade com pedofilia, doença, anormalidade, pouca vergonha. E ainda, entender o que faz com que esses sentindos continuem produzindo filiações mesmo no século XXI.
Além disso tudo, entender que "respeito", palavra usado pelo motorista significa levar em consideração a sua orientação sexual, apenas. Tentei dizer a ele que respeito é uma via de duas mãos e o mundo em que o filho deve vive é um mundo mais democrático e por isso não pode ser visto apenas a partir de uma forma de olhar.
Olha, realmente acho que não foi uma boa ter entrado nessa discussão, mas foi mais forte do que eu.

2 comentários:

  1. Amigo, sem querer lhe julgar, longe de mim tal coisa, ninguém tem esse direito, mas tb concordo "que não foi uma boa ter entrado nessa discussão". Penso que nessas horas precisamos lembrar que a linguagem é um jogo e que temos o inteiro direito de jogar ou não. Lembra do wittgenstein? Então, certos jogos não se joga!
    De qualquer modo, acho que servirá de alerta para a próxima. Sei que esse tipo de provocação é difícil de suportar, mas é justamente nessas horas que devemos nos pôr à prova.

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  2. tem gente que nos tira do sério, e não sou poucos, o assunto é longo e demandaria uma tarde de idéias e comparações, infelizmente, há muito disso por aí meu amigo, muito mesmo.
    Olha, vim te dizer que estou feliz e animada com a idéia de te mostrar minha cidade, não vejo a hora de começar a fotografar, mas hoje amanheceu chovendo por aqui.

    um beijo querido e um lindo dia, longe dessa gente chata.

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