sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Marcelo Serrado, o equivocado (Alexandre Vidal porto)

Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade.
Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito, e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.
No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.
O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô, na novela "Fina Estampa". Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal ("Arrasa, bii!"), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão.
Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.
A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas, porque a homofobia ainda não é crime no Brasil.
O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.
Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.
A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo, porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância.
A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência.
Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social, que as redes de televisão têm o dever de preservar.
Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito.
Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não.

ALEXANDRE VIDAL PORTO, 46, mestre em direito pela Universidade Harvard, é diplomata e escritor.
Artigo  publicado na Folha de São Paulo de hoje, 13/01.

4 comentários:

  1. É sempre aquela velha história hipócrita: eu aceito, mas não quero perto de mim!!!
    Mas, eu acredito que essa declaração acaba criando menos precocneito do que o seu personagem na novela, que faz um público ignorante acreditar que todo gay é afetado e serve como palhaço, como se não existisse gays tão sérios quanto um heterossexual.

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  2. sou gay, sou "afetado", sou profissional ético e exijo respeito!

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  3. Com trejeitos ou sem, todo gay tem o direito de ser o que é, de ter respeitadas sua personalidade, sua natureza psicológica e sua identidade sexual. Homoafetividade é uma coisa, identidade sexual é outra. Logo, existem gays efeminados ou não, masculinizados ou não, diferenças estas que também encontramos entre os heterossexuais. São particularidades de cada um, as quais devem ser respeitadas. Mas fico louca da vida com a imagem depreciativa que a tv brasileira "vende" dos gays. Estes personagens caricatos deixam claro o quanto homoafetivos não são levados a sério. A tv faz questão de ridicularizá-los a todo tempo, o que reforça ainda mais o preconceito, em vez de combatê-lo. Aí, quando o governo propõe um PL com o intuito de intervir nas programações destes veículos de comunicação, controlando o que se é transmitido e multando emissoras que veicularem conteúdo considerado preconceituoso e inadequado, é acusado de censura, como aconteceu recentemente. Lamentável que o Estado fique de mãos atadas diante desta realidade, calado pelo poderio econômico e pela ditadura cultural imposta pelos grandes grupos de comunicação que manipulam a opinião pública deste país. E igualmente (ou mais) lamentável é o fato de atores, cuja exposição e adoração popular os faz exercer considerável influência sobre as pessoas em geral, manifestarem opiniões tão ignorantes e preconceituosas. Desta forma, infelizmente, prestam um grande desserviço à sociedade. Marcelo Serrado, você devia se envergonhar profundamente por repassar estes valores nocivos à sua filha e à população brasileira que acompanha seu trabalho.

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    1. Relendo meu comment acima vi que talvez possa ter ficado confuso o que escrevi no início, apesar de que ainda assim acho que dá pra compreender o que quis dizer. Também não importa muito pois não é este o cerne da discussão. Mas, mesmo assim, não quero deixar uma informação que possa parecer equivocada. Quis dizer que uma coisa é orientação sexual, e outra é identidade sexual ou de gênero, devendo-se ainda falar em papel sexual. Estas três podem não estar necessariamente relacionadas entre si. Em função disso, um gay pode ser efeminado ou não, uma lésbica ser masculinizada ou não. Como um homem delicado e efeminado pode ser heteroafetivo (ou heterossexual) e uma mulher masculinizada ser hetero. Assim como existem muitas matizes e nuances de cores, no tocante à sexualidade também há um espectro muito amplo de variações(daí a bandeira arco-íris ser um símbolo mais do que adequado para representar o movimento LGBT). Um abraço, Alexandre! Adoro seu blog!

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