sexta-feira, 17 de abril de 2026

Em curso




Há momentos em que a escolha pelo novo deixa de ser apenas uma abertura e passa a marcar uma posição no percurso de quem decide seguir. Nesse movimento, o que ficou para trás reaparece, como se ainda pudesse ocupar o lugar que já foi atravessado. O antigo insiste, tenta se reinscrever, sustentado pela familiaridade que carrega. Esse retorno não ocorre ao acaso; ele se ancora na memória do já vivido, buscando reativar sentidos que pareciam encerrados.

A decisão de partir implica sustentar o deslocamento que já se produziu. Aceitar o convite do que retorna pode parecer um gesto simples, mas recoloca o sujeito em um ponto que já foi deixado. Nem tudo que reaparece comporta permanência, e reconhecer esse limite faz parte do próprio caminhar. Há passagens que se dão uma única vez, ligadas a condições que não se repetem da mesma maneira, ainda que tentem se apresentar como continuidade.

Em certas situações, aquilo que chama de volta coincide com o que antes impunha barreiras ao avanço. Essa coincidência não se apresenta de forma evidente, pois se manifesta sob a forma do conhecido, do que já foi experimentado, do que oferece uma aparência de estabilidade. A vida, por sua vez, coloca em circulação outras direções, abrindo possibilidades que não se deixam reduzir ao que já foi vivido.

O conforto se apresenta como um ponto de apoio sedutor, associado à ideia de segurança e previsibilidade. Ainda assim, ele não se confunde com a possibilidade de transformação. Permanecer no que é confortável pode significar a repetição de um lugar já percorrido, enquanto o deslocamento implica atravessar zonas de incerteza. Esse atravessamento exige uma relação com o tempo que acolhe o risco implicado em cada escolha.

Seguir adiante envolve reconhecer que a escolha já foi feita e que ela continua produzindo efeitos. O passado pode insistir, convocar, nomear, mas o percurso em curso solicita continuidade. É nesse movimento que se inscrevem outras experiências e outros modos de se relacionar com o que ainda está por vir, sem que o já vivido retome o lugar que deixou de ocupar.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Entre o que passa e o que se perde


Há momentos em que a vida se apresenta como uma plataforma movimentada, na qual cada gesto carrega um peso que só se percebe depois. O tempo passa como os ônibus que chegam e partem sem aviso, e cada escolha desenha um trajeto que não retorna ao ponto de partida. A sensação de que algo poderia ter sido diferente surge tarde demais, quando o veículo já seguiu adiante e deixou para trás aquilo que ainda parecia possível.

A ideia de que sempre haverá outra oportunidade sustenta muitas decisões apressadas ou adiadas. Ainda assim, certas passagens ocorrem de modo singular, ligadas a circunstâncias que jamais se repetem da mesma maneira. Um encontro, uma palavra, um gesto concentram uma densidade própria, inscrita naquele instante. Quando ele passa, o que permanece é a memória e a tentativa de compreender o que se perdeu.

Seguir em frente implica reconhecer que cada ônibus perdido também compõe o percurso. Há um aprendizado silencioso nesse movimento, uma forma de lidar com o que não foi vivido e com o que ainda pode surgir. A ideia de pegar o próximo não apaga o anterior, mas desloca o olhar para o que ainda circula, para o que ainda se apresenta como possibilidade.

Entre a pressa e a hesitação, constrói-se uma relação com o tempo que nem sempre é confortável. O desejo de acerto convive com o risco da perda. A vida se apresenta como uma sucessão de chegadas e partidas, em que cada escolha implica deixar algo para trás. Esse movimento constante exige coragem para embarcar, mesmo sem garantia de destino.

Talvez o mais intenso resida justamente nesse trânsito contínuo. O valor de cada instante se delineia na consciência de que ele não se repete. Seguir adiante, então, ganha outro sentido: não como substituição do que passou, mas como continuidade de uma experiência que se reinventa a cada parada. O próximo ônibus não corrige o anterior, mas abre um novo caminho para quem decide entrar.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Elaborar o que ficou de antes ou Quando o passado se atualiza


As relações que construímos ao longo da vida costumam carregar marcas de experiências muito antigas, muitas vezes situadas na infância, quando ainda aprendíamos, de forma silenciosa, o que significava amar, ser cuidado e também lidar com frustrações. 

Aquilo que buscamos nos outros, como acolhimento, reconhecimento, segurança e intensidade, ganha forma a partir das primeiras relações que tivemos, especialmente com aqueles que ocuparam o lugar de cuidado em nossos primeiros anos de vida. Durante a infância, a criança depende dos adultos para sobreviver e também aprende, pouco a pouco, o que esperar de um vínculo.

Quando encontra presença, atenção e afeto, passa a associar o amor a um espaço de confiança e estabilidade, o que pode favorecer vínculos mais seguros e uma maior disponibilidade para o encontro com o outro. Quando vivencia ausências, instabilidade ou exigências excessivas, carrega uma inquietação que tende a reaparecer nas relações amorosas, marcando tanto a busca por completude quanto a dificuldade em sustentar a própria estabilidade, como se algo permanecesse em aberto.

Essa repetição não se apresenta de forma consciente. Muitas vezes, alguém se vê atraído por pessoas com características semelhantes às de figuras importantes da infância, mesmo quando essas características trouxeram sofrimento. Trata-se de uma tentativa silenciosa de reorganizar uma experiência anterior, como se, desta vez, fosse possível alcançar um desfecho diferente. Assim, escolhas afetivas podem parecer livres, mas guardam uma história que as antecede.

A maneira como aprendemos a lidar com o desejo do outro também se inscreve nesses primeiros vínculos. Algumas pessoas crescem tentando corresponder às expectativas alheias para garantir afeto, enquanto outras desenvolvem distanciamento como forma de proteção. Esses modos de se posicionar reaparecem nas relações adultas, influenciando desde a aproximação até a forma de lidar com conflitos, perdas e separações.

A ligação entre passado e presente se inscreve nas marcas deixadas pela infância, que permanecem ativas nas formas de se relacionar com o outro. Essas marcas não se apresentam como lembranças claras ou narrativas organizadas, mas como traços que atravessam escolhas, expectativas e modos de aproximação, comparecendo de maneira discreta e persistente nos vínculos. Desse modo, as relações atuais se constituem em continuidade com aquilo que foi vivido, reinscrevendo, em novos contextos, algo que não se encerrou e que segue se atualizando nas experiências afetivas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O que permanece porque não é nomeado



Há pessoas que erram, percebem o erro e, ainda assim, evitam encará-lo de frente. Em vez de dizer simplesmente errei, preferem contornar a situação com explicações longas, justificativas que não chegam ao ponto ou até mesmo um silêncio que pesa mais do que qualquer palavra. O que poderia ser resolvido com poucas frases claras acaba se alongando e criando um desconforto desnecessário. O problema deixa de ser o erro em si e passa a ser essa recusa em nomeá-lo diretamente, como se falar de forma simples fosse mais difícil do que sustentar um enredo inteiro ao redor dele.

Pedir desculpa de maneira direta exige algo básico e, ao mesmo tempo, pouco comum: assumir o que foi feito sem tentar amenizar, dividir a responsabilidade ou deslocar o foco. Um pedido sincero não precisa de grandes construções nem de justificativas detalhadas. Ele se sustenta justamente pela simplicidade. Quando alguém diz com clareza o que fez e demonstra consideração pelo outro, abre-se um espaço para que a situação se reorganize. Quando isso não acontece, fica uma sensação de incompletude, como se a conversa tivesse sido interrompida antes de chegar ao que realmente importa.

Muitas vezes, quem evita pedir desculpa acredita que está se protegendo, preservando uma imagem ou evitando um desconforto momentâneo. Mas o efeito tende a ser o inverso. A falta de um reconhecimento direto cria ruídos, acumula pequenas tensões e vai desgastando a convivência aos poucos. As pessoas percebem quando algo não foi dito como deveria e esse não-dito permanece circulando, reaparecendo em outros momentos, em outros gestos, em outras conversas. Aquilo que poderia ter sido resolvido rapidamente passa a ocupar um espaço maior do que merecia.

Reconhecer um erro, por outro lado, tem algo de simples e potente ao mesmo tempo. Um pedido de desculpa claro interrompe o mal-estar, reposiciona quem fala e também quem escuta, e permite que a relação siga sem esse peso acumulado. Trata-se de um gesto cotidiano, quase mínimo, mas que sustenta a possibilidade de convivência mais leve. Dizer errei e me desculpe não resolve tudo, mas abre uma passagem importante para que o que ficou desalinhado encontre outro lugar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Entre o aqui e Pescara


A contagem regressiva já começou, e cada dia agora carrega um peso diferente. O calendário deixou de ser apenas uma sequência de datas e passou a marcar a aproximação de um deslocamento que mobiliza memória, desejo e expectativa. Nos últimos dias de março, parto para a Itália, em direção a Pescara, onde me aguardam atividades na Università G. d’Annunzio. Entre o agora e o embarque, instala-se um tempo suspenso, feito de preparação e antecipação.

Viajar, nesse caso, ultrapassa o simples deslocamento geográfico. Trata-se de um encontro com outras formas de dizer, de pensar e de significar o mundo. Pescara, ainda imaginada a partir de imagens e leituras, começa a ganhar contornos mais nítidos à medida que a partida se aproxima. O mar Adriático, as ruas, a universidade — tudo isso já se inscreve como horizonte, mesmo antes da chegada.

Há também um movimento interno que acompanha essa travessia. Preparar aulas, organizar materiais, retomar textos e ideias: cada gesto se vincula ao que está por vir. A experiência de trabalhar em uma universidade italiana traz consigo a possibilidade de diálogo com estudantes e pesquisadores, em um espaço onde línguas e histórias se entrelaçam, produzindo deslocamentos que não são apenas físicos, mas também intelectuais.

Enquanto os dias diminuem até a data da partida, cresce a intensidade dessa espera. A viagem já começou, de certo modo, nesse intervalo que antecede o embarque. Contar os dias torna-se, assim, uma forma de habitar esse entre-lugar: ainda aqui, mas já em trânsito, com Pescara se afirmando pouco a pouco como destino e como experiência que está prestes a se inscrever na própria trajetória.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A experiência de reinventar-se em outro país

Mudar de país inaugura um deslocamento que ultrapassa a geografia. Atravessa hábitos, ritmos, modos de dizer e de silenciar. O corpo aprende outros horários, outra luz, outro desenho de cidade. Cada gesto cotidiano — comprar pão, pedir informação, esperar um ônibus — passa a carregar uma intensidade inédita, como se o mundo pedisse nova escuta e nova leitura.



A língua ocupa um lugar central nesse movimento. Mesmo quando se domina o idioma local, há sempre um intervalo entre o que se quer dizer e o que se consegue formular. Esse intervalo produz consciência sobre a própria palavra, sobre a memória que ela carrega e sobre o lugar a partir do qual se fala. Aos poucos, o estrangeiro percebe que habitar outra língua transforma também a forma de pensar e de sentir.

As relações ganham outra espessura. Amizades antigas passam a existir à distância, sustentadas por mensagens e chamadas que tentam vencer o fuso horário. Ao mesmo tempo, surgem encontros inesperados, marcados por curiosidade mútua e por descobertas compartilhadas. Viver fora implica reconstruir referências e aceitar que pertencimento se constrói no tempo, com paciência e abertura.

Mudar de país é, sobretudo,
uma experiência de reinvenção
. A identidade deixa de parecer fixa e passa a ser percebida como movimento. Aquilo que parecia sólido se rearranja diante do novo cenário. Entre saudade e entusiasmo, instala-se um aprendizado contínuo: viver em outro território ensina que a casa também pode ser um caminho, e que cada deslocamento redesenha quem somos.

Em curso

Há momentos em que a escolha pelo novo deixa de ser apenas uma abertura e passa a marcar uma posição no percurso de quem decide seguir . Nes...