quinta-feira, 18 de março de 2010

Gramática do Português Brasileiro (texto)

Mário Perini era professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e eu o conheci, como autor, em 1985, no meu último ano de graduação, quando ele lançou um pequeno livro (pequeno em termos de tamanho, não de importância), dá séria série Princípios (da editora Ática), Para uma nova gramática do Português. De cara, simpatizei muito com as suas propostas. Nessa época eu não tinha mais Linguística como disciplina na graduação, mas tive, a grande sorte de ser aluno da professora Marta Scherre em Estudos Lingüísticos I (vou colocar assim com trema para ressaltar, além do tempo passado, o prazer que tive ao descobrir que a língua que eu falava, ainda que estivesse bem distante daquela descrita nas Gramáticas Tradicionais, não era nem feia e nem estava errada) e com ela, a professora, fui iniciado nesse mundo paralelo de se pensar a língua a partir de outros procedimentos, a saber, os científicos. E a proposta de Perini trazia muito daquilo que me foi apresentado pela Marta quando tratava dos problemas da Gramática Normativa e o ensino da norma padrão.
Atualmente, o autor, é professor na PUC de Minas e acaba de lançar pela Editora Parábola a Gramática do Português Brasileiro. Cheguei em casa, depois da academia ,e encontrei sob a minha porta a encomenda feita via internet.
Sou apaixonado por livros. Todos eles. Gosto de tocá-los, folheá-los, do seu cheiro e, sobretudo, do que trazem para a minha formação, de uma maneira geral.
É claro que não li o livro, até porque gramáticas não são livros para se ler assim, como se faz com um romance, mas  a apresentação do autor sim. E, mais uma vez,  simpatizei com o que ele nos traz: segundo Perini a gramática não é um instrumento de aquisição da língua padrão escrita, porque estudá-la "não leva, nunca levou, ninguém a desenvolver suas habilidades de leitura, escrita ou fala, nem sequer seu conhecimento prático do português padrão escrito.(...) Por hora, continua o autor, basta dizer que a gramática é uma disciplina científica, tal como a astronomia, a química, a história ou a geografia; ela deve ser estudade porque é parte da formação científica dos alunos - formação essa que se torna cada dia mais indispensável ao cidadão do século XXI."


quarta-feira, 17 de março de 2010

Sem Barra - José Paulo Paes (poesia)

Enquanto a formiga
Carrega comida
Para o formigueiro,
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro. 

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga. 

Mas sem a cantiga
da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga.

Trabalho (texto)

Ando numa fase bem ruim no trabalho. Além de não me sentir motivado, tenho um mundaréu de atribuições. Não vou listá-las aqui. Sei apenas que o acúmulo de coisas para fazer  em pouco tempo tem contribuído de certa forma para alguns erros. Não apenas isso, mas percebo que fazer mais de três coisas ao mesmo tempo não é produtivo. Acho que sou do tipo que ou atendo o celular ou ando. Preciso de tempo e tranquilidade para realizar algumas tarefas.
Talvez já esteja passando da hora de dizer NÃO para algumas atividades. Sobretudo àquelas que não dizem respeito à sala de aula. Até porque quando se está em sala de aula, o mundo para um pouco. 
Não sei trabalhar sob pressão, não gosto de errar e esse erro não ser responsabilidade minha, apenas. Por outro lado, não quero tb ter que responder por erros que não são meus.
Estamos no meio de uma semana turbulenta e pelo visto ela ainda vai durar bastante.

segunda-feira, 15 de março de 2010

www. chatroulette.com (texto)

Gosto muito de internet. Muito mesmo. Tanto que ficar uns dias sem acesso é quase uma tortura. Além de gostar da internet porque posso, através dela, entrar em contato com os amigos, atualizar minhas páginas, ler jornais, revistas, pesquisar datas, pessoas, comprar livros, administrar a minha conta bancária,  copiar músicas e filmes etc., gosto de novidades, saber o que tem interessado as pessoas, aonde elas estão indo, o que descobriram.
Ontem descobri um site novo. Em geral conversar escrevendo não é muito a minha praia. Não tenho muita paciência (e agilidade) para escrever o que falo, prefiro mesmo uma conversa pessoal. Não uso  (com frequência) Messenger, skype ou outro programa para bater-papo.
Mas ouvi falar do site e resolvi fazer um teste. O endereço é www.chatroulette.com e ele é basicamente um lugar para encontrar pessoas desconhecidas (inclusive a justificativa quando da sua criação foi exatemente esta: poder conversar com estranhos ao redor do mundo).
Quando a gente entra na página do chat_roleta, abrem-se dois vídeos: o do desconhecido e o nosso. A proposta é, não gostou da cara, passa-se a diante.
A frequência é basicamente masculina. No horário em que eu entrei tinham 20.000 onlines. Tem de tudo: homens e mulheres, novos e velhos, vestidos e despidos. Muitos homens mostrando a genitália. Ontem à noite, fiquei uns 30 minutos experimentando o programa: conversei com uma brasileira de 12 anos (paulista) por alguns poucos minutos. Perguntei o que ela fazia (e procurava) ali e como ela encarava os tarados de plantão. Ela queria saber apenas se eu era casado. Next. (a gente e o outro tem a opção de passar adiante. Não gostou: Next!).
Fui passado adiante diversas vezes. Principalmente quando eram homens do outro lado. Algumas vezes eu nem conseguia ver quem seria meu próximo... NEXT. Era deixado de lado.
Vi adolescente dançando, outros cantando, alguns fazendo careta, homens se masturbando etc..
Depois conversei com um coreano (devia ter uns 17 anos); um canadense; um americano; uma francesa., dois turcos. Ah, é claro que a língua oficial é o inglês e é claro tb que a minha conversa era bastante pobre. Meu inglês é vergonhoso, mas eu tentava na medida do possível.
Foi divertido. Ri muito. Pena mesmo que não curto essa de papo via escrita, do contrário eu estaria no paraíso.

domingo, 14 de março de 2010

Questão de bom gosto (texto)

Recebi o texto abaixo de uma amiga e, além de considerá-lo importante, achei tb que deveria compartilhá-lo. Como as categorias de gosto que se criam, sobretudo, na Academia me incomodam: "Isso é bom, aquilo é ruim", "Isso não presta, mas aquilo sim", pensei que seria pertinente reproduzir aqui o texto e deixar, depois da leitura, que cada um pense o que quiser (ou puder pensar).

A carapuça serve em todos: quando se fala em música, a fronteira entre o bom e mau gosto é nebulosa e muitas vezes esconde uma palavra que ninguém quer pronunciar: preconceito (Pedro Alexandre Sanches)


Baião, xote, xaxado. Lamê, cafona, brega. Axé, lambada, c ar imbó. Jovem Guarda, iê-iê-iê, canção romântica. Samba de morro, samba joia, partido alto, pagode. Música caipira e sertaneja, guarânia e vanerão. Canção de protesto. Pop. Heavy metal, rock progressivo, emo. House, tecno, electro. Tecnobrega, forró, funk carioca, rap. Cada um desses gêneros musicais tem seguidores aos milhões, mas também tem de enfrentar exércitos às vezes reduzidos, mas sempre barulhentos, de detratores.

Em sua maioria, desperta ódio especial junto a consumidores tidos como cultos, intelectuais, críticos, formadores de opinião. Esses trazem sempre na cartola o argumento de preferir música dita fina, refinada, sofisticada, mas tampouco seus gêneros prediletos se safam de outros tipos de muxoxos, narizes torcidos e intolerâncias. Música erudita. Jazz. Blues. Bossa nova. Clube da esquina. MPB. Supostamente, estamos falando de estética, das distinções entre o que se entende como música “de qualidade” e “sem qualidade”, “boa” e “ruim”, de “bom gosto” e “mau gosto”. A zona fronteiriça entre os dois extremos é frequentemente nebulosa, pantanosa e fugidia, daquelas de atolar em areia movediça quem exiba muita certeza sobre onde está pisando. Ainda assim, há sempre alguém disposto a decretar, pronta e despoticamente: “Brega é lixo”, “música caipira não presta”, “iê-iê-iê é uma porcaria”.

Atrás das cortinas do “bom gosto” e do “mau gosto”, esconde-se um bichinho do qual em geral preferimos fugir a 120, 150, 200 quilômetros por hora e que atende pelo nome de preconceito. Será que eu desprezo o axé porque é péssimo ou porque desejo me manter bem distante dos baianos periféricos, pobres e pretos que o inventaram? Você detesta os emos porque fazem rock muito pauleira ou porque não se dá bem com seus figurinos esquisitões, soturnos, sexualmente indefinidos? É ficar entre uma coisa ou outra, indubitavelmente? Ou a repulsa (extra) musical nasce de uma gororoba mista disso tudo?

Militante musical multiplicado em musicólogo, historiador, pesquisador, crítico musical, escritor, engenheiro de som etc., Zuza Homem de Mello enfrenta esse bicho de sete cabeças: “É uma questão subjetiva, mas, se fosse só isso, não haveria tanto problema e antagonismo. Existe quase uma intolerância do bom gosto em relação ao mau gosto e certa inveja do mau gosto pelo bom gosto. O cara de bom gosto não tolera o que acha de mau gosto e o de mau gosto, não é que não tolera, é que ele não alcança o bom gosto”. Na opinião de Zuza, o aspecto não subjetivo dessa guerra se concentra nos termos “educação” e “cultura”: “O culto ao bom gosto é diretamente proporcional à educação e ao nível cultural da pessoa”.

Ele se vale de uma comparação entre música e gastronomia, na qual há os que ficam no feijão com arroz e os que cultuam paladares “sofisticados”. Mas justamente aí se insinua a dúvida: ora, por acaso é ruim comer arroz, feijão, bife e ovo frito? “No caso da gastronomia, um bom arroz com feijão e bife é considerado vulgar por quem tem paladar refinado. Mas é bom, e na música é igual. Dentro das diferentes áreas rotuladas como de mau gosto, há quem dê uma percepção de sinceridade, de verdade, que supera esse desprezo e faz com que os de bom gosto se sintam atraídos. É bom quando você sente verdade atrás daquilo.”

Zuza exemplifica: “Tenho amigos jazzistas fanáticos que não admitem nada da música caipira. Mas Rolando Boldrin, Inezita Barroso... Aquilo é verdadeiro. Há pessoas fechadas e abertas, aí você não pode fazer nada. Não posso mudar meu amigo que acha a dupla Tonico & Tinoco desprezível. Tem gente que só vai na Sala São Paulo, não tem jeito”.


QUESTÃO DE IDENTIDADE
Pois então, estamos meramente falando de “bom” e “mau” gosto, ou há mais que miúdos de pato embutidos no foie gras? “O preconceito poderia ser um elemento, sim, determinando que se deixe de gozar das belezas e verdades que poderiam ser apresentadas por quem não tem a mesma cultura e educação”, responde Zuza. “Aí, quem não tem preconceito leva enorme vantagem. Eu mesmo cometi muitos enganos na minha postura, depois, vi que não era assim”, admite, e que quebre o primeiro disco quem nunca o fez.

Nos anos 1960 e 1970, o sírio-francêsbrasileiro André Midani comandou, na gravadora Philips, o mais espetacular elenco reunido pela dita MPB. Ali se demarcaram nitidamente divisões que ainda hoje vigoram: nomes como Chico Buarque, Elis Regina e Caetano Veloso vendiam relativamente pouco, mas rendiam à gravadora cacife e prestígio cultural, enquanto operários pop, como Odair José e Evaldo Braga, faziam tilintar as caixas registradoras da multinacional. Midani, hoje aposentado, descreve a situação pelo ponto de vista dos lojistas de música: “As lojas de discos em geral pertenciam a donos de origem modesta, que se inibiam em comprar das gravadoras gêneros musicais que eles consideravam estranhos. Tinham medo de comprar música que desconheciam, que poderia ficar encalhada no estoque. Melhor encomendar trilhas de novelas...”

Mas ele abraça a hipótese do preconceito: “A música existe para que as pessoas amem, chorem, sonhem, protestem, se emocionem. Se ela faz esse papel com dignidade e eficácia, ela terá cumprido sua missão e a chamada qualidade que vá para o inferno. Estamos diante de questões de preconceito de classe, sim. E de preconceitos de pertencer, como no futebol. Sou do Corinthians, então sou inteligente, e você, torcedor do Cruzeiro, é um imbecil”.

Em 2002, o historiador Paulo Cesar de Araújo cutucou um nervo doloroso dos preconceitos musicais em Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar. O livro, profundamente perturbador para quem se tenha disposto a compreendê-lo, situa nas diferenças e nos preconceitos de classe social o epicentro do terremoto que separou europas de “bom gosto” de áfricas de “mau gosto” e dividiu os brasileiros entre (poucos) “cultos” e (muitos) “incultos”, simples e maniqueísta assim.

Paulo Cesar destrincha um dos argumentos centrais de um livro empenhado em reabilitar nomes como Waldick Soriano (autor dos versos abolerados “eu não sou cachorro, não/ pra viver tão humilhado/ eu não sou cachorro, não/ para ser tão desprezado”), Cláudia Barroso, Odair José, Diana, Paulo Sérgio, Benito di Paula, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Dom & Ravel, Lindomar Castilho e dezenas de outros.

“Para ser bem qualificado pelas elites culturais, o repertório musical brasileiro precisa estar identificado ao que se considera ‘tradição’ (folclore, raízes do samba ou do forró) e/ou ao que se considera ‘modernidade’ (influências de vanguardas literárias ou musicais, jazz, bossa nova, tropicalismo)”, inicia. “Artistas populares, desde Anísio Silva e Waldick Soriano até Alexandre Pires e Zezé di Camargo são considerados de mau gosto pelas elites culturais, porque não estão identificados nem com a tradição nem com a modernidade. Veja que o rapper mais elogiado e premiado é Marcelo D2, exatamente porque ele aproxima o rap da batida do samba. Quanto mais longe da tradição e da modernidade, mais perto do mau gosto.”

Sua conclusão é provocativa e pisa em calos intocados, mas inchados, de intelectuais, formadores de opinião e consumidores cultos: “Esse apartheid musical é também reflexo da nossa desigualdade social. E isso se torna mais grave quando jornalistas, historiadores, sociólogos e museólogos não problematizam a questão e colocam seu gosto pessoal, ou o de sua classe social, como parâmetro para definir o presente e o passado cultural da nossa sociedade. Romper com essa visão autoritária e excludente deve ser o esforço de cada um de nós que trabalhamos com a memória”. Paulo Cesar demonstra que a cerca que separa bons e maus é de arame farpado, mas é também maleável e muda facilmente de lugar: “Para um fã de Gilberto Gil ou Jorge Ben Jor, a música de um cantor como Waldick Soriano parece muito simplória e banal. Mas, para um amante de jazz e música clássica, a música de Gil ou Ben Jor pode soar também muito simplória e banal. No passado, Lupicínio Rodrigues e Luiz Gonzaga eram considerados de muito mau gosto e só obtiveram reconhecimento da crítica quando seu período de maior sucesso popular já havia terminado”.

E oferece outro exemplo: “Os anos 1930- 1945 hoje são chamados de ‘era de ouro da música popular brasileira’, mas na época não foram percebidos assim pelas elites. Mario de Andrade, por exemplo, se referia à produção musical daquele período como ‘popularesca’. Em última instância, o que vale é o poder de quem tem o discurso competente para afirmar que tal produção é boa ou ruim”.

Na mesma direção, vai César Rasec, estudioso de cultura e sociedade na Universidade Federal da Bahia (UFBA), de quem voltaremos a falar mais adiante: “Tudo passa pela legitimação, não importa quem seja o legitimador. Podem ser o papa, os meios de comunicação, os acadêmicos. Só não pode ser o povo. Pelo senso comum, o povo ‘não pode’ e ‘não sabe’ legitimar porque é marionete conduzida pela força da grana de quem manipula a indústria cultural”.


DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Músico identificado à MPB, o maranhense Zeca Baleiro gosta de beliscar o conflito e, volta e meia, grava músicas de (e/ou trabalha em parceria com) Fagner, Luiz Gonzaga, Luiz Caldas, Luiz Ayrão, Odair José, Wanderléa, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Charlie Brown Jr., Geraldo Vandré. E gosta de cutucar opositores da dita cafonice: “Os ‘modernos’ são patéticos. Aplaudem Pedro Almodóvar e renegam Waldick Soriano. O que fez Almodóvar? Estilizou a cafonice espanhola com humor e inteligência, sim, blindado por uma aura cult, transgressora. Mas não há muita disparidade entre o universo de seus filmes, que na verdade são novelas filmadas, e o universo que se vê nas canções dos ‘cafonas’”.

O músico percebe uma via de mão dupla no confronto: “Da mesma maneira como esses gêneros são discriminados por uma minoria de classe média e maior escolaridade, também o garoto da periferia que curte rap ou pagode tem preconceito contra o jazz ou a MPB. O preconceito não é só estético ou ideológico, a questão ficou mais complexa. Há uma dificuldade de compreensão, às vezes intolerância mesmo, a respeito de determinado gênero pelo que ele é como música, mas também pelo que simboliza como comportamento, atitude, origem e postura social”.

Os intermediadores da cultura acumularam poderio para orientar a legitimação (ou não) de artistas e estilos musicais. Mas é fato que esse poderio vem ruindo de forma espetacular desde o advento da internet. Intermediadores, como intelectuais, formadores de opinião, críticos e jornalistas, veem sua força encolher frente a cada novidade sobre pirataria, download, blog, Twitter etc.

Sob essa muralha esburacada, há cada vez mais quem se disponha a colocar a hidra do mercado midiático nas equações de gostos e preconceitos culturais. “Essas fronteiras, para mim, são hoje muito mais ditadas pelos meios de comunicação do que por qualquer outra coisa”, afirma Nei Lopes, escritor e sambista, compositor popular e historiador. “A música de mercado procura vender felicidade, riqueza, bem-aventurança, beleza, juventude, descompromisso. E a música cult serve para mostrar que há um grupo de pessoas ‘superiores’ a essas ‘coisas de pobres e iletrados’”.

Nei puxa a brasa para sua sardinha: “Engraçado, aí é que rola a contradição daquele aficionado do jazz que em samba só admite Cartola e Paulinho da Viola. Os redatores não têm a mínima noção da alta qualidade artística e da revolução que foi e continua sendo o chamado pagode de fundo do quintal. Mas qualquer dia alguém vai parar e pensar no que representa um Arlindo Cruz, de onde veio e onde poderá chegar. E saibam esses ‘informados’ e ‘cultos’ que eu conheço muito sambista que curte, além dos velhos negões do samba, Chet Baker e Gerry Mulligan”.

O poderio de gravadoras e mídia é tema também de quem já foi muito valioso àquela estrutura e depois deixou de ser. É o caso do baiano Luiz Caldas, filho da lambada, pai do fricote e precursor da axé music, que dominaria a música brasileira por toda a década de 1990. “Conturbado é o meio midiático, que precisa denominar ídolos a cada temporada. Se tem rádio que paga jabá, o empresário vai e cria uma bandinha. Se você leva sua música numa rádio popular, não tem espaço sem ser dos que pagam jabá. Na rádio sofisticada, a música nem entra”, afirma ele, hoje em carreira independente.

Embora campeão de vendagens nos anos 1980, ele conta que não foi uma estrada de tijolos amarelos o caminho do sucesso: “No começo, fui com disquinho debaixo do braço e encontrei todas as portas fechadas. Ouvi em gravadora até comentário do tipo ‘lá vem mais um baiano’. Voltei pra Salvador e estourei lá, correndo atrás, colando, eu mesmo, cartazes dos meus shows. Eu era o artista e era o peão. Consegui fazer revolução com os nãos que recebi”.

Autor de hits como Fricote (1985), Eu vou já (1986), Haja amor (1987) e Tieta (1989), Luiz interpreta sua música como algo que a indústria fonográfica foi forçada a assimilar: “Querer minha música, não queriam, de forma nenhuma. Gravadora queria era grana, né? Gostam de fazer o chamado banho de loja. Para me proteger disso, abri mão de luva de 100 mil dólares, carro e apartamento. Troquei por uma cláusula de que não poderiam interferir no conteúdo”.

DIGERIR É PRECISO
O caso de Luiz Caldas poderia ilustrar a ideia de que modismos musicais são passageiros e não resistem além do momento de estouro. Mas há indícios de uma reabilitação de sua música e do poder de sua guitarra: jovens roqueiros da Bahia o citam como referência, DJs ainda mais jovens do Espírito Santo fazem mashup de Lady Gaga com Luiz Caldas. O caso vira emblemático de como costumamos nos apegar à tradição e olhar o passado com generosidade bem maior que o presente.

E Luiz, em pessoa, voltou à carga num maluco e notável projeto de lançar 22 discos em dois anos, separando-os por gêneros musicais e reservando volumes exclusivos para MPB, axé, música clássica, forró, brega, rock pesado, jazz etc. Dez já foram lançados, entre eles um de música indígena, todo cantado em tupi. “Estou podendo catalogar os estilos todos que conheço. Vendo pela internet. Não existe o disco, eu vendo o sinal.”

Como parceiro nessa empreitada, Luiz tem César Rasec, aquele que foi citado anteriormente, curioso híbrido de acadêmico e compositor popular, que se pós-graduou em cultura e sociedade na UFBA com uma dissertação sobre, adivinhe, Luiz Caldas. “A versatilidade dele ainda não foi assimilada, está em processo. Pensam que é apenas o cara da axé music que dança descalço”, diz César. “Infelizmente, a chamada elite cultural olha apenas para o próprio umbigo. O fator determinante é o preconceito, conceito prévio sobre algo sem ao menos entendê-lo. Sem preconceito, o erudito consegue uma interseção com o popular. Foi isso que eu fiz.”

A discussão é complexa, intricada e não exatamente pacífica. Cada um dos personagens retratados (assim como o redator deste texto) guarda e exprime, por linhas ou entrelinhas, seus gostos, ideologias, idiossincrasias e mesmo preconceitos. Zeca Baleiro, por exemplo, afirma, com certa dose de humor: “Só não me peça para gostar de emo. Já tive minha fase metal, mas emo não dá. Soa fake, mais como uma defesa social e psicológica de um grupo, o dos adolescentes, do que como interesse musical de fato”. Nei Lopes também revela algumas de suas antipatias: “Para mim, a música melosa desses sertanejos se esgoelando é de extremo mau gosto. Da mesma forma, esse falso gospel e o som desses padres cantores que cobram cachês milionários por apresentação. Mas eles rendem muita grana para suas gravadoras e igrejas. Azar o meu.”

Amante de jazz e bossa nova, Zuza Homem de Mello hesita a princípio, mas aceita a provocação de que revele alguns gostos inconfessáveis: “Eu sempre gostei da Roberta Miranda. Ela tem uma postura muito parecida à da Dalva de Oliveira, a respeito de sinceridade, toque poético. Ouço com prazer, como ouvia Núbia Lafayette, uma das mais fantásticas e menos reconhecidas cantoras brasileiras. Marinês é outra, é mãe de várias cantoras nordestinas. Luiz Gonzaga tem sido mais homenageado, mas todos nos lembramos do período em que era renegado”.

Liquidificador de estilos nestes anos 2000, Luiz Caldas elabora sua crítica: “Existe um gosto camuflado do brasileiro. Ele adora música brega, mas não admite. A bossa nova é maravilhosa, mas tem uma proteção enorme. Dizem ‘não suporto música brega, só ouço bossa nova’, e não, não é verdade. Tem gente que diz que gosta de bossa nova por causa da harmonia, mas não sabe nem o que é harmonia”.

A diretora Helena Tassara prepara um documentário sobre (e com) os ditos “cafonas”, inspirada pelo livro de Paulo Cesar de Araújo e com assessoria musical de Zeca Baleiro. Ela arrisca uma interpretação psicanalítica sobre a origem dos preconceitos, sejam contra melôs “cafonas”, sejam contra os cabelos desconstruídos dos emos: “Em todos os casos, acho que é fruto do puro desconhecimento, que dá medo, que afasta. É muito mais fácil e menos dispendioso emocionalmente a pessoa ficar apenas naquilo que já conhece e que faz parte de sua história de vida, ambiente familiar, grupo de amigos. É comum a pessoa desistir de conhecer o novo, o diferente, na ânsia do conforto de se reconhecer naquilo que já sabe”. Inspirado numa balada triste de Odair José, o filme vai se chamar Vou tirar você desse lugar. “Porque é exatamente essa a ideia”, diz Helena.

Devagar, tabus, apartheids e preconceitos vão sendo derrubados por quem não queira ficar estacionado no mesmo lugar. E Zeca Baleiro nos deixa as palavras finais, logo após criticar os emos: “Mas quem sou eu para julgar? Vou parar, porque esse papo tá muito cabeça, assim, não vou chegar no moleque da perifa”. ©

Senado aprova indicação de general que criticou gays nas Forças Armadas (texto)

O Senado aprovou nesta quarta-feira (10) as indicações do general Raymundo Nonato Cerqueira Filho e do almirante Álvaro Luiz Pinto para o Superior Tribunal Militar (STM). Durante sabatina do Senado, no início de fevereiro, o general afirmou que a tropa não obedece a militar homossexual.
A indicação de Cerqueira Filho foi aprovada por 46 votos a favor e 5 contrários. A de Luiz Pinto, por 40 votos a 4. Durante a votação desta quarta, os senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Eduardo Suplicy (PT-SP) disseram que o general havia se retratado da declaração.
No STM, os dois novos aprovados farão parte de um grupo de 15 ministros militares. Como no Supremo Tribunal Federal (STF), a aposentadoria é compulsória a partir dos 70 anos de idade. O STM não soube informar a data da posse, pois o expediente já havia sido encerrado.

Na sabatina de fevereiro, o general e o almirante foram questionados sobre a admissão de gays nas Forças Armadas. Luiz Pinto foi mais comedido em sua resposta aos senadores.
 “É uma situação muito polêmica, mas eu vou lembrar um fato que aconteceu alguns anos atrás, na França, não nas Forças Armadas, mas na Igreja, em que foi feita a mesma pergunta. O teólogo pensou, pensou, pensou e respondeu: ‘Não tenho nada contra, desde que ele faça uso do voto da castidade, que é um dogma da Igreja’. Eu acho que fazendo uma similaridade com as Forças Armadas, eu não tenho nada contra desde que ele [o militar homossexual] mantenha sua dignidade, a dignidade da farda, do cargo e do trabalho que executa. Se ele exercer sua dignidade, sem nenhum problema." 
O general Cerqueira, no entanto, foi mais direto em sua resposta, dizendo-se contrário à presença de gays nas Forças Armadas. “Tem sido provado mais de uma vez, o indivíduo não consegue comandar. O comando, principalmente em combate, tem uma série de atributos, e um deles é esse aí. O soldado, a tropa, fatalmente não vai obedecer. Está sendo provado, na Guerra do Vietnã, tem vários casos exemplificados, que a tropa não obedece normalmente indivíduos desse tipo [homossexuais]”, declarou. 
Cerqueira sugeriu ainda que as atividade desempenhadas pelas Forças Armadas não são adequadas a homossexuais. “Talvez tenha outro ramo de atividade que ele [o militar homossexual] possa desempenhar”, afirmou durante a sabatina.

Ao saber da aprovação no Senado, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcanti, voltou a criticar as declarações do general sobre homossexuais e disse esperar que ele tenha “refletido” sobre o que disse. “Esperamos que ele tenha refletido e não venha a emitir opiniões desse tipo novamente. Tenho certeza que ele não vai repetir isso. A opinião dele, podemos reafirmar, foi preconceituosa, discriminatória e conservadora”, afirmou Ophir ao G1.
O presidente da OAB explicou que a aprovação no Senado se atém aos requisitos constitucionais. “Do ponto de vista objetivo, dos requisitos constitucionais, o Senado o aprovou porque ele apresentou os requisitos necessários. Isso não significa que a opinião dele [sobre homossexuais] seja dominante no tribunal. O Superior Tribunal Militar é formado por militares e civis e certamente não espelha esse sentimento”, afirmou.
É lamentável que esse tipo de discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas Forças Armadas brasileiras”, disse Ophir, em fevereiro.

sábado, 13 de março de 2010

Superior Tribunal Militar afasta militar homossexual do Exército (texto)

O Superior Tribunal Militar decidiu nesta quinta-feira (11), por sete votos a três, reformar [aposentar] o tentente-coronel Osvaldo Brandão Sayd, que servia em Curitiba, por ele ter tido um relacionamento homossexual com um militar subordinado. Sayd foi acusado de ferir o decoro militar por ter tido relações com um soldado "fora da administração militar”, de acordo com o processo.
Para o relator do caso no STM, ministro José Américo, o comportamento do tenente-coronel “denegriuas Forças Armadas. Segundo ele, a condenação não se trata de coação devido à opção do militar, mas de punição a “excessos” incompatíveis com a função de oficial.
“A opção sexual não há de ser recriminada, mas excessos têm de ser tolhidos para o bem da unidade militar. Não se pode permitir liberalidade a ponto de denegrir o instamento militar”, disse o ministro. Américo, acompanhado de seis ministros, decidiram que o tenente-coronel “não reúne condições de permanecer como militar em exercício” e, portanto, deve serreformado.
Américo citou o depoimento do subordinado com quem o tenente-coronel teve relações sexuais. O soldado declarou que frequentou a casa de Sayd “porque tinha medo". "Sendo o tentente-coronel meu chefe, ele poderia não me dar engajamento. Meu sonho sempre foi ascender nas Forças Armadas”, disse o soldado.
No entanto, a ministra Maria Elizabeth Teixeira Rocha, revisora do caso, divergiu da opinião do relator. Para ela, a decisão da corte diz respeito, sim, à opção sexual de membros das Forças Armadas e que isso não pode ser motivo para afastar um militar. Elizabeth destacou que o tenente-coronel teve relações fora da administração militar e que, portanto, a opção sexual dele é uma questão de foro íntimo.
“O fato de o tenente-coronel ter tido relações sexuais com um subordinado fora da administração militar é comportamento que diz respeito apenas a uma questão pessoal, de foro íntimo, não afetando as Forças Armadas”, afirmou. Sobre a declaração do subordinado a respeito da relação que mantinha com Sayd, Elizabeth disse que ele tem, por lei, direito de mentir ou não se manifestar para evitar a produção de provas contra si.
Para a ministra, “rechaçar” um militar por ele ser homossexual é difundir o “discurso do ódio”. “Por que soldados homossexuais seriam menos valorosos do que os outros?”, questionou. “Afastar alguém das fileiras das Forças Armadas em virtude de sua orientação sexual é promover o discurso do ódio, quando é dever do Estado coibi-lo”, disse.
Segundo ela, se fosse o caso de um relacionamento entre um superior e uma subordinada, não haveria punição. “Haveria no máximo uma infração disciplinar, e olhe lá”, disse Elizabeth.
A ministra citou países que admitem homossexuais no Exército, como Espanha, França e Suíça. Ela ressaltou que em nenhuma das pelo menos 24 nações que admitem gays e lésbicas há registro de uma deterioração no desempenho dos soldados.
“Porém, não estamos sozinhos, Estados Unidos, Irã, Cuba, Venezuela, Panamá, Uganda, Afeganistão,Turquia, Arábia Saudita, Sudão, Iêmen e outros que, sem querer causar incidentes diplomáticos, não cito como exemplos de democracia, também proíbem homossexuais no Exército”, ironizou a ministra.
A defesa do tentente-coronel informou que ele está há mais de 20 anos nas Forças Armadas. Sayd confessou que teve relações sexuais "uma vez", em sua residência, com o subordinado. "Ele não cometeu crime. Aquilo faz parte da privacidade dele", disse o advogado de Sayd, Carlos Alberto Gomes.
Não cabe recurso da decisão de reformar o tenente-coronel, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) considera que trata-se de uma questão administrativa das Forças Armadas.
 

sexta-feira, 12 de março de 2010

Carregando pedras (texto)

Tô cansado. O dia, além de bem quente, não foi fácil!

O que fazer quando se faz uma grande M e não se pode voltar atrás? (texto)

Pois é, ontem num ato mecânico acabei retornando um e-mail de um amigo com questões pessoais (achando, é claro que eu estava apenas em contato com ele) para uma comunidade virtual da qual fazemos parte. Não me dei conta, até ele me escrever puto da vida (e com razão), de que isso havia acontecido. Uma grande merda mesmo porque o assunto, primeiro não dizia respeito à tal comunidade, e era, segundo ele, um segredo profissional guardado a sete chaves.
Fiquei passado com esse erro, mas a merda já havia sido feita e não poderia ser desfeita (eu não poderia voltar no tempo e não mandar o tal e-mail), restava-me apenas me desculpa, muito, sobre o ocorido.
É claro que ele não entendeu (quem entenderia?). Me desculpei mais duas vezez. Ele continuou não entendendo. Me desculpei mais uma vez e ele, finalmente, me mandou um outro e-mail ainda mais agressivo.
Não tive dúvida. Respondi que havia reconhecido a merda feita (diversas vezes) e que não havia jeito de desfazê-la, mas que, como ele insistia em não entender, eu não iria mais me desculpar.

quinta-feira, 11 de março de 2010

♫ Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes) ♫

Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer. . .
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você

Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer. . .

♫♫

♫♫

Gravada recentemente por Wanderléa. Estou apaixonado pela música. Clique aqui para ouvir no Youtube.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Richarlyson (texto)

Richarlyson é jogador do São Paulo. No dia 23 de janeiro de 2010, completou 200 jogos com a camisa tricolor e foi homenageado pela diretoria do clube com uma camisa com o número 200 estampado nas costas. Até onde sei (e sei pouco porque não acompanho os jogos do SP) o cara é um bom volante (também conhecido  como centromédio, médio-volante, cabeça-de-área, mediano, center-half, defensive midfielder, posição do futebol onde o jogador atua à frente dos zagueiros, protegendo a entrada da área e fazendo a ligação entre a defesa e o meio-campo.).
Em entrevista à revista Rolling Stone, o meio-campo falou sobre o preconceito que enfrenta. Ele afirma que sua família teme agressões: "É uma coisa que me entristece, o julgamento. A maioria dos que falam de mim, me denigre, perturba meu ambiente familiar, deixa meu pai, minha mãe e meu irmão preocupados. Minha família teme represália grotesca. Minha mãe acha que um cara sem noção pode me agredir a qualquer momento. Ela me manda tomar cuidado diariamente. "
Esses preconceitos, aos quais o são_paulino se refere, dizem respeito à sua sexualidade. Vira e mexe há comentários na imprensa, ou divulgados por ela, em torno desse assunto.
O Futebol é um ambiente machista. Há pouco, ou quase nenhum, espaço para   outros comportamentos que não reforcem esse machismo. Até bem pouco tempo era um esporte praticado exclusivamente por homens. Meninas que ousassem jogar futebol sofriam algum tipo de represália.
Richarlyson depois que colocou um aplique nos cabelos se assustou com a repercussão de seu novo visual. Ele tem passado por situações constrangedoras por conta das madeixas.
Aí fico por aqui pensando o que explicaria esse comportamento em torno da sexualiadade do jogador. Seria um espelho refletindo questões em torno da sexualidade de quem o agride? Freud explica. Porque, até onde consigo chegar, o que se deve esperar de um jogador de futebol é que ele exerça de forma exemplar a sua profissão, ou seja, defenda bem o time pelo qual é contratado. Agora, se ele tem cabelos compridos ou se é careca, se a cor dos cabelos é acaju ou grisalho pouco importa para o seu desempenho nos gramados.
Além disso, acho mesmo, que quem se preocupa muito com a vida sexual do outro ou tá afim de ir pra cama com o seu obscuro objeto de desejo ou ele, o objeto, é mesmo um espelho que o reflete e a visão que se tem incomoda.

terça-feira, 9 de março de 2010

Primeira impressão (texto)

Dizem que a primeira impressão (e não estou me referindo a impressoras ou coisas afins) é a que fica. Tenho dúvidas. A (pouca) experiência me ensinou que, às vezes, ela engana. Na verdade, ela quase sempre engana. Pra ser sincero, ela engana muito. De qualquer forma, como é impossível não ser tocado por esse primeiro contato (mesmo que depois eu tenha que refazer o texto), gostei, de uma forma geral, desse meu primeiro ano do curso de letras.
Uns alunos firmes em suas opiniões. Dentre esses, uns mais arredios. Uns engraçados, tímidos, mas de forma geral, atentos.
Fiz alguns pedidos a Papai-Noel no fim do ano passado. E como fui um bom menino (na verdade não muito, mas O Bom_Velhinho não ocupa o cargo só por ocupar), acho que ele resolveu atender alguns. Pedi, principalmente, tranquilidade e alunos interessantes (não que eu não os tenha tido, mas sempre se corre o risco de fome-zero, por isso, não custa nada reforçar).
Amanhã o nosso quarto encontro e um texto para ser lido. Até lá, expectativa.

Fernando Pessoa

Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
Onde você vê um motivo pra se irritar,
Alguém vê a tragédia total
E o outro vê uma prova para sua paciência.
Onde você vê a morte,
Alguém vê o fim
E o outro vê o começo de uma nova etapa...
Onde você vê a fortuna,
Alguém vê a riqueza material
E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.
Onde você vê a teimosia,
Alguém vê a ignorância,
Um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.
E que é inútil querer apressar o passo do outro,
a não ser que ele deseje isso
.
Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.
"Porque eu sou do tamanho do que vejo.
E não do tamanho da minha altura."

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de maio (texto)

Minha mãe foi uma lutadora: numa época em que se divorciar ainda era um tabu, ela escolheu enfrentar este problema a viver um casamento que não tinha futuro. Depois disso, recomeçou a própria vida.
Um tempo na casa dos pais, trabalho durante o dia e estudos à noite. Eu já era nascido e ficava com os meus avós (e tios) para que ela pudesse investir no nosso futuro.
Um pouco mais tarde, fomos morar com a minha bisavó (Carolina). Apenas nós três. Eu estudava e ficava uma parte do dia com a bisa porque ela continuava trabalhando muito e longe de casa.

Era um tempo feliz! Finais de semana eram divertidos. Ela  era muito bem humorada, engraçada. Contava-me sempre as mesmas histórias (quase sempre de família) de uma maneira tão divertida que eu pedia bis.
Quando eu era adolescente (agora apenas nós dois), ela voltou às salas de aula. Aí, trabalhava durante todo o dia e ainda estudava à noite. Foram 4 anos de encontros apenas em poucos momentos (ela saia e eu estava domindo e quando voltava eu já não estava acordado). Eu sabia que era um investimento em sua profissão e que aquele esforço se transformaria em mais oportunidades, em um melhor emprego e salário. 
Lembro-me da minha mãe sempre com o mesmo vestido. A nossa vida não era fácil. Casa alugada, nenhum luxo, automóvel era coisa de televisão, nem presentes no natal, mas tínhamos o humor. Acho que isso foi a melhor herança que recebi.
Nesse período ela não estava muito presente, é verdade, mas fui educado para compreender a situação. Nesse tempo tb apareceu o meu padrasto. E a vida melhorou um pouco.
Ela era mais um exemplo do que uma educadora em casa. Pouco me dizia o que fazer. Acho que apanhei apenas uma vez (ainda que eu meceresse mais). Ela era uma pessoa tão calma, uma voz tranquila, tinha um respeito pelos meus amigos (fossem eles quem fossem).Era admirável!
Não me lembro de ouvi-la  gritar. Mesmo quando estava brava era educada. Nossa relação era mesmo de respeito, éramos amigos. Tenho muito orgulho dela. Nos últimos tempo pude dizer isso não apenas com o coração. E me sinto muito feliz por ter tido a oportunidade de ter sido seu filho.

domingo, 7 de março de 2010

História do Dia da Mulher (texto)

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.
A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.
Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Objetivo da Data
Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.

Conquistas das Mulheres Brasileiras

Podemos dizer que o dia 24 de fevereiro de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. Nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo.

Marcos das Conquistas das Mulheres na História
1788 - o político e filósofo francês Condorcet reivindica direitos de participação política, emprego e educação para as mulheres.
1840 - Lucrécia Mott luta pela igualdade de direitos para mulheres e negros dos Estados Unidos.
1859 - surge na Rússia, na cidade de São Petersburgo, um movimento de luta pelos direitos das mulheres.
1862 - durante as eleições municipais, as mulheres podem votar pela primeira vez na Suécia.
1865 - na Alemanha, Louise Otto, cria a Associação Geral das Mulheres Alemãs.
1866 - No Reino Unido, o economista John S. Mill escreve exigindo o direito de voto para as mulheres inglesas
1869 - é criada nos Estados Unidos a Associação Nacional para o Sufrágio das Mulheres
1870 - Na França, as mulheres passam a ter acesso aos cursos de Medicina.
1874 - criada no Japão a primeira escola normal para moças
1878 - criada na Rússia uma Universidade Feminina
1901 - o deputado francês René Viviani defende o direito de voto das mulheres

sábado, 6 de março de 2010

Um recado para uma amiga (texo)

Primeiro dizer que não estou me colocando num lugar que sei não poder ocupar, o da experiência de vida. Além disso, sei tb que ela (a amiga) não me pediu nenhuma opinião. E ainda que, se conselho fosse bom ... (o que todo mundo sabe). No entanto, ainda que eu saiba de tudo aquilo, sei tb que não quero que meus amigos sofram mais do que é preciso.
Aprendi que o tempo cura quase tudo. E que é importante ter paciência porque feridas cicatrizam. Às vezes elas doem (mesmo com o tempo que passou), mas aí é sinal de chuva, de mudança do tempo.
Não mandamos no nosso coração, como é que podemos mandar no coração dos outros? Não podemos! Talvez a questão nem seja essa, mas a mágoa por acreditar tanto em alguém a ponto de achar que esse alguém jamais faria alguma coisa que nos ofendesse. Mas o outro é o outro e não sabemos o que se passa por sua cabeça. Seus motivos etc e tal.
Sabemos, um pouco de nós mesmos, e talvez, isso baste, por hora. Quem sabe o momento não seja o de se recolher, mesmo. Escolher, racionalmente, um sofrimento (diante de tantos que te abalam). Sei que vc conhece uma maneira de viver, mas e a desconhecida? Essa que vc ainda não viveu e está receosa? O novo? Quem sabe se vc se escolher agora não vai fazer uma grande diferença? Não vai fazer alguma diferença, pelo menos?
Pode ser que tudo isso aqui (escrito) não valha nada, seja o vazio no vazio. Eu tb não tenho certeza, mas diante do que se tem, o conhecido que te faz sofrer, e o desconhecido que vc ainda não sabe o que te traz, vc tenha uma opção.
Torço por vc, porque te conheço e seu do seu caráter. Sei do tamanho do teu coração. Sei o que vc é capaz de fazer pelo desconhecido. Sei da sua fé. Da sua honestidade. Por isso queria muito poder ajudar. Um abraço bem apertado.

PIB e FIB (texto)

Fui na quinta-feira a um templo Kardecista. Fazia tempo que eu queria conhecê-lo. A mãe  (Neida) de um grande amigo (Marcelo) é uma das coordenadoras do lugar. Combinei com uma amiga e fomos. O lugar é lindo: ao redor do salão principal tem um imenso jardim com muitas flores. O cheiro delas se espalha por todos os cantos. Fomos muito bem recebidos. Não estava cheio (e isto é algum sinal). Prefiro desse jeito (acredito que a coordenação, não).
Ouvimos a coordenadora do dia (por acaso a própria Neida) falar sobre o PIB (isso mesmo! Produto Interno Bruto) e o FIB (Felicidade Interna Bruta), a partir de um texto que lhe foi enviado por uma amiga. E este a partir de uma leitura (que por acaso tb fiz) de um texto publicado na revista da GOL. A palestra girou em torno, justamente, de como se mede a riqueza de um país e, segundo o texto primitivo, o parâmetro poderia (ou deveria) ser outro.
A felicidade de um povo não se mede com os dados do PIB. Talvez possa ser medida a partir do que fazemos com a nossa própria vida. É claro que sei que tb falamos desse lugar burguês_classe_média _meio _falida no qual o conceito de felicidade está atrelado ao de acumular coisas. Nem sei se poderíamos falar de outro (se seria possível hoje em dia), contudo, posso dizer que ouvi-la foi bom, justamente porque parei para pensar um pouco sobre a vida que eu estava levando até o ano passado (mais infeliz) e que resolvi mudar, na medida do possível, alguns poucos e possíveis parâmetros.
Nenhum deles tem a ver com acumular coisas, mas com o desprendimento. E está sendo bem fácil (pelo menos até agora). Ando me sentindo melhor, mesmo!

quinta-feira, 4 de março de 2010

A "evolução" dos costumes (texto)

Os Sonhos eróticos eram considerados pela Igreja quase como alucinaçoes. No século XIX, foram usados por psiquiatras como chave para o diagnóstico de outros comportamentos sexuais tidos como patologia.

A Homossexualidade era prática normal na Roma e Grécia antigas (tinha tb outra conotação). Tornou-se pecado com a expansão do cristianismo. No século XIX, foi definida como patologia por médicos, até virar uma variante de comportamento normal nos anos 1970. Aqui no Brasil, somente em 1985 perdeu o estatus de doença.

A Masturbação era ritualística na Grécia, mas São Tomás de Aquino a classificou como um pecado pior do que fazer sexo com a mãe. Foi considerada "patologia grave" até os anos de 1950.

O orgasmo feminino era considerado pelos Gregos vital para a "libertação da semente" da procriação. No século XIX, médicos diziam que o prazer feminino poderia levar à loucura (sem ambiguidade, é claro).

O Sexo oral e anal eram modalidades aceitas em diversas culturas, mas tb foram transformadas em pecado na Idade Média. A partir do século XIX, se tornaram manifestações patológicas e de normalidade.

A palavra Heterossexualismo, até o século XIX, era usada para definir aqueles que queriam fazer sexo por prazer, não para a procriação. O comportamento da busca do sexo pelo prazer era considerado uma doença.

Era complicado essa história de sexo e rock'n'rollNão que as coisas estejam muito melhores. Todos sabemos que o cristianismo continua produzindo esses sentidos de doença e pecado quando o assunto é sexo e prazer. Mas foi pior e se já foi pior, significa dizer que estamos no caminho. Ele, o caminho, é longo e espinhoso, sobretudo se diz respeito às práticas sexuais, mas pelo menos temos resistências ao hegemônico.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O que é sexo normal? (texto)

O texto é longo, mas vale à pena ler. Dor e prazer, saúde ou doença? Como a medicina pensa as múltiplas possibilidades que dizem respeito ao sexo.
Rogério Cassimiro
O manual da psiquiatria está sendo revisto. Entre os novos distúrbios deverá estar o impulso incontrolável de fazer sexo.

AMARRADA
Praticante de sadomasoquismo imobilizada por uma técnica japonesa, em um clube BDSM de São Paulo. Prazer ou distúrbio?
A paulistana Priscila S., de 49 anos, considera sua vida absolutamente normal. Ela dá aulas de inglês, faz ginástica, gosta de ir ao teatro e a bares e restaurantes com o marido e os amigos. Priscila diz que seu casamento sempre foi ótimo e está ainda melhor desde 2000, depois que o casal descobriu o BDSM, sigla para a expressão Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo. Os adeptos da prática gostam de dominar ou ser submissos para atingir o prazer sexual, o que pode ou não envolver dor. Há os que, como Priscila, se excitam ao ser amarrados ou ficar pendurados nus por horas sendo observados. E aqueles que, como seu marido, sentem prazer em amarrar, dominar e, às vezes, dar mais do que uns tapinhas. Tudo é feito com o consentimento do outro. “É uma sensação indescritível de bem-estar”, afirma a professora. A prática que dá prazer a Priscila é classificada como distúrbio psiquiátrico pela Associação de Psiquiatria Americana (APA). A entidade elabora o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM), referência para médicos de todo o mundo.
Publicado em 1952 e atualizado pela quarta e última vez em 1994 (houve apenas uma revisão de texto em 2000), o documento de 943 páginas, que descreve cerca de 300 distúrbios psiquiátricos – entre eles os sexuais –, está sendo reformulado. O DSM-5 será publicado em 2013, mas a lista com as propostas dos comportamentos que passam a ser considerados anormais, os que deixam de ser e os que se mantêm foi divulgada em fevereiro. Aqueles que, como Priscila, não concordam com a permanência das práticas de BDSM no manual, como está sendo proposto, ou com qualquer outro item da lista, poderão se manifestar. O rascunho ficará disponível na internet (www.dsm5.org) até abril.
Se depender do apoio de maridos pegos sobre a cerca, uma das propostas que deve fazer sucesso é transformar o impulso sexual excessivo – ou compulsão sexual – oficialmente em transtorno psiquiátrico. Estima-se que o problema – caracterizado pela obsessão incontrolável pelo ato sexual, capaz de prejudicar a capacidade de concentração e de dedicação às tarefas do dia a dia e comprometer o trabalho, a saúde e os relacionamentos da pessoa – afete cerca de 6% da população dos Estados Unidos. Mesmo assim, tal impulso incontrolável é visto com certa desconfiança, dada a quantidade de homens que já apelaram a ele para justificar suas aventuras sexuais fora do casamento. Depois de antecessores famosos como os atores Michael Douglas e David Duchovny, o compulsivo da vez é Tiger Woods, que deu uma entrevista coletiva se desculpando por seu problema incontrolável na semana passada. O campeão de golfe passou um tempo internado para tratar da suposta compulsão sexual depois que vieram à tona seu caso extraconjugal com uma garçonete de Nova York e aventuras com pelo menos uma dezena de outras mulheres.
Estima-se que a hipersexualidade prejudique
a vida de 6% da população americana

A vantagem de incluir no novo manual uma doença que já é tratada pela medicina, segundo o psiquiatra Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, é poder estudá-la mais detalhadamente e descobrir quais tratamentos e intervenções dão melhores resultados. No caso da hipersexualidade, isso também poderá aumentar a credibilidade dos pacientes. “Mas pode ter como efeito colateral mais justificativas médicas para casos de adultério”, diz. De acordo com Hetem, mais controversa do que a proposta de incluir a hipersexualidade no rol das doenças psiquiátricas é a que pode servir de argumento para livrar estupradores da cadeia. Ele diz que essa é a segunda vez que se considera incluir no DSM o Transtorno Obsessivo Coercivo, definido como “fantasias e desejos intensos com a possibilidade de forçar outra pessoa a fazer sexo”. A primeira foi em 1984, na terceira revisão do documento. A inclusão foi rejeitada, pois os responsáveis concluíram que seria impossível validar de maneira confiável o que diferenciava os estupradores doentes dos antissociais. A proposta atual continua com a mesma dificuldade. Mesmo os especialistas que não são contrários a ela, como o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, da Unifesp, acreditam que ela deve ser barrada novamente. “O conceito é bom, não me oponho. Nem toda pessoa que comete estupro tem personalidade amoral, a maior parte sofre com o que está fazendo”, afirma. “Mas é fato que qualquer estuprador pego vai alegar o transtorno. E o diagnóstico é feito com base no relato do paciente.”
Comportamentos sexuais só devem ser tratados quando
prejudicam a vida de alguém, dizem psiquiatras
Um dos grandes problemas de transformar comportamentos em distúrbios mentais é definir o limite entre a normalidade e o excêntrico, o inofensivo e o prejudicial. Em relação ao sexo, quais práticas são naturais e quais precisam de intervenção médica? Com base em que isso é definido? O conceito de saudável para a Organização Mundial da Saúde (OMS) define-se pelo “bem-estar biopsicossocial do ser humano”. Guiados por essa definição, os profissionais que estudam a mente humana dizem que comportamentos sexuais só precisam ser tratados quando afetam negativamente a vida do indivíduo ou dos que se relacionam com ele. “Se a pessoa não sofrer e não prejudicar terceiros, não é uma patologia”, diz Ronaldo Pamplona, psiquiatra e sexólogo, autor do livro Os 11 sexos, as múltiplas faces da sexualidade humana. O objetivo do DSM, portanto, é apenas servir como base para o diagnóstico e a identificação de um distúrbio.
“A partir do reconhecimento do problema é possível conduzir um tratamento não para curar, mas para reduzir o sofrimento da pessoa.” E apenas quando este for o desejo do indivíduo, como foi o do advogado paulistano que prefere ser identificado como Márcio (nome adotado para proteger sua identidade). Ele é crossdresser, alguém com compulsão de se vestir e se portar como mulher, e fez 15 anos de terapia. Aos 46, casado, com uma filha, profissional de sucesso, leva uma vida tranquila. Duas vezes por semana ele se transforma em Márcia, em um apartamento que mantém no centro da cidade. “Não me sinto doente. Sou diferente dos padrões morais e éticos da sociedade”, diz. “O fato de eu não poder pôr para fora meus sentimentos é que me causava problemas, mas a terapia me ajudou a me aceitar.” O comportamento do advogado está descrito na atual versão do DSM, no capítulo das “parafilias”, definidas como preferências ou obsessões por práticas sexuais socialmente não aceitas. A proposta é que continue no DSM-5.
Márcio tem duas visões distintas sobre a lista de parafilias do manual psiquiátrico, que também inclui – e deverá manter – o voyeurismo (obtenção de prazer sexual através da observação de outras pessoas) e o fetichismo (uso compulsivo de objetos ou partes do corpo como estímulo à satisfação sexual.). Como advogado, é contra a retirada de algumas delas da classificação. Na Justiça, é preciso comprovar a “doença” para ter direito a atendimento médico público – inclusive para a operação de mudança de sexo em transgêneros. Como crossdresser, não acredita na necessidade de estar incluído numa lista de distúrbios. “Os comportamentos desviantes têm de ser analisados caso a caso, não precisam estar numa lista”, diz.
A lista é necessária, afirmam os médicos, porque ela vai orientar os diagnósticos clínicos e a pesquisa científica. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, a classificação ajuda a normatizar. “Um psiquiatra recém-formado se baseia nela até aprender todas as características que fazem parte de determinado quadro clínico”, diz. Daí a necessidade das revisões periódicas. Um psiquiatra que estudou há 30 anos aprendeu que a pedofilia era um distúrbio exclusivamente masculino. Não é verdade, hoje se sabe. Até 1970, a homossexualidade era tratada como doença e fazia parte do DSM. Talvez não tivesse permanecido ali por tanto tempo se os homossexuais tivessem tido a oportunidade de se manifestar, como agora podem fazer os sadomasoquistas, os crossdressers e todos os que se identificarem na lista que está sendo proposta e não concordarem com ela. “Ainda que a decisão final caiba ao grupo de pesquisadores envolvidos na revisão, tenho certeza de que a opinião pública vai pesar”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Hetem.

terça-feira, 2 de março de 2010

Em 2010 (texto)

Como escrevi num post recente, este ano não vai ser igual aquele que passou: primeiro porque estou me afastando de tudo e todos que me estressam, principalmente no trabalho. Já dei um primeiro passo. Além disso, voltei à academia de ginástica. Tudo bem que não dá para cantar vitória assim tão imediatamente, mas hoje fui à segunda aula. E tudo isso depois de 4 anos sem sequer passar em  frente a qualquer clube de ginástica. Ficava até mal humorado se alguém me propunha malhar, andar de bicicleta, nadar (tudo o que já fiz com muita paixão).
Aos poucos quero retomar uma vida mais saudável!

segunda-feira, 1 de março de 2010

445 anos de Cidade (texto)

Nem a chuva foi capaz de desanimar os cariocas que comemoram nesta segunda-feira (1º) os 445 anos do Rio. Para celebrar a data, foi oferecido o tradicional bolo gigante com dez metros de comprimento a quem passava pelo Largo da Carioca, no Centro.
O bolo teve diversas estampas dos cartões postais da cidade, como o Maracanã e o Cristo Redentor. Uma banda de marchinhas animou os cariocas tocando músicas como “Cidade Maravilhosa”.
Show na Cidade de Deus
As comemorações dos 445 anos do Rio se estendem até o final do dia. À noite, um show de Gilberto Gil e com participações de MV Bill, Maria Gadu, Pedro Neschling, Grupo Revelação e Preta Gil promete animar, pelo segundo ano consecutivo, os cariocas na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio.
Desde cedo, os técnicos trabalham na montagem do palco do espetáculo. A cantora Nega Gizza e o ator Eri Johnson serão os apresentadores da festa.
“É importante a gente dizer que no ano passado as pessoas vieram de todos os lugares e agora esperamos que todos venham à Cidade de Deus curtir a festa e comemorar oficialmente a festa do Rio”, disse Nega Gizza.
“A festa será maravilhosa, assim como as atrações. Ano passado foi ótimo, ficou tudo lotado e tenho certeza que a chuva não vai atrapalhar a festa”, falou Eri Johsnon.
Escritório nos cartões postais
Alguns cariocas têm a sorte de terem como escritório de trabalho os mais belos cartões postais da cidade.
Esse é o caso do maquinista Rubens da Silva, que há 25 anos pilota o trem que percorre os trilhos de acesso ao Corcovado. São até 15 viagens por dia e quase dez horas subindo e descendo trilhos. Mesmo assim, Rubens garante nenhuma viagem é igual a outra.
“É um trabalho muito bom, um belo passeio e para a gente sempre é uma novidade”, disse o maquinista
Já o professor de surf Roberto Mer tem como local de trabalho um dos lugares preferidos dos cariocas e turistas: a Praia do Arpoador, na Zona Sul do Rio.
“Eu falo que meu escritório é na praia e todo mundo pode aproveitar e trabalhar aqui também, fazer umas aulas de surf”, brincou Roberto.

Polícia em casa (dá pra confiar?)

A Polícia Civil inaugurou nesta segunda-feira (1º) o programa Delegacia de Dedicação ao Cidadão (DEDICA), que tem por objetivo acelerar as investigações e obter uma maior aproximação com a população. Com o novo programa, a vítima pode ligar para a delegacia da circunscrição em que mora, ou fazer o pré-registro pela internet, agendando uma hora entre 8h e 0h para receber os agentes em casa, ou, se preferir, para comparecer à unidade policial.
O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, e o chefe de Polícia Civil , Allan Turnowski, estiveram nesta manhã na 12ª DP, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, para dar início ao programa, que será implantando inicialmente em sete delegacias.
"Vai ser uma forma da comunidade identificar o policial do seu bairro, saber sua fisionomia. O policial tem que estar na rua investigando. Sabemos que vamos ter erros e acertos, mas estamos prontos para melhorar. A gente sabe que no ínicio vamos ter uma certa desconfiança", disse Turnowski. "Nós estamos todos juntos para enfrentar até o final esse programa", completou Beltrame.
Os agentes que participarão do programa irão trabalhar em período integral, em escala de expediente, de segunda a sexta feira, perfazendo oito horas diárias.
Segundo Turnowski, o número de policiais dobrou. Antes do programa, o efetivo era de 11 policiais por dia, agora com o novo programa serão 55 agentes na 12ª DP.
Policiais descaracterizados
Dos policiais lotados nas delegacias, apenas 20% a 30% continuarão a trabalhar sob o regime de escala de 24h por 72h. O foco da iniciativa é a investigação policial, por isso o efetivo trabalhará totalmente descaracterizado.
A equipe de investigadores ficará em contato com o cidadão e ligará para saber como ele foi atendido, além de mantê-lo informado por telefone ou pela internet sobre o andamento do seu registro de ocorrência.
Ao solicitar a visita dos policiais em casa, a vítima recebe os nomes dos agentes, além do modelo da viatura descaracterizada em que eles estarão. Para agilizar o atendimento, os policiais trabalharão com um laptop e uma impressora.
Para usar o serviço, a pessoa tem que morar na mesma circunscrição da delegacia responsável e o crime deve ter sido cometido naquela região.
O programa começa a funcionar na próxima semana e as delegacias que servirão de modelo são: 12ª DP (Copacabana), 14ª DP (Leblon), 15ª DP (Gávea), 16ª DP (Barra da Tijuca), 19ª DP (Tijuca), 35ª DP (Campo Grande) e 77ª DP (Icaraí).
Para este trabalho, foram convocados alguns dos novos inspetores de polícia formados no dia 17 de dezembro. Os policiais envolvidos no programa foram preparados exclusivamente com o objetivo de atuar no novo projeto. Eles participaram de cursos de aperfeiçoamento em técnicas de atendimento, voltados para grandes eventos, além de terem recebido aulas de inglês e espanhol. O tempo para fazer um registro, que antes demorava 17 minutos, será concluído em até 3 minutos. 
As perguntas que não podem deixar de aparecer: Será que dá para confiar num policial em casa? Será que  o telefone vai funcionar oiu a internet   vais estar online?
Tentei, podem verificar aqui no blog, em janeiro falar com a ouvidoria da Polícia Militar (sei que aqui se trata da Civil) e não consegui: o telefone não funcionava e quando me atenderam fui informado de que a internet passava por uma atualização e por isso eu não poderia registra a reclamação via online.

BBB (texto)

Ontem, antes de dormi. liguei a TV como sempre faço. E como sempre faço tb fiquei com o controle na mão vendo se algum canal tinha alguma programação que prestasse, ou que me chamesse atenção. No National Geographic uma reportagem sobre gêmeos siameses (repetida, pra variar). Por isso, por já tê-la assistido num outro momento de insônia, continuei com o controle à mão na busca de alguma programação. Até que parei na Globo e lá estava o Bial fazendo algum comentário de um dos participantes do Big Brother, era o Serginho.
Como nunca assisto ao programa (nunca assisti) porque acho tudo aquilo uma grande bobagem e principalmente, não consigo encontrar uma razão sequer que me faça acompanhá-lo, resolvi investir nesses poucos minutos de apresentação do Sérgio. Descobri que ele é gay e que, por alguma razão, renascia das cinzas (seja lá o que isso signifique para quem acompanhar (meus deus!) os brothes). Descobri tb que não descobri nada e está aí a razão pela qual continuo insistindo naquela posição de que o programa nos faz perder um grande e pricioso tempo (mesmo que se use esse tempo para dormir, muito).
Inda bem que temos o controle na mão e basta um clique para estarmos bem longe de toda essa baboseira, distante de toda essa lavagem (comida de porco!). O que é que não se faz para ganhar alguma grana! E o que é que não se faz para perder alguma grana tb! Deus, salve a América!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Casa cheia (texto)

Recebi, depois de algum tempo, amigos em casa. Nem sei há quanto tempo eles não aparecem para uma visita mais longa. Sei que, apesar da casa pequena, do pouco conforto, foi um bom final de semana. Conversamos, rimos, bebemos (moderadamente, é claro) e, sobretudo, nos divertimos bastante. Sempre é bom tê-los por perto. Aquelas histórias construídas juntos nos fazem acreditar e esperar dias melhores.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Como se nada tivesse acontecido (texto)

Tudo continua como se nada tivesse acontecido...
Ainda que eu saiba que não se parte do nada.
O sol, o dia, a chuva, o vento
tudo em seu lugar
como se nada tivesse acontecido.

Só eu acordo diferente.
É uma mar de saudade.
Nos meus sonhos você ainda não se foi.

Os pesadelos acabaram (!?), é verdade
mas você continua como se nada tivesse acontecido.
Quando sinto muita saudade a ponto de você
Sair como água dos meus olhos
Eu pego o telefone e ligo pra ele.

Ele me reconta as velhas histórias, como se nunca as tivesse contado.
Eu ouço com atenção e mato um pouco a sua ausência.
Tem uma dor que não passa. Tem uma dor que não passa nunca.

Esse relógio come todas as horas
Como se nada tivesse acontecido
Só eu acordo diferente.

Tenho uma recorrente sensação de estar sozinho,
Tudo continua no seu lugar.
Queria poder acordar desses dias e recomeçar essa história.

Tem essa dor que não acaba nunca.
Não tenho pra onde ir: sala, cozinha, quartos. Tudo é tão pequeno.
Não compreendo metade de todas as coisas. Não compreendo nada.
E tudo continua como se nada tivesse acontecido.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

E isso tb faz parte (texto)

Agora à noite, enquanto preparo a aula de amanhã, diante do computador (não sei mais como seria preparar aulas sem o auxílio do computador), fiquei pensando sobre os meus velhos amigos ... aqueles de muitos anos e que sequer se sabe por onde andam ...aqueles que, numa etapa da vida, acreditava-se, seriam os meus amigos pra sempre.
Quando a gente é mais novo tem a inocente certeza de que nada vai mudar. De que é muito pouco provável que a vida se transforme completamente. Todos os planos que dizem respeito àqueles amigos vão sendo substituídos, aos poucos, pelas possibilidades urgentes: pelo emprego que surge em qualquer lugar, pelo apartamento acessível num outro bairro ou numa outra cidade, pelos estudos, novos interreses, amores (tudo isso passa a ser prioridade, ou talvez, necessário numa fase da vida).
Os amigos vão ficando pelo caminho. A intimidade se perdendo. Até o prazer do reencontro esvai. E vamos seguindo ... vamos levando ... e isso tb faz parte.

Impeachment de Arruda (texto)

Deu na Globo.com: A Comissão Especial da Câmara Legislativa do Distrito Federal, formada por cinco deputados, aprovou por unanimidade, nesta sexta-feira (26), o parecer favorável do deputado Chico Leite (PT) que pede, em quatro processos, o impeachment do governador afastado do Distrito Federal, José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM), acusado de comandar um esquema de distribuição de propina revelado durante a Operação Caixa de Pandora, em 27 novembro do ano passado.
Agora, o parecer será enviado ao plenário da Casa na terça-feira (2), que aceita ou não o pedido. Se aprovado, o governador afastado terá 20 dias para se defender. A defesa volta para a comissão especial, que julga o mérito. No caso de ela aceitar o pedido, o impeachment volta ao plenário e deve ser aprovado por, no mínimo, 2/3 dos votos. Se acatado, Arruda é afastado por 120 dias. Depois disso, uma comissão formada por cinco deputados distritais e cinco desembargadores faz o julgamento final. A procuradoria da Câmara deve soltar um parecer sobre quando Arruda pode ou não mais renunciar.
José Roberto Arruda está preso na superintendência da Polícia Federal desde o dia 11 de fevereiro por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de tentar subornar uma testemunha do caso. O vice-governador, Paulo Octávio, que assumiu o cargo interinamente, renunciou na tarde de terça-feira (23). Com a renúncia, o cargo de governador interino do Distrito Federal foi assumido pelo presidente da Câmara Legislativa, Wilson Lima.
A comissão também decidiu arquivar os pedidos contra o ex-vice-governador Paulo Octávio (sem partido, ex-DEM), já que ele renunciou ao cargo.

Passou (texto)

Sobrevivi a primeira semana de aula. Não foi fácil, preciso dizer. Na quarta com os alunos da graduação, ontem, quinta-feira, o dia com os professores do PDE e hoje uma parte da manhã com os alunos do doutorado. Pesadelos, insônia, ansiedade: tudo isso me atormentou durante as 2 semanas que precederam as atividades. Ufa, Passou!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Primeiro dia de aula (texto)

Hoje foi o primeiro dia de aula. Nunca fico à vontade nessas situações, mas, (in)felizmente, preciso passar por esse primeiro encontro. Depois todas as situações vão ficando mais tranquilas. Ouvi os alunos, já me diverti com alguns. Uns falam bastante, outros querem morrer de vergonha. Eu fico no meio termo.
O mais difícil é falar sobre avaliação sem que eles se assustem. Tb faz parte do cerimonial.
Não dormi bem à noite já por conta dessa primeira aula. 
A turma é muito grande. Sala cheia demais. Sempre acho que 50 e poucos alunos nunca é um número adequado para qualquer coisa. Quem aguenta? Foi dada a partida. Agora é esperar pelas próximas quartas-feiras.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Perdi uma sobrancelha (texto)

Eu raspo a cabeça. Isso não é novidade para a grande maoria dos meus amigos. Novidade mesmo foi eu raspar, sem querer, metade da minha sobrancela esquerda. Enquanto eu raspava a cabeça diante do espelho perdi a direção e ... já era.
Hoje, fiquei cool, o tempo todo de óculos escuro, com um ar blasé. Mas na verdade, eu estava sem parte da sobrancelha esquerda.
Uma amiga deu um jeito com um lápis, mas não me senti à vontade. A impressão era a de que a falta dela gritava no meu rosto. Acho que preciso de uns dias de recesso até que os pelos nasçam outra vez.

Perdidos na tradução

Passaram-se  trinta e um anos . Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em...