domingo, 1 de dezembro de 2013

Completei dois aniversários numa fila em Lisboa

Diz a lenda que o baiano é lento. Que o atendimento na Bahia tem a velocidade de uma lesma grávida atravessando uma floresta, provavelmente a amazônica. Que o único baiano nervoso e estressado demorou 7 meses tendo um ataque do coração. Que se vc gritar no ouvido de um baiano "fogo", ele em cinco minutos está fora da cadeira. Que ele dá ao filho o nome de "Oi" para cumprimentar e chamar ao mesmo tempo e não ter, naturalmente, dois trabalhos. E por aí vai. Essa velocidade, apelidada de Dorival Caymmi (o baiano mais tranquilo da Bahia), desliza para tantos outros sentidos possíveis em relação ao estilo de vida na Bahia.
No entanto, nada se compara ao atendimento aqui em Portugal. Na-da. Refiro-me ao atendimento ao público em lojas, especificamente, porque, por exemplo, em um restaurante, somos sempre bem atendidos. O serviço é rápido e bem feito, além, é claro, da comida deliciosa, mas vamos ao que me interessa. Fico abrindo e fechando muitos parênteses antes de dizer o que realmente importa.
Bem, por aqui, os atendimentos se dão da seguinte maneira: para tudo tem uma senha. Seja farmácia, padaria, banco, correio, caixa de loja etc. E até vc ser chamado é sempre uma novela, dessas da Gloria Peres, chatas e sem fim.
Entre quem está sendo atendido e vc, tem, pelo menos, um hiato de umas 50 senhas sem um dono, porque as pessoas desistem no meio do caminho. O que, de certa forma, é bom porque agiliza o atendimento em umas 3 horas.
O lisboeta ao ser chamado não tem pressa. Ele conversa com o atendente, que lhe dá toda a atenção do mundo. Aquele pergunta o que quer, quantas vezes for necessário, por um tempo sem fim. E vc alí esperando como se nada tivesse acontecendo, pra vc, naturalmente.
Aí, quando vc pensa que o atendimento acabou, vem o gerente para tentar resolver alguma pendência, alguma questão que ficou sem resposta. Ele conversa mais um pouco, explica mais alguma coisa, repete alguma informação e vc alí, achando que, finalmente, o próximo será chamado. Mas não é assim que acontece. A primeira atendente continua a saga. E vc alí sem um livro, sem um telefone, sem alguém para conversar, esperando, já que vc é estrangeiro, que algum nativo reclame. Nada nesse sentido acontece. Nada acontece. Tudo na maior normalidade de sempre.
E se vão horas, se vão dias nesse atendimento sem fim. Vc fica se perguntando o que tanto o cliente quer saber e que tanto só o atendente sabe, ou não sabe, para responder.
Finalmente esse atendimento termina. Vc acha que o atendente chama logo a outra senha? Não chama, é claro. Ele entra para não se sabe onde e demora alguns minutos para, continuar um trabalho que vc não compreende o porquê. Naquele momento, principalmente.
Depois de algum tempo, ele, finalmente, chama a próxima senha, mas é claro que ainda não é a sua vez e vc continua ali aguardando. Fiz dois aniversários numa fila em Lisboa. Fiquei careca. Me casei. Tive dois filhos. Escrevi uma tese e corrigi 10000 redações do ENEM e ainda fiquei 15 minutos aguardando a minha vez.
Bem, se baiano é lento, digamos que o lisboeta morreu e não foi enterrado.

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