quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A gente se supera (texto)

Vc é  um cagonildo, diria um grande amigo sobre mim. Eu teria que, em parte, concordar com ele. Sou mesmo um cara medroso. Inseguro até o pescoço. Mas eu disse que a concodância é apenas em parte, porque ainda que eu seja um cara com os meus medos (e quem não os tem?), ele não me paralisa. Não me impede de acreditar que pode ser diferente.
Já achei que ia morrer, já morreram grandes amigos, já perdi minha mãe (grande perda), já perdi muitos amores, outros amigos foram morar longe, já fui morar longe, fui reprovado algumas vezes, ouço "não" quase todos os dias, já passei altas vergonhas, mas não deixo que o medo me impeça de resistir. Passei por todos esses momentos e quando se está atravessando um deles não dá, quase sempre, para achar que há superação.
Eu posso dizer que há. Até a morte a gente supera. A gente supera a dor. A gente se supera. E por mais que nos pareça impossível, insuportável, dolorido, angustiante, intransponível, sufocante, por mais forte que seja a pressão, vai acalmar. Bem, não estou falando de solução, não escrevo sobre isso, mas sobre a tranquilidade que, mais cedo ou mais tarde, chega.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Guia classifica universidades receptivas a alunos LGBT (texto/pesquisa)

A organização britânica Stonewall, que luta contra a homofobia, criou, no ano passado, o primeiro guia online que classifica as universidades como preparadas ou não para receber estudantes LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).
Financiado pelo Google, o Gay by Degree está em sua segunda edição e analisou 160 instituições a partir da informação disponível em seus sites. São dez critérios – entre eles, se há funcionários treinados para evitar incidentes homofóbicos no campus. Apenas quatro universidades conseguiram a pontuação máxima nesta edição: Universidade College (UCL) e Imperial College, ambas em Londres, e duas no interior – a de Wolverhampton e a de Portsmouth. Na primeira edição, ninguém chegou lá.

Leia a seguir a reportagem completa:

Quais são os critérios que levam os jovens a escolher uma ou outra universidade? Além da qualidade do ensino, eles e elas querem saber se vão ser bem recebidos.
Foi por isso que a Stonewall, organização britânica que luta contra a homofobia desde 1989, criou, no ano passado, o Gay by Degree - o primeiro guia on-line que classifica as universidades como preparadas ou não para receber estudantes LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).
Uma pesquisa da organização, de 2007, indicou que 65% dos estudantes LGBT enfrentavam em suas escolas o bullying homofóbico. Um terço das agressões, no ensino fundamental, vinha dos próprios professores.
“Os universitários que consultam nosso guia ficam felizes em saber que sua próxima experiência pode ser diferente”, afirma Chris Dye, um dos responsáveis pela realização do Gay by Degree (http://www.gaybydegree.org.uk/).
Não há um ranking, mas 160 universidades do Reino Unido são avaliadas sob a luz de dez critérios.

Veja abaixo os dez critérios de classificação usados no Gay by Degree.
1. Há uma política interna que protege os alunos LGBT de bullying?
2. Os funcionários são treinados para lidar com alunos LGBT e/ou impedir incidentes homofóbicos?
3. Existe alguma agremiação de alunos LGBT?
4. Há informação disponível aos estudantes sobre temas relacionados a LGBT?
5. A instituição tem o selo Stonewall Diversity Champion, tipo de credenciamento para quem participa da rede em prol da diversidade nos ambientes de trabalho?
6. Há eventos especialmente realizados para alunos LGBT?
7. Há algum tipo de apoio financeiro exclusivamente oferecido aos estudantes LGBT?
8. Há uma ouvidoria específica para alunos LGBT?
9. Há aconselhamento profissional específico para alunos LGBT?
10. Há uma rede atuante de funcionários LGBT?

Segundo os realizadores do guia, “para que a informação pública e de fácil acesso seja um critério a priori”.
“Algumas escolas avançaram. Elas estão usando o guia para comparar-se umas às outras e melhorar a qualidade como recebem os novos alunos. Muitas fizeram mudanças nos sites para que as informações ficassem mais visíveis”, diz Dye.

DIVERSIDADE
A Universidade College de Londres, uma das que aparecem no topo do Gay by Degree, conta com um departamento de igualdade e diversidade desde os anos 1990. “É um ponto muito importante para uma universidade que abriga alunos de 140 países. É preciso sempre reforçar o respeito às diferenças”, diz Fiona McClement, conselheira do departamento.
Davina Moss, que começa em Cambridge em setembro, usou o guia no ano passado para poder “desempatar” escolhas. “Entre minhas dez eleitas, usei a informação para saber mais sobre a postura da universidade”, diz.
Cambridge, aliás, uma das universidades mais velhas e tradicionais do mundo, com mais de 800 anos de idade, é considerada pelo guia a mais “gay friendly” do Reino Unido - apesar de atingir apenas oito critérios da lista.
Anthony Woodman não vê nenhuma contradição nisso.
“Rigor intelectual e pensamento crítico sempre andaram juntos aqui, e a escola sempre esteve à frente nas questões de seu tempo”, diz o presidente da organização estudantil CUSU-LGBT, que afirma ter 700 membros em sua lista virtual de discussão.

LIVRE PENSAR
Para Alexander Bramham, estudante e coordenador de eventos da Sociedade LGBT da Universidade de Oxford - mais um grande nome entre as tradicionais e antigas universidades inglesas -, não há surpresa em ver essas duas instituições com boas avaliações no Gay by Degree (Oxford também atende a oito critérios).
“Oferecer um espaço de qualidade para a educação tem a ver com promover a igualdade e a tolerância no campus”, afirma Bramham.
A organização em que trabalha, liderada por um comitê de alunos eleitos anualmente, nasceu em 1969. Hoje, sua página oficial no Facebook, segundo o estudante, já tem mais de 200 membros.
“A universidade deve ser um lugar onde as pessoas possam aprender mais sobre si mesmas. Eu não teria escolhido Oxford se não visse essa abertura aqui”, completa.
“Não conheço outro guia parecido“, afirma Chris Dye, da Stonewall, que comemora os já ultrapassados 7.000 visitantes únicos desta edição.
Na era dos rankings no ensino superior, eles serão apenas o primeiro?

Pergunta do editor: Depois de ler o artigo acima, você tem alguma sugestão de universidade inclusiva, com boa receptividade as pessoas LGBT, ao menos que tenha um discurso próximo da Educação Sexual de forma Transversal? Universidades deveriam ter disciplina de Educação Sexual, também? Sim ou não, porque?


Na hora H, no dia D (texto)

Odeio quando algumas questões são resolvidas no último dia, na última hora, no prazo final. Não suporto a pressão de, por exemplo, um site que não abre devido ao grande número de acesso ou coisa parecida. Sobretudo se não funciona por "coisa parecida".
Mas quando a (ir)responsabilidade não é sua, quando não depende apenas da sua própria vontade, tempo, disponibilidade, quando vc já tentou de todas as formas e nada adiantou, não há muito o que fazer senão esperar. Tô fazendo isso.
Estou faz, aproximadamente, duas horas diante do computador tentando entrar no site da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa) para fazer a inscrição de um aluno para apresentar um trabalho.
Hoje é o último dia, um outro irresponsável não fez o que lhe cabia, e sobrou, claro, pra mim. Vou resolver mais essa pendenga. Faz parte do dia a dia do professor lidar com todo tipo de gente. Inda bem que encontramos com certa facilidade gente honesta, disponível, organizada, bem intencionada. O resto é o resto e não se tem muito mais o que dizer. A vida ensina.
O problema é que não consigo, posso, fazer outra coisa, a não ser dar uma passadinha aqui e postar um texto, já que se eu não fizer o que devo hoje, não faço mais em outro dia.
Fico apenas pensando num tempo perdido diante do computador. E o site não abre. E a hora te consome. E nada acontece.
Não dá nem para culpar a universidade. Quem mandou deixar para a última hora?! Todos nós sabemos que isso é recorrente. Ai que pena de mim!

Bolsonaro e as calcinhas (texto - Debora Diniz)


Para antropóloga, imagem do deputado em propaganda de roupa íntima seria desrespeito às mulheres e aos gays

DEBORA DINIZ*

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi convidado para ser garoto-propaganda da Duloren, empresa especializada em roupas íntimas. Bolsonaro não é nenhum deus grego que inspire mulheres a comprar calcinhas. Não é seu corpo que importa à Duloren, mas suas opiniões sobre sexo, gays e mulheres. A atual campanha da Duloren de moda para homens no site da empresa traz a imagem de um desses modelos perfeitos sendo admirado por um pit bull. O slogan da campanha é "perigoso, viril e arrebatador". Minha dúvida foi se a chamada era para o cachorro ou para o modelo. O cachorro e o modelo estão de cueca, a diferença é que o cachorro a usa entre os dentes. Imaginei a atualização da campanha com Bolsonaro como modelo para a venda de calcinhas. Com o slogan "machão, conservador, homofóbico", Bolsonaro ocuparia bem o lugar do pit bull.
O comércio de roupas íntimas transita entre símbolos contraditórios sobre o corpo e a sexualidade: o proibido e o desejado, o vulgar e o íntimo. Bolsonaro e as calcinhas representarão a força do vulgar, mas com alta dose de desrespeito às mulheres e aos gays. Não consigo imaginá-lo vestindo calcinha na campanha, o que seria um contrassenso ainda maior, considerando sua posição de parlamentar. Portanto, sua aparição deve ser como a de quem admira ou aprova mulheres vestindo calcinhas. Exatamente o lugar de censor moral no qual hoje ele vocifera como deputado ou, na iconografia da Duloren, o lugar do pit bull que admira os homens: o senhor da heterossexualidade, a favor de que as mulheres retornem à casa e ao cuidado dos filhos, e contra a igualdade sexual. Há outras cores de conservadorismo na voz do quase modelo da Duloren: revisionismo da ditadura como opressão, defesa da pena de morte, além das recentes controvérsias sobre racismo.
O que fez a Duloren imaginar que Bolsonaro inspiraria as mulheres a comprar calcinhas? Apostar na ironia seria o caminho confortável e menos controverso, mas também pouco provável para uma empresa que se rege pelo lucro. Bolsonaro não seria um modelo, mas um contramodelo para a intimidade feminina. Ao comprar uma calcinha aprovada por ele, as mulheres negariam os valores subliminares da campanha. Bolsonaro não seria o censor que se imagina ser, mas uma paródia de seu colega Tiririca no campo da sexualidade feminina: o humor sexual moveria o comércio das calcinhas. Acho pouco provável uma aposta de risco como essa. Uma campanha de sucesso é aquela cuja mensagem não deixa dúvida sobre sua eficácia, semelhante à promovida pela Duloren que envolvia um padre e uma modelo com roupas íntimas, ambientada na Praça de São Pedro. A modelo segurava uma cruz em direção ao padre, sugerindo que a lingerie provocaria o espírito libidinoso dos padres. Não havia dúvidas quanta à mensagem dessa campanha, o que deixou a Igreja Católica justamente indignada.
Minha aposta sobre o sentido da campanha é outra. Não há subliminaridades em Bolsonaro como garoto-propaganda, assim como no uso da cruz e do padre na campanha anterior. A Duloren aposta no símbolo do machão como o de um bom vendedor de calcinhas, assim como apostou no modelo perfeito e no pit bull para vender cuecas para homens. É o sentido do machão na cultura brasileira que será negociado pela campanha. Gostar de mulheres e, mais ainda, de mulheres lindas vestindo calcinhas sedutoras, seria um ato de masculinidade. Para admirar mulheres na intimidade, somente homens machões. Mas machão aqui não se resume à ordem heterossexual do desejo - confunde-se com a homofobia, a opressão de gênero e a redução das mulheres a objeto de posse dos homens. O machão censor da sexualidade e do corpo das mulheres está em baixa e a Lei Maria da Penha é um sinal vigoroso da sociedade brasileira sobre essa mudança de mentalidade e práticas de gênero.
Não sei se Bolsonaro ajudará a Duloren a vender calcinhas, mas a Duloren o ajudará a se manter como o deputado federal censor da sexualidade. Afirmar-se como machão e defensor da heteronormatividade faz os parlamentares se projetarem, nem que seja pelo espanto medieval. O sinal mais recente dessa atualização do machão foi a aprovação da lei para a criação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo. Foram 31 votos pela aprovação contra 19, com forte hegemonia dos partidos conservadores na defesa da lei. Assim como na campanha da Duloren, há várias incongruências na lei, sendo a mais importante a inversão da ordem moral - quem é discriminado é o gay, e não o heterossexual. Não se mata um casal heterossexual na rua, mas se violentam pai e filho que expressam carinho em público. A homofobia mata, mas é a heteronormatividade que define as leis e, como gorjeta, pode ajudar o capitalismo a vender calcinhas.

* DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UnB E PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pensando bem, é um tiro em cada pé (texto)

Nem sempre a competição é saudável. Pensando bem, quase nunca ser competitivo é legal. Pra ser sincero, gente que vive disputando qualquer coisa é chata pra cacete.
Como alguns sabem, sou professor. Estou nessa de sala de aula faz muitos anos. Pra ser bem específico, são exatamente 26 anos de entra e sai de sala de aula, bom dia, boa tarde e boa noite. Em virtude disso, desses tantos anos de escola (ensino fundamental, médio e universitário), experimentei muitas faces de alunos e colegas de profissão.
É interessante como turmas de alunos (e professores) comportam-se mais ou menos de forma homogênea em se tratando de competição. Já tive turmas muito competitivas e turmas nada competitivas, tive, infelizmente, poucas turmas equilibradas em relação à competição. Não sou do tipo, acho, que estimula a competição em sala de aula. Bem ao contrário, penso. Acho que o mais importante é compartilhar conhecimento para que a maioria se saia bem...
*Alunos competitivos são chatos. Alunos que comparam notas são insuportáveis. Alunos que disputam lattes então, melhor não comentar. Acho que fica faltando um sei lá o quê de interessante em pós-adolescentes que se tornam técnicos demais.
Sou das letras, ainda que eu dê aulas de linguística, sou das artes, da literatura (e não pense que professores de literatura sejam mais artistas, não mesmo! Alguns são tão ou mais técnicos do que os que trabalham com a linguística dura), da música, da poesia, do bate-papo e da filosofia. A linguística dura é da porta da sala de aula para a prova, não me ocupa mais do que nesses espaços.
A competição nos torna insensíveis (e nem me venham com essa de que competição tem lá suas vantagens...nunca soube de nenhuma que fosse saudável.), não se vê, ao ser tomado por ela, o fim do túnel, porque ela passa ser um buraco negro. Nossas visões ficam turvas diante dela, e, somos, portanto, tomados pela vontade de ser mais, ter mais, conseguir juntar a maior quantidade de todas as coisas.
É claro que a maneira como funciona a universidade, por exemplo, estimula a competição. O nosso espaço é dimensionado pela produção, mas nem sempre uma produção de qualidade. Até porque não se tem um meio para avaliar tanto trabalho (mesmo que estejamos falando de Qualis), no fim das contas o que conta é a quantidade. Mesmo que seja medíocre. Por outro lado, esse funcionamento (o da quantidade) é uma imposição a qual nos submetemos sem sequer questioná-la, somos prisioneiros e carcereiros, escravos e senhor.
A competição nos torna vítima e algoz.

*alunos e professores.

domingo, 31 de julho de 2011

Um pouco de poesia para iluminar a vida

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Da Série Contos Mínimos

Comemorariam três décadas juntos se não fossem surpreendidos por novidades desagradáveis. A vida nunca espera data, hora certa, dia da semana, mês mais propício para se anunciar. Chega como a dona do pedaço, não escolhe palavras, atravessa o nosso dia como se o dia fosse apenas seu.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Pesquisa mostra que filhos de pais gays não sofrem prejuízos psicológicos (texto)

A função psíquica materna e paterna pode ser exercida por pessoas do mesmo sexo.
Um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) revela que a criação e educação de crianças por casais gays não causa perda psicológica nos filhos – a função psíquica materna e paterna pode ser exercida por duas pessoas do mesmo sexo. As informações são da Agência USP de Notícias.
De acordo com o autor do estudo, o pesquisador Ricardo de Souza Vieira, a estrutura familiar e o desenvolvimento da criança não estão vinculados com a orientação sexual do casal, mas, sim, com o desejo de ser responsável por uma criança.
- As relações de responsabilidade dos pais e da criança com os adultos, que definem a estrutura familiar, não sofrem alterações. As funções psíquicas são o que realmente importam para o desenvolvimento de uma criança, e elas estão descoladas do aspecto anátomo-fisiológico do corpo.
Segundo ele, em um casal formado por homossexuais, tanto a função psíquica materna — mais próxima da criança e responsável por ensinar a linguagem e por cuidar e proteger com mais intensidade — quanto a paterna — que limita a proximidade da criança com a mãe e tem a função de determinar limites e leis – podem estar ou não presentes. Mas isso também ocorre dentro das famílias de casais heterosseuxais.
- As funções de parentesco são mais simbólicas do que biológicas.
Segundo o pesquisador, as crianças não sentem a necessidade de possuir uma mãe, do sexo feminino, e um pai, do sexo masculino, pois as funções psíquicas desses “entes” já estão sendo exercidas por duas pessoas do mesmo sexo.
- Não há regra geral, a criança costuma criar diferentes formas de nomear os pais, como: pai X e pai Y ou mãe X e mãe Y. Raramente uma criança chama um de “pai” e outro de “mãe”.
Segundo o pesquisador, a maneira como a criança percebe, valoriza e qualifica a realidade depende de como os pais transmitem sua própria maneira de entender essa realidade.

Aspecto jurídico
No Brasil, não há leis que regulamentem a adoção de crianças por casais homossexuais. Todas as decisões, nesse âmbito, são tomadas por meio da jurisprudência, ou seja, as decisões são baseadas em um conjunto anterior de decisões e interpretações da legislação por outros juízes.
Atualmente, não é permitido que um casal homossexual registre qualquer criança como filha ou filho. Apenas um dos companheiros ou companheiras homossexual, pelo menos 16 anos mais velho que a criança, pode assinar a adoção.
No entanto, em 2006, a Justiça emitiu uma certidão de nascimento em que um casal de homens gays, de Catanduva, interior de São Paulo, são os responsáveis pela paternidade de uma criança adotada. Decisão semelhante já havia beneficiado dois casais formados por mulheres - um em Bagé (RS) e outro no Rio de Janeiro (RJ).
Segundo Vieira, o principal empecilho para a regulamentação da adoção de crianças por casais homossexuais está no próprio Congresso Nacional.
- Alas do Congresso, como as conservadora e religiosa, em geral, comprometem a aprovação de leis que se referem à ampliação dos direitos dos homossexuais.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Duas ou três palavras sobre a morte de Amy (texto)

Tudo bem que a morte da cantora Amy Winehouse era uma questão tempo. E qual não seria? É claro tb que pelo que se via nos meios de comunicação, ela não levava uma vida, digamos, muito religiosa.
Tudo isso era sabido. Tudo dito. Tudo previsto etc. & tal, mas não posso dizer que não me surpreendi (ou me conformei) com a notícia de sua morte. De jeito nenhum.
Gostava muito do repertório, me divertia com o seu jeito meio foda-se de ser, ouvi sem parar, durante meses, "Back to black", revi, diversas vezes, o DVD desse disco. Me emocionei muito com as suas letras. Fiquei triste quando, por sms, o namorado me escreveu sobre a sua morte.
Quem sou eu para julgar o seu comportamento. Nos matamos de outras formas. Vivemos um dia de cada vez na esperança de estarmos bem psico_fisicamente. E nem sempre estamos. Às vezes nos atolamos, até o pescoço, de açúcar, de gordura, de cigarro, de bebida, de alimentos agrotoxicados, como se isso não nos fizesse mal algum. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

A patrulha do amor (Texto - Ruth de Aquino)

Era uma festa de interior paulista em São João da Boa Vista. O pai, de 42 anos, abraçou o filho, de 18. Eles se veem uma vez por mês. “A gente fica no maior chamego, é a saudade”, disse o pai. Um grupo de seis homens se aproximou e perguntou se eles eram gays. O pai ainda respondeu que não. Foi desacordado por um soco no queixo. Sua orelha direita foi decepada por um dos agressores. Era um serralheiro de 25 anos que odeia homossexuais.
O serralheiro, preso dias depois, foi solto logo. E provavelmente só se arrepende pelo erro de avaliação: se pai e filho fossem um casal, teriam merecido o castigo. Ele é um entusiasta da tese defendida pelo deputado federal Bolsonaro: pais devem dar palmadas em filhos com “desvios” para “curar a doença” que está destruindo a família brasileira.
Essa legião homofóbica é muito maior do que se pensa em nosso país. Ela começa a sair do armário. Os novos direitos iguais dos gays cumprem uma função importante: mostram quem é quem. Preconceitos ficavam escondidos pela legislação discriminatória. Agora, emergem com fúria viril e religiosa. Agressões como essa e tantas outras terão de ser punidas exemplarmente, até que a sociedade se civilize e se modernize. O racismo é crime? A homofobia também precisa ser crime.
“Estava eu, meu filho, minha namorada e a namorada dele. Elas foram no banheiro. Aí eu peguei e abracei ele”, contou o pai, vendedor autônomo que vive numa chácara em Vargem Grande do Sul, cidade vizinha. O filho mora com a mãe em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. “Passou um grupo, perguntou se nós éramos gays, eu falei ‘lógico que não, ele é meu filho’. Ainda falaram: ‘Agora que liberou, vocês têm que dar beijinho’. Houve um empurra-empurra, eles foram embora, mas voltaram. Não sei se eu tomei um soco, apaguei. Quando levantei, senti. A minha orelha já estava no chão, um pedaço.” Uma mulher pegou o pedaço da orelha e colocou em um copo com gelo. No hospital, os médicos disseram que a orelha foi decepada por algum objeto cortante e muito bem afiado. “Não se pode nem mais abraçar um filho”, disse o autônomo.
Esse episódio dantesco numa festa agropecuária não choca apenas pelo ódio aos gays. Parece cada vez mais difícil ser pai amoroso quando, por todo lado, espreita a malícia alheia. Há dois anos, em setembro de 2009, um turista italiano foi preso por acariciar e beijar com “selinhos” a filha de 8 anos numa piscina pública em Fortaleza. Um casal de Brasília chamou a polícia. Estavam indignados com o “gringo pedófilo”. Ele branco, ela mais escura. A menina era filha do italiano com uma brasileira. A mulher também estava na piscina e protestou quando levaram o marido.
Pode-se entender o engano inicial numa região como o Nordeste, onde a prostituição infantil e o turismo sexual são uma tragédia quase oficial. Mas, mesmo depois de esclarecer que o italiano era pai da menina e estava com a mulher, como explicar sua detenção por dez dias de férias? Foi liberado sem pedido de desculpas. Daqui a pouco, um pai não poderá mais ajeitar o biquinizinho da filha, levar a menina ao banheiro, colocar no colo, abraçar e beijar.
Essa polícia do comportamento afetivo é dura, humilhante e cultural. Persegue sobretudo os homens. Em vários países, beijos entre heterossexuais não põem em dúvida sua masculinidade. São expressões de carinho. No Brasil, é mais complicado. Escrevi uma vez sobre o simbolismo de homens fantasiados de mulher no Carnaval. “O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, diz o psicoterapeuta Sócrates Nolasco. “É um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, e nem por isso será tachada de piranha.”
Deve ser cansativo e frustrante tentar se enquadrar o tempo todo no que a sociedade espera do macho. As novas gerações de homens deveriam fazer uma revolução.

domingo, 24 de julho de 2011

Heteroinquisidores: Se pai e filho agredidos por homófobos tivessem se 'confessado' gays, em vez de uma orelha decepada poderia haver dois cadáveres (Debora Diniz - O Estado de S.Paulo)

Minhas visitas à Índia são recheadas de descobertas culturais. Uma das que mais me fascina é a cena de homens de mãos dadas nas ruas. Ao contrário de nós, a expressão pública de afeto entre amigos é socialmente autorizada. Assim como meninas escolares no Brasil, os indianos de qualquer idade andam abraçados com seus colegas. A mesma intimidade entre homens, vi em vários países de tradição árabe. Aos homens, é permitido o toque como sinal de amizade. O curioso é que esse traço cultural não elimina a homofobia. Ao contrário, a homofobia é uma prática de ódio que convive com essas redescrições culturais sobre o corpo e o encontro entre os sexos. Entre nós, a novidade parece ser a de que nem mesmo o afeto entre pais e filhos será permitido pela patrulha homofóbica.
Um pai de 42 anos e um filho de 18 se abraçaram. De madrugada, cantavam juntos em uma festa ao ar livre no interior de São Paulo. Consigo imaginá-los felizes, razão para demonstrarem afeto mútuo. Foi o sinal para que dois homens desconhecidos perguntassem se eram gays. Insatisfeitos com a resposta negativa, saíram em busca de outros homens para iniciar a agressão. O pai teve parte da orelha decepada e o filho teve ferimentos leves. Pai e filho têm medo de represálias, pois os agressores estão pelo mundo, talvez orgulhosos da façanha ou, quem sabe, ainda sem entender por que não se pode agredir gays. Se tiverem algum senso de vergonha pelo ato, talvez seja o de ter confundido homens heterossexuais com gays.
A violência foi praticada com um ritual de confissão em dois atos: no primeiro, pai e filho deveriam declarar suas práticas sexuais para homens desconhecidos. Os homens homofóbicos são os inquisidores da heteronormatividade. Pai e filho negaram ser gays. Por alguma razão, a performance de gênero do pai e do filho não convenceu o grupo de homófobos. Eles buscaram reforço e retornaram com mais homens para silenciar aqueles que imaginavam ser representantes dos fora da lei heterossexual. No segundo ato, foram exigidas demonstrações de práticas homossexuais: pai e filho deveriam se beijar na boca para que os agressores vivenciassem a fantasia gay.
O primeiro ato do ritual homofóbico me leva a imaginar quais teriam sido as consequências de um "sim, somos gays" - uma autoafirmação entranhada em dois homens que não suportassem mais o tribunal homofóbico. Com essa resposta, talvez não estivéssemos diante de uma imagem de uma orelha parcialmente decepada, mas de dois cadáveres. Pai e filho foram vítimas da violência homofóbica. O curioso é que os dois não se apresentam como gays, mas como representantes da ordem heterossexual. Para os vigias homofóbicos, não importavam as práticas sexuais dos dois homens, mas a manutenção da ordem pública em que homens não devem se tocar. O interdito homossexual é tão poderoso que deveria impedir, inclusive, o contato físico entre pais e filhos.
Há outro ponto intrigante nessa história que é sobre como os homófobos se formam. Essa é uma inquietação a que qualquer aspirante a sociólogo responderia com uma tautologia: os fenômenos sociais não têm causa única. Mas aqui quero arriscar um caminho de compreensão. Os homófobos deste caso foram incapazes de diferenciar uma expressão de carinho paterno de uma prática erótica entre dois homens. Como hipótese, especularia que os agressores pouco receberam afeto de homens, seja de seus pais ou de outros homens de suas redes afetivas. Uma hipótese alternativa é a de que, se houve afeto paterno, esse foi mediado pelo temor homofóbico. Essa ausência levou os agressores a desconfiar do corpo de outros homens. Ao primeiro sinal de aproximação física, a defesa é a repulsa homofóbica.
Sei que essa explicação pode parecer reducionista para um fenômeno tão complexo e dependente da cultura patriarcal como é a homofobia. Mas é intrigante o erro do radar homofóbico dos agressores, o que sugere haver um equívoco de ponto de partida: eles parecem não ter sido capazes de identificar sinais corporais de algo tão fundamental quanto o amor paterno. Mesmo que não sejam ainda pais, não conseguiram se deslocar para o lugar de filhos que já foram ou ainda são. Aos guardiões da moral heterossexual, esse é um erro de diagnóstico que denuncia uma perturbação simbólica ainda mais fundamental.
Se minha hipótese for razoável, a mediação homofóbica na relação entre pais e filhos ou entre homens que se relacionam por vínculos de amizade ou convivência perpassa a socialização de gênero dos meninos. Os homens seriam treinados para evitar expressões de afeto e carinho por outros homens. Aqui volto à imagem da Índia para lembrar que o desejo de aproximação física entre homens não está inscrito nos corpos sexuados, mas é compartilhado pela cultura em que os homens vivem. Os homófobos se formam em casa, na rua, na escola. Em todos os espaços em que a fantasia homofóbica mediar a relação entre os corpos e afetos dos homens, a violência e a injúria contra os fora da lei heterossexual irão crescer.

DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA E PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO

terça-feira, 19 de julho de 2011

A vida sobre um bueiro em Copacabana (texto e jogo)

As pessoas exageram. Nem é tão perigoso assim andar pelo Rio de Janeiro, além da dengue, das balas perdidas, dos bueiros que explodem e da cidade que transborda depois de 15min de chuva, o pior mesmo seria precisar de um hospital público para se tratar de algum desses males.
Ouvi dizer que uma grande empresa de software e uma fábrica de brinquedos lançará, em breve, um novo jogo em homenagem à cidade maravilhosa. É uma espécie de sobreviva se puder: vc ganha um tabuleiro e dados e vai tentando passar pelos obstáculos. Pule dois bueiros, tente se esquivar da bala perdida, volte duas casas, enfrente a fila daquele hospital público, agora nade duas ruas sem beber água ou engolir um rato morto. Tente encontrar uma lata de lixo no Centro da Cidade. Não encontrou? Volte três bueiros vigiados pela Light.
Ih, vc está sendo observado por PM´s. Pode jogar outra vez. Agora escolha ficar sobre um bueiro em Botafogo ou comer um peixe da Baia de Guanabara.
E os perigos não terminam por aí... vc acabou de encontra um deputado federal do Partido Progressista (PP) do Rio de Janeiro, se vc for gay, melhor encarar a Polícia Militar, se for hétero suba Santa Teresa de bondinho e se hospede no hotel cinco estrela com direito a arrastão. Mas não se preocupe, há a chance de vc cair num morro pacificado. Pule para a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), mas não convide um PM para um cafezinho. Caso insista, percorra à Tijuca em qualquer horário.
O jogo nunca termina. Há muitos obstáculos até vc conseguir sair de vez da cidade para residir em outra. Há tb a remota possibilidade de conseguir um Green Card para a Suíça. Às vezes o jogo te põe em xeque e faz vc decidir se mora na Grécia, na Itália ou em Portugal ou se permanece sobre um bueiro em Copacabana.
Boa sorte.

Homofobia é uma invenção: Homem tem orelha decepada em SP após jovens o julgarem gay (texto)

Segundo vítima, agressores pensaram que ele e o filho fossem um casal. Crime ocorreu durante exposição em São João da Boa Vista.
Um homem de 42 anos teve metade da orelha decepada após ser agredido por um grupo de jovens na madrugada de sexta-feira (15), em um centro de exposições de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Segundo a vítima, os agressores pensaram que ele e o filho fossem um casal gay, pois os dois estavam abraçados.
O homem, que preferiu não se identificar, disse, nesta segunda-feira (18), que ainda estava traumatizado. De acordo com ele, depois de um show, um grupo de sete jovens se aproximou e perguntou se os dois eram gays.
Ele disse que eram pai e filho, mas houve um princípio de tumulto. Segundo o homem, os rapazes foram embora, voltaram cinco minutos depois e começaram a agredir os dois. Um deles mordeu e decepou parte da sua orelha. O homem desmaiou. “Na hora que eu acordei, as pessoas diziam que eu estava sem a orelha”, disse.
Ambos foram levados para a Santa Casa. O filho sofreu ferimentos leves. Eles foram atendidos e liberados.
Segundo Fernando Zucarelli, delegado do 1º DP de São João Boa Vista, foi aberto um inquérito para apurar o caso. A polícia tentará identificar os autores da agressão. A homofobia, que é a aversão a homosexuais, ainda não consta como crime no Código Penal brasileiro, mas, além da agressão, os jovens também podem responder por discriminação.
A organização da exposição diz que havia 150 seguranças no evento, além de policiais militares.
Acrescento apenas à esta matéria, retirada do G1, que esses jovens agressores não temem pelo crime praticado. Cometeram toda essa violência diante te tantas outras pessoas sem que isso fosse motivo para deixá-los inibidos, com medo de serem presos, pegos, de responderem pelo ato.
Acrescento ainda que Bolsonaros existem exatamente para isso: retirar do armário os homofóbicos de plantão.

domingo, 17 de julho de 2011

Ser gay (texto)

Ser gay é gostar de acordar cedo, tarde, não acordar, não dormir. Ser gay é gostar de ficar o tempo todo em casa, é gostar de ficar o tempo todo na rua, é não gostar de ficar o tempo todo fazendo a mesma coisa, é gostar de fazer o mesmo o tempo todo. Ser gay é ser branco, é ser preto, é ser amarelo, é ser de todas as cores. Ser gay é ser de cor nenhuma. Ser gay é nascer na América, mas tb se pode ser gay tendo nascido na Europa, na Ásia, na Oceania e tb na África. Ser gay é gostar de festa, de silêncio, não gostar de nada, gostar de tudo isso ao mesmo tempo. Ser gay é ser calmo, nervoso, ser calmo e nervoso. Ser gay é ser ansioso.
Ser gay é ser rico, ser pobre, não ser tão rico nem tão pobre, é ser miserável. Ser gay é estudar muito, é não estudar nada, é nem ter ido á escola, é ir de vez em quando, é já ter ido e não ir mais. Ser gay é ser sozinho, é ter companhia, é estar no meio de muita gente. É não estar nem aí.
Ser gay é ter namorado, namorada, é não namorar, é ser casado, ter filhos, mãe, pai, sobrinhos, avós, tios, primos, vizinhos, é ser viúvo. É ter cabelos pretos, loiros, azuis, vermelhos, é não ter cabelos. É ter cabelos lisos, crespos, encaracolados, curtos, longos.
Ser gay é saber falar diversas línguas, saber falar a sua língua, saber falar 2 línguas, não saber falar outra língua. Ser gay é ter modos, é incomodar. É morar perto, longe, é não ter onde morar.
Ser gay é ter muitos amigos, é ter poucos amigos, é não ter amigo nenhum. Ser gay é ser amigo, inimigo, bom, solidário, mal, egoísta, altruísta. Ser gay é ser gordo, magro, alto, baixo. Ser gay é ser feliz, alegre, triste, é ser inteligente, burro, lento, rápido, esperto. É saber tocar violão, é saber tocar o coração de alguém. Ser gay é ser humano.

sábado, 16 de julho de 2011

Da Série Contos Mínimos

Depois de um grande silêncio e de um branco muito claro, percebi que eu havia morrido. Não senti nada. Não houve dor alguma. Apenas um antes. Como se eu tivesse atravessado uma pequena ponte que me ligou a lugar nenhum. Fiquei por ali sem saber exatamente qual seria o próximo passo. Não houve um depois. Sem horas. Sem tempo. Sem fim.
Morrer não era assustador, nem triste. Não era nada. Era apenas a consciência de ter sido.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quais são os melhores versos do cancioneiro popular? (Enquete)

Fico aqui aguardando as sugestões. Pra mim seriam os seguintes versos das músicas Segredo (Herivelto Martins e Marino Peixoto) "o peixe é pro fundo das redes/segredo pra quatro paredes/primeiro é preciso julgar/pra depois condenar"; de A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha) Tire seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor/Hoje pra você eu sou espinho/Espinho não machuca a flor".

Só vigia um ponto negro: o meu ciúme (texto)

Ciúme nada mais é do que o instinto de posse que ainda não foi educado.

O ciumento passa a vida a procura de um segredo que
possa destruir sua felicidadeAxel Oxenstierna (1612–1654)

Ciúme é a emoção usada pelo seu psiquismo como reação ao medo de perder. Tem gente que gosta de sentir ciúme, pois todas as emoções geram neurotransmissores e seu cérebro fica viciado neles da mesma forma como fica viciado em álcool, nicotina, cafeína, etc.
O ciúme, a expectativa, a carência e a decepção são pontos de chegada possíveis para o nosso medo de perder. O ciúme tem como subproduto a mentira, para evitar a reação ciúmenta do outro nós mentimos, pois o ciúme nos torna agressivos e como autopreservação o indivíduo mente.
Talvez se entendermos o porquê da necessidade da exclusividade em um relacionamento afetivo, possamos entender melhor a natureza do ciúme. Outro ponto a ser considerado é a sexualidade. Será que o amor é prisioneiro do sexo? Ou o sexo é prisioneiro do amor? Existem outras possibilidades?
Sou do contra, eu não endosso o costume popular de dizer que um pouquinho de ciúme é bom. Minha opinião pessoal é que o que não é bom para uma criança pequena não é bom para um adulto.
Quando uma criança pequena quase bate na outra que quis pegar algum de seus brinquedos o os mais velhos dizem: “que feio! Tem que emprestar!”, não obstante, basta a criança pegar algo do adulto para ele sentenciar: “isso é meu e não é para brincar!“. Ou seja, fala uma coisa, mas faz outra. Bem fácil de entender.
Quando você era pequeno sua mãe lhe ensinou a não ser ciúmento com seus brinquedos de criança. Está na hora de aprendermos a não ter ciúmes de nossos brinquedos de gente grande, não acha?

O ciúme Patológico (texto)

Em questões de ciúme, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza frequentemente se torna vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em ideias supervalorizadas ou francamente delirantes. Depois das ideias de ciúme, a pessoa é compelida à verificação compulsória de suas dúvidas. O(a) ciumento(a) verifica se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abre correspondências, ouve telefonemas, examina bolsos, bolsas, carteiras, recibos, roupas íntimas, segue o companheiro(a), contrata detetives particulares etc. Toda essa tentativa de aliviar sentimentos, além de reconhecidamente ridícula até pelo próprio ciumento, não ameniza o mal estar da dúvida.
Entre absurdos e ridículos, há o caso de uma paciente portadora de Ciúme Patológico que marcava o pênis do marido assinando-o no início do dia com uma caneta e verificava a marca desse sinal no final do dia (Wright, 1994). Mais absurda ainda é a história de outro paciente, com ciúme obsessivo, que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos (Torres, 1999).
Os ciumentos estão em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas mas, ainda que confirmada pelo(a) companheiro(a), essa inquisição permanente traz mais dúvidas ainda ao invés de paz. Depois da capitulação, a confissão do companheiro(a) nunca é suficientemente detalhada ou fidedigna e tudo volta à torturante inquisição anterior.
Os portadores de Ciúme Patológico comumente realizam visitas ou telefonemas de surpresa em casa ou no trabalho para confirmar suas suspeitas. Os companheiros(as) desses pacientes vivem dissimulando elogios e presentes recebidos ou omitindo fatos e informações na tentativa de minimizar os graves problemas de ciúme, mas geralmente agravam ainda mais.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A carne mais barata do mercado é a carne negra (texto)

Quando vale a vida de um menino de  11 anos, negro, pobre, morador da Baixada Fluminense? Por quanto tempo a morte "inexplicada" desse menino ficará ainda ocupando as páginas dos jornais cariocas? O que acontecerá com os policiais que estão envolvidos com a morte e com o ocultamento do corpo do menino?
Se Juan fosse filho da classe média carioca, o tratamento teria sido o mesmo? 
O filho da atriz Cissa Guimarães foi atropelado e morto, há mais ou menos um ano, na zona sul do Rio de Janeiro. Tb havia policiais-bandidos envolvidos no caso. Como esse comportamento é recorrente!
Por que homens como esses entram na polícia militar? Como é feita a seleção desses homens? 
Hoje, Juan, foi sepultado. O enterro foi pago pela Secretaria de Segurança do Rio. O Secretário admitiu que os policiais erraram e que eles serão punidos exemplarmente.
Como será a punição de um policial que mata um menino de 11 anos e ainda tenta esconder o seu corpo? Sei que faço perguntas demais? Sei que já fiz essas mesmas perguntas outras vezes, inclusive aqui no Blog. Nunca soube das respostas.
Há muitos outros casos sem respostas.
Até hoje o corpo de Patrícia Amieiro não foi encontrado. Tb há (oito) policiais militares envolvidos nesse crime.
No caso do coordenador do AfroReggae, Evandro João da Silva,  tb havia policiais militares envolvido.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Socorro! Chamem o ladrão (texto)

Policiais continuam matando no Rio de Janeiro (no Brasil) e  quem deveria saber dessas práticas tão recorrentes não sabe. Não é impressionante? Não é surpreendente como notícias de policiais envolvidos em mortes no Estado/Cidade do Rio (e não menos em outras cidades), em desaparecimentos de pessoas, em torturas, em roubos, em devios de cargas, em devios de todas as ordens são rememorados pelos meios de comunicação como novidades?
Hoje, dia 06 de julho, chegaram à conclusão de que o corpo encontrado era do menino Juan desaparecido depois de troca de tiros entre policiais militares e bandidos na Baixada Fluminense.
Segundo o G1, dos quatro PMs que foram afastados das ruas por conta desse episódio, dois já estiveram envolvidos em situações em que o suspeito é morto em confronto com a polícia. Um cabo esteve envolvido em autos de resistência oito vezes e o outro 13 vezes.
O irmão do menino, Wanderson, em entrevista ao Fantástico disse que viu quando Juan foi alvejado: “O pequenininho passou na minha frente. E assim que a gente saiu, chegou no finalzinho do beco, aí começou o tiroteio. Eles começaram a atirar. Muito tiro. Aí ele foi baleado, eu tomei três tiros. Eu vi quando ele tomou o tiro. Ele estava na minha frente, então eu vi. As balas vinham de uma direção só”, disse.
Um outro irmão de Juan, Wesley, disse em depoimento que tomou um tiro no pé e também viu o irmão caído, ensanguentado. Ele contou que tentou ajudá-lo, mas recebeu outro tiro, dessa vez no ombro. Então, ele se arrastou para fora do beco. Foi o último momento em que Juan foi visto com vida.
Os PMs disseram que foram ao local por causa de uma denúncia da presença de traficantes feita pelo serviço 190. A chamada registrada na central é de 20h54, depois de os três meninos já terem sido baleados. A gravação não foi divulgada pela polícia.
No registro de ocorrência feito na delegacia, à 1h44, os PMs apresentaram uma arma e drogas como sendo de Wanderson e apontaram Wesley como menor infrator. Mas, 45 minutos depois, mudaram o depoimento: Wesley passou de infrator a testemunha. Wanderson ficou cinco dias algemado à cama, até ter a prisão relaxada pelo juiz.
É ou não impressionante a conduta desses militares?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cada um diz o que pode (Texto)

Enquanto a ex-atriz e deputada estadual (PDT-RJ) Myrian Rios aproxima o homossexual da prática de pedofilia, como padres, pastores, homofóbicos o fazem (mais por falta de informação do que de qualquer outra coisa), a Justiça de São Paulo autorizou nesta segunda-feira (27) o primeiro casamento civil gay do Brasil. Há muito o que se comemorar. Isso é fazer história.
Podemos ficar nessa ladaínha: homossexual = pedófilo = doente = criminoso = pecador etc. ou podemos sair dela e construir outras equações: homossexual = cidadão = normal, por isso tem direitos e deveres.  É isso que queremos. Como é que alguém ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa de um Estado com ideias tão passadas?
A deputada é apenas uma deputada e o que ela diz não tem nenhuma importância além do fato dela representar uma parcela da sociedade: alguns poucos católicos. Apenas isso. Ela diz o que pode e não o que quer.
Ela não sabe, talvez, que 90% da prática de pedofilia aconteça entre heterossexuais dentro das próprias casas, ou seja, homens que abusam sexualmente de filhas, enteadas, sobrinhas, primas, vizinhas etc.
Entre os padres católicos, só como exemplo, o percentual é quase o mesmo, 70% é heterossexual. E as práticas são tb em relação às meninas que frequentam às igrejas. Portanto, o que ela diz não faz nenhum sentido além do sentido da ignorância, da falta de informação, ou, para quem estuda análise de discurso, de um efeito de sentido parafrásticos de discursos de séculos passados.
Nem sei se é preciso responder ao que ela diz. Talvez ela tenha mesmo o direito de não querer um funcionário homossexual em sua casa, assim como acho que tenho o direito de não ter uma deputada com um pensamento tão raso, com uma atuação tão medíocre.
Alguém que confunda a religião, a sua religião, como o Estado não deveria sequer se representar. Falta estofo. Falta conhecimento. Falta quase tudo. Quem é Myrian Rios? O que ela fez para melhorar, por exemplo, o funcionamento do Estado do Rio de Janeiro? Quais são os seus projetos? O que ela faz para justificar a sua presença na assembleia estadual? 
Nunca na história desse país essa deputada tomou alguma atitude que nos surpreendesse em se tratando de pensar o Estado do Rio de Janeiro? Quem ela acha que é para dizer o que diz? O que ela sabe da história da homossexualidade? A partir de quê ela dá essas declarações? 
É para-lamentar o que sai da boca dessa gente que usa uns anos de televisão para conseguir se eleger. Bem feito para quem perde tempo  indo às urnas para jogar o seu voto no lixo.

A cultura gay através dos tempos (Antonio Gonçalvesz Filho - O Estado de S.Paulo)

Quatro títulos que falam da evolução da homocultura atestam expansão do mercado

Mais de 2 milhões de pessoas devem acompanhar, hoje, a parada gay na Avenida Paulista. Muitos lembrarão que até mesmo no nome ela deve algo ao movimento gay americano e ao modelo que adotou, vindo dos EUA, mas o fato é que já existe uma homocultura brasileira que permite, por exemplo, o lançamento simultâneo de quatro livros sobre o assunto, um deles escrito por um padre inglês, católico, que escolheu o Brasil para viver, James Alison (leia entrevista nesta página), autor de Fé Além do Ressentimento. Os outros três livros, de alguma forma, dialogam entre si, tratando da evolução dessa homocultura não só no Brasil como no mundo.
Retratos do Brasil Homossexual – Fronteiras, Subjetividades e Desejos reúne ensaios apresentados no IV Congresso da Abeh – Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, realizado em 2008. Em Cine Arco-Íris (Edições GLS), o ativista paulistano Steve Lekitsch faz um apanhado de 270 filmes com temática homossexual realizados nos últimos 100 anos. Finalmente, em La Identidad Homosexual – De Platón a Marlene Dietrich, Paolo Zanotti, professor italiano de Literatura, examina a formação da homocultura desde os antigos gregos até Marlene Dietrich, ícone gay por causa de filmes como Marrocos. Nos últimos anos de vida, a atriz estava tão obcecada pela ideia de que podia ser contaminada pelo vírus da aids que evitava abrir cartas de seus fãs homossexuais, encarregando a filha de espalhar, após sua morte, que a mãe se contagiou pelo correio.
Essa revelação de La Identidade Homossexual vem seguida de uma interessante observação do autor. Zanotti, recorrendo à ensaísta americana Susan Sontag, diz que os gays reagiram à aids – e às atitudes adversas como a de Dietrich – usando a estratégia de dar uma imagem de si mesmos a mais saudável possível. Essa imagem de saúde pós-aids, que se traduz nos “sarados” da parada gay, coincide, segundo Zanotti, com o único ideal de autocontrole proposto em nossos dias – “o autocontrole em nome do corpo, da dieta, da forma física”. Desde os anos 1980, esse ideal, diz o autor, se difunde com sucesso. O homem gay, conclui, “se converteu num exemplo mais aperfeiçoado do macho prototípico, um hedonista com corpo de ginasta.”
Zanotti vai mais longe, citando Pasolini. Quando o cineasta italiano se rebelou contra a “nova” homossexualidade, estaria justamente criticando a identificação dos gays com traços da cultura que o oprime. Talvez isso explique o sucesso do filme O Segredo de Brokeback Mountain (foto maior), um dos analisados no livro Cine Arco-Íris, ao envolver dois caubóis rudes num relacionamento que termina de forma trágica, com um deles sendo espancado até a morte por homofóbicos. O autor do livro, Lekitsch, não adota o tom ensaístico de Zanotti. Escreve apenas pequenas sinopses dos filmes, esquecendo títulos fundamentais que tiveram um papel histórico na luta pelo reconhecimento dos direitos civis dos homossexuais, como Meu Passado Me Condena (Victim, 1961), o filme de Basil Dearden que ajudou a mudar a lei que considerava a homossexualidade crime na Inglaterra.
A homocultura e os direitos humanos, aliás, é o primeiro capítulo de Retratos do Brasil Homossexual. No texto inaugural, a advogada Maria Berenice Dias analisa a união homoafetiva na Constituição Federal e propõe a elaboração de um Estatuto da Diversidade Sexual, a exemplo dos estatutos do Idoso, da Criança e do Adolescente. A inexistência de um “discurso específico da homocultura”, conclui o escritor João Silvério Trevisan no livro, revela que o movimento pelos direitos homossexuais no Brasil “continua tateando até hoje”.
De qualquer forma, o papel dos pioneiros é lembrado no livro até por estudiosos estrangeiros como o acadêmico Robert Howes, do King”s College de Londres. Ele analisa a obra literária do pouco conhecido escritor pernambucano Gasparino Damata, um dos criadores do Lampião (primeiro jornal gay brasileiro), que foi suboficial no United States Transportation Corps na 2ª Guerra e relatou sua experiência amorosa com um soldado americano em Queda em Ascensão, publicando depois A Sobra do Mar (1955), sobre um marinheiro que é desejado pelo capitão do navio, como o Querelle de Genet. Graças a Damata e outros pioneiros, como Adolfo Caminha, autor de O Bom Crioulo, os gays desfilam hoje, orgulhosos, em carros alegóricos, não em deprimentes viaturas de polícia.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Clímax - Marina Lima (CD)

Já houve tempo em que eu ficava aguardando, cheio de ânsia, o lançamento do novo CD da cantora e compositora carioca Marina (depois Marina Lima). Lembro-me do primeiro show em que ela dividia o palco com Belchior, no Projeto Seis e Meia, no teatro João Caetano no Centro do Rio, em 1982. Fui a este show com um amigo, Simão.
Neste Projeto um artista consagrado apresentava um artista iniciante. Eu já gostava dela, já ouvia Simples como Fogo, primeiro CD. Já cantava Transas de Amor, A chave do mundo, Não há cabeça e Muito. Daí pra frente não parei mais de comprar CD, ir aos shows, acompanhar a carreira. Tudo o que um fã normalmente faz.
Um outro show da cantora que me lembro bem foi o lançamento do CD Marina Lima de 1991. Assisti ao show no, falecido, Mistura Fina, zona sul do Rio, na companhia de amigos, distante uns 3 mestros do palco, que ficava na altura da plateia.
Criança, Grávida, O meu sim, Acontecimentos, Não sei dançar foram as mais tocadas. Já cheguei ao show sabendo todas essas letras. A discografia é enorme, acho que por volta de 18 discos (não tenho nenhuma certeza).
Este mês a cantora e compositora que já foi o símbolo da música carioca, lançou o CD Clímax. Não o aguardei com a mesma ansiedade de outras épocas, mas confesso que me sinto feliz pelo novo trabalho. É como se relembrasse de um tempo com amigos por perto, com a casa sempre cheia, com música tocando o tempo todo, com festas de aniversário, com a minha mãe por ali participando das conversas.
Aos 55 anos Marina Lima continua buscando. Aos 55 anos, guitarra em punho, música pop, atitude rock and roll. Voz um pouco prejudicada, mas antes já diziam que a sua voz não era boa. A voz agora é essa e pronto. Quem quiser outra voz que busque outra cantora. A dela é a que está registrada nos últimos CD´s.
O CD é bom. Tenho ouvido bastante. Algumas músicas me lembram outras já lançadas. O CD é bem original: SP Feelings e Call me são as minhas preferidas. A parceria com Samuel Rosa, a participação especial de Vanessa da Mata renderam bons resultados.
Eu indico.

Quando as redes sociais camuflam a sensação de estarmos sozinhos (texto)

Tenho conhecidos/amigos que não assistem TV porque acham que elas emburrecem. Não param diante de nenhum programa de televisão porque "se tivessem esse tempo sobrando estariam produzindo mais, lendo mais, escrevendo mais". Tudo da boca pra fora, porque os encontro sempre conectados em redes socias (doravante RS).
Não vejo nenhum diferença entre uma coisa e outra. Na verdade vejo sim, vejo muitas diferenças. Nas RS além do mesmo gasto de tempo (pra ser sincero, muito mais gasto do tempo), uma camuflagem da solidão. Por outro lado, tem programação nas TV´s (sobretudo nas pagas, quero dizer nas mais pagas, né?) que nos proporcionam grande conhecimentos, além de diversão, distração etc. (quanto ao etc. eu ão sei bem o que é).
Sei de pessoas que gastam mais de 80% do seu dia trocando mensagens, seja numa RS, no celular, ou e-mail, numa expectativa constante de receber respostas para não se sentirem sozinhas. Como se o fato de estarem conectadas, trocando breves mensagens com aquelas centenas de "amigos", significasse que não estão isoladas.
Alguns são incapazes de estabelecer relações pessoais fora do ambiente de trabalho. O computador nos isola quase sempre, mas é claro que não é apenas isso. O buraco é muito mais fundo e necessitaria de uma análise muito mais social do que essa rasa que aqui proponho.
Claro que não conseguiríamos estabelecer uma relação com a mesma facilidade com um amigo que se encontra do outro lado do mundo. O mundo virtual nos dá essa oportunidade, mas o que me chama atenção é o fato de não conseguirmos estabelecer relações com os que estão próximos.
Como dosar nossa conectividade? Como nos desconectar e não nos sentirmos tão sós? Por que quando desligamos o nosso celular e computador temos a sensação de estarmos perdendo alguma coisa?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ado, ado, cada um no seu quadrado (texto)

Começo esse post com parte de fala de uma entrevista concedida pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek à revista Época na semana do dia 29.05.2011

ÉPOCA – O que o senhor acha das críticas a Lars Von Triers, que disse que entendia Hitler? 
Zizek – Não devemos ser livres para celebrar Hitler, nada disso. Claro que Hitler fez coisas horríveis. No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. Eu odeio essa ideia de que, se você conversar com um diretor ou com um autor, você vai descobrir algo incrível, algum segredo. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas. David Lynch, francamente, é um idiota. Ele está agora numa empreitada para coletar milhões de dólares para construir uma imensa cúpula de meditação porque ele acha que se mais de dez pessoas meditarem num lugar isso vai liberar energia que vai trazer paz ao mundo. Mas nos filmes ele é um gênio.(grifos meus).

Bem, faz alguns anos, mais precisamente em 1992, o cantor e compositor Lulu Santos deu declarações sobre os músicos e a música sertajena num programa do Faustão que provocou certo incômodo na mídia.
Lobão, não faz muito tempo, num programa da Jovem Pan, acho que com o pessoal do Pânico, falou mal de Luan SantanaRestart e Fiuk.
E para completar o trio de patetas (na verdade não sei se é mais pateta quem dá tais declarações ou se quem as ouvem como se isso fosse alguma coisa para se prestar atenção), Ed Motta no Facebook fala mal de mulheres feias, da feiúra dos brasileiros, que não são do Sul ou de São Paulo, de Paula Toller, de Caetano Veloso, entre outros. E isso repercute como se fosse uma importante declaração.
Bem, concordo em gênero, número e caso com o Zizek, artistas devem ser bons naquilos que fazem como artistas. Portanto, Lulu Santos, Lobão e Ed Motta cumprem com bastante competência essa cláusula. E devíamos nos satisfazer com isso. O resto não deveria ser levado a sério, cada um diz o que pode e não o que quer.
Criar categoria de gosto é uma tremenda estultice. Tudo bem que não tenho em casa, e não entra, cd, dvd de Luan Santana, Restart ou Fiuk, porque na minha casa quem manda sou eu. Mas daí para decidir o gosto dos outros....meio demais né?
Não quero tb transformar nenhum cantor, compositor, ator, atriz, apresentador de programa, jornalista, padre-cantor etc. em guia espiritual, intelectual ou qualquer coisa desse gênero. Cada um no seu quadrado. O que eles fazem como artistas pode ou não me agradar. Tudo muito subjetivo. Agora se eles consideram isso ou aquilo importante, se gostam de certos lugares em detrimentos de outros, se usam certas marcas de roupa ou cortam os cabelos assim ou assado, se pensam isso sobre determinado assunto, definitivamente, não me interessa. Não tenho nenhum respeito pelo que dizem além do respeito de achar que devem dizer. Assim como eu faço aqui no meu blog.
Tudo o que eu escrevo é a minha forma de pensar sobre alguma coisa, não é verdade absoluta sobre nada. Não tenho nenhuma pretensão de dizer coisas interessantes, de sair do senso comum. Digo o que acho que devo dizer e estou abertíssmo às críticas, aos que pensam de outra maneira.

Perdidos na tradução

Passaram-se  trinta e um anos . Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em...