segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Como separar aquilo que se fez daquilo que se é?


Há pessoas para quem qualquer comentário dirigido ao trabalho, a uma escolha ou a uma atitude parece alcançar imediatamente algo mais profundo. Uma observação profissional é recebida como julgamento pessoal; uma discordância soa como rejeição; uma correção adquire o peso de uma desqualificação. Quando a autoestima já se encontra fragilizada, torna-se difícil separar aquilo que se fez daquilo que se é. O problema dessa sobreposição está no fato de que ela altera a dimensão do comentário: o que poderia ser discutido, corrigido ou simplesmente recusado passa a ser vivido como ofensa.

Curiosamente, essa sensibilidade nem sempre produz cuidado com os outros. Às vezes, ocorre justamente o contrário. A pessoa que sofre intensamente com qualquer apreciação sobre si pode falar mal de todos, destacar defeitos, desconsiderar esforços e localizar rapidamente aquilo que não funciona. Forma-se, assim, uma relação desigual: exige-se dos outros uma delicadeza que não se oferece a eles. Talvez essa atitude seja uma forma de proteção, talvez seja um hábito, talvez mostre apenas uma maneira limitada de observar o mundo. Seja qual for a explicação, o resultado costuma ser o mesmo: conviver torna-se difícil quando o olhar está permanentemente treinado para encontrar falhas.

Também seria simplificador concluir que toda crítica nasce da maldade ou que toda sensibilidade representa fraqueza. Há ambientes profissionais violentos, comentários formulados para humilhar e avaliações que encobrem disputas pessoais. Há, igualmente, pessoas que transformam qualquer limite em perseguição e qualquer diferença em ataque. Distinguir essas situações exige alguma distância, inclusive para admitir que nem tudo o que nos incomoda pretende nos ferir. Talvez a questão esteja menos em deixar de sentir e mais em reconhecer que o outro pode avaliar uma parte do que fazemos sem, com isso, definir tudo o que somos.

sábado, 11 de julho de 2026

Um ensaio ainda inacabado ou é irresistivelmente interessante porque foi editado para as redes sociais



Os "shows" de stand-up que fazem sucesso hoje parecem existir principalmente nos cortes que circulam pelas redes sociais. Bastam alguns segundos bem editados para criar a impressão de um espetáculo irresistível. Quem compra um ingresso, porém, encontra outra experiência. Aquilo que parecia intenso na tela frequentemente se transforma em uma apresentação longa, irregular e incapaz de sustentar o interesse durante toda a noite.

Parte desse problema decorre da formação de muitos "artistas". O palco exige tempo, presença, domínio do ritmo, capacidade de conduzir uma plateia e de construir uma apresentação inteira. Sem isso, o "show" passa a depender de improvisos intermináveis e da colaboração do público. Em vez de conduzir a cena, o comediante espera que alguém ofereça o material de que precisa. A sensação é a de assistir a um ensaio ainda inacabado.

Existe também um público que parece ter perdido o prazer de assistir. Algumas pessoas chegam ao teatro dispostas a ocupar o centro da cena. Gritam, interrompem, respondem antes de qualquer convite, falam cada vez mais alto e comemoram quando conseguem arrancar alguns segundos de atenção. O palco se transforma em uma disputa permanente por visibilidade, enquanto a apresentação vai sendo desmontada aos poucos.

Sair de casa para participar de uma experiência como essa provoca uma sensação difícil de ignorar. O ingresso dá acesso a um "show", mas a noite acaba sendo consumida por improvisos frágeis, conversas dispersas e tentativas de transformar espectadores em protagonistas. Os cortes continuarão preservando apenas os instantes em que tudo parece funcionar. Quem esteve presente leva consigo a lembrança de um espetáculo que existiu muito mais na edição do que no palco.

sábado, 4 de julho de 2026

Quando o amor encontra quem desaprendeu a recebê-lo

Há filmes em que a história de amor ocupa o centro da narrativa. Em God's Own Country (2017), tive a impressão de que o amor funciona de outra maneira. Ele não chega para resolver a vida de Johnny (o protagonista). Chega para revelar o tamanho do conflito que ele mantém consigo mesmo. Antes de Gheorghe, havia um rapaz que suportava a própria existência trabalhando até a exaustão, bebendo até perder o controle e tratando o próprio corpo com a mesma brutalidade com que tratava os animais e as pessoas ao redor. A dureza não era um traço de personalidade. Era a única forma que ele conhecia de continuar vivendo. Diversos críticos observam que o filme concentra seu olhar menos nos obstáculos externos e mais na dificuldade de Johnny em aceitar a própria vulnerabilidade.

Quando Gheorghe aparece, algo se desloca. Ele não tenta salvar Johnny, tampouco exige que ele se transforme. Apenas introduz uma forma de cuidado que aquele universo desconhecia. O cuidado com os animais, com a terra, com o silêncio e, sobretudo, com o outro. Aos poucos, Johnny percebe que existe uma vida possível fora da violência que sempre dirigiu a si mesmo. O amor, ali, não aparece como recompensa. Surge como uma experiência completamente nova, capaz de colocar em crise tudo aquilo que ele acreditava saber sobre si.

Foi justamente nesse ponto que o filme mais me chamou a atenção. Quando finalmente percebe que pode ser amado, Johnny faz exatamente aquilo que ameaça destruir esse encontro. Volta a beber, procura sexo casual, reage com hostilidade e empurra Gheorghe para longe. À primeira vista, parece uma contradição. Pensando melhor, talvez seja o movimento mais coerente de toda a narrativa. Há quem suporte anos de solidão porque ela se tornou familiar. O amor, ao contrário, exige abandonar uma identidade construída sobre a certeza de que ninguém permanecerá. Aceitar o afeto significa também abandonar a imagem que se fez de si. E isso, muitas vezes, assusta mais do que continuar sofrendo. A força do filme está justamente em mostrar que Johnny não foge de Gheorghe. Ele foge da possibilidade de acreditar que alguém possa escolhê-lo.

Talvez seja essa a cena que continua depois que o filme termina. A reconciliação não encerra o conflito; apenas inaugura outra etapa. Johnny volta diferente porque compreende que existe uma alternativa à vida que levava. Isso não significa que tenha deixado para trás tudo o que o constituiu. O medo continua ali. As marcas também. A diferença é que, pela primeira vez, elas deixam de decidir sozinhas o rumo da sua vida. Talvez amar alguém seja mais simples do que aceitar que esse amor sobreviva às partes de nós que aprendemos a considerar indignas de cuidado. É essa travessia silenciosa que, para mim, faz de God's Own Country um filme que permanece muito tempo depois dos créditos finais.

domingo, 28 de junho de 2026

Um pouco mais de silêncio



Há algum tempo este espaço tem permanecido mais silencioso. Não por falta de vontade de escrever, muito menos porque as palavras tenham se esgotado. Às vezes, a vida simplesmente reorganiza as prioridades e nos convoca a dedicar tempo e energia ao que, naquele momento, não pode esperar. O blogue continua fazendo parte de mim, mas precisou ceder espaço para outras urgências.

O trabalho tem exigido mais do que o habitual. Entre aulas, orientações, leituras, pareceres, projetos e tantos compromissos que fazem parte da vida acadêmica, os dias passaram a ser medidos pela quantidade de tarefas que cabem neles. Quando percebi, o intervalo entre uma publicação e outra já era maior do que eu gostaria.

Ao mesmo tempo, algumas questões pessoais também pediram atenção. Há momentos em que a vida acontece longe das redes e das páginas que escrevemos. São períodos em que é preciso cuidar do que está ao redor, reorganizar pensamentos, rever caminhos e aceitar que nem tudo pode ser compartilhado enquanto ainda está sendo vivido.

Curiosamente, esse afastamento da escrita pública não significou um afastamento da leitura. Pelo contrário. Tenho dedicado parte desse tempo a ler outras coisas, algumas diretamente relacionadas ao meu trabalho, outras movidas apenas pela curiosidade e pelo desejo de aprender. Ler também é uma forma de permanecer em movimento, ainda que esse movimento nem sempre seja visível para quem acompanha este espaço.

Escrever continua sendo uma das formas que encontro para organizar o pensamento e dialogar com quem passa por aqui. Talvez as publicações não mantenham o ritmo de outros momentos, mas este espaço permanece vivo, acompanhando o tempo possível entre tantas outras tarefas e leituras. Agradeço a quem continua por perto, lendo, comentando e fazendo deste blogue um lugar de encontro. Aos poucos, as palavras voltarão a aparecer com a frequência que sempre desejaram.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Perdidos na tradução



Passaram-se trinta e um anos. Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em camadas. Foi em Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná, que nos encontramos pela primeira vez. Ele, um austríaco jovem, curioso, querendo conhecer o mundo. Eu, iniciando a minha carreira acadêmica. Uma amiga (ex-aluna) em comum (foto 1), nos apresentou. Na verdade, levou-o para assistir a uma aula de português, gramática, para que ele aprendesse um pouco da língua. Não funcionou.

Dali em diante, nos aproximamos. Ele queria conhecer o Rio de Janeiro. Eu viajaria de férias no fim daquele ano, 1995. Fomos juntos. Ele agarrado a um litro de guaraná quente. Ficou na casa dos meus pais, depois na casa de um amigo. Meus amigos o adotaram. Apresentei a ele o Rio de Janeiro.

A vida seguiu. Vieram os afastamentos, silenciosos, quase naturais, como parte do próprio movimento do tempo. Durante anos, não houve notícias. Em outro momento da vida, mediado por telas e algoritmos, as redes sociais nos colocaram novamente na mesma órbita. Um gesto simples, uma mensagem, e aquilo que parecia distante encontrou uma forma de retorno, deslocado, inscrito em outras condições.

Somos outros. Algo se transformou, algo permanece. O que guardo é um afeto que não se dissolveu, mesmo sem presença, como se tivesse sido depositado em algum lugar fora do alcance do desgaste cotidiano. No próximo sábado, vamos nos encontrar. Nesse reencontro, há menos a tentativa de recuperar o que fomos e mais a possibilidade de sustentar o que ainda pode ser dito entre nós, ele em alemão, eu em português. Viva a tecnologia.

Há também um movimento que se dirige à juventude como memória sensível. Um tempo que permanece como marca, como vestígio, como forma de olhar o mundo. Ir ao encontro desse amigo toca essas marcas, sem a ilusão de restaurá-las, mas reconhecendo sua presença.

E há ainda as cidades. Viena e Salzburgo sempre habitaram minha imaginação como espaços de deslocamento e descoberta. Agora deixam de ser apenas imagens e se tornam percurso. Há algo nessa expectativa de caminhar com ele por uma cidade que também o inscreve, como se o encontro não se desse apenas entre nós, mas também entre tempos e lugares que, de algum modo, continuam a nos constituir.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Em curso




Há momentos em que a escolha pelo novo deixa de ser apenas uma abertura e passa a marcar uma posição no percurso de quem decide seguir. Nesse movimento, o que ficou para trás reaparece, como se ainda pudesse ocupar o lugar que já foi atravessado. O antigo insiste, tenta se reinscrever, sustentado pela familiaridade que carrega. Esse retorno não ocorre ao acaso; ele se ancora na memória do já vivido, buscando reativar sentidos que pareciam encerrados.

A decisão de partir implica sustentar o deslocamento que já se produziu. Aceitar o convite do que retorna pode parecer um gesto simples, mas recoloca o sujeito em um ponto que já foi deixado. Nem tudo que reaparece comporta permanência, e reconhecer esse limite faz parte do próprio caminhar. Há passagens que se dão uma única vez, ligadas a condições que não se repetem da mesma maneira, ainda que tentem se apresentar como continuidade.

Em certas situações, aquilo que chama de volta coincide com o que antes impunha barreiras ao avanço. Essa coincidência não se apresenta de forma evidente, pois se manifesta sob a forma do conhecido, do que já foi experimentado, do que oferece uma aparência de estabilidade. A vida, por sua vez, coloca em circulação outras direções, abrindo possibilidades que não se deixam reduzir ao que já foi vivido.

O conforto se apresenta como um ponto de apoio sedutor, associado à ideia de segurança e previsibilidade. Ainda assim, ele não se confunde com a possibilidade de transformação. Permanecer no que é confortável pode significar a repetição de um lugar já percorrido, enquanto o deslocamento implica atravessar zonas de incerteza. Esse atravessamento exige uma relação com o tempo que acolhe o risco implicado em cada escolha.

Seguir adiante envolve reconhecer que a escolha já foi feita e que ela continua produzindo efeitos. O passado pode insistir, convocar, nomear, mas o percurso em curso solicita continuidade. É nesse movimento que se inscrevem outras experiências e outros modos de se relacionar com o que ainda está por vir, sem que o já vivido retome o lugar que deixou de ocupar.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Entre o que passa e o que se perde


Há momentos em que a vida se apresenta como uma plataforma movimentada, na qual cada gesto carrega um peso que só se percebe depois. O tempo passa como os ônibus que chegam e partem sem aviso, e cada escolha desenha um trajeto que não retorna ao ponto de partida. A sensação de que algo poderia ter sido diferente surge tarde demais, quando o veículo já seguiu adiante e deixou para trás aquilo que ainda parecia possível.

A ideia de que sempre haverá outra oportunidade sustenta muitas decisões apressadas ou adiadas. Ainda assim, certas passagens ocorrem de modo singular, ligadas a circunstâncias que jamais se repetem da mesma maneira. Um encontro, uma palavra, um gesto concentram uma densidade própria, inscrita naquele instante. Quando ele passa, o que permanece é a memória e a tentativa de compreender o que se perdeu.

Seguir em frente implica reconhecer que cada ônibus perdido também compõe o percurso. Há um aprendizado silencioso nesse movimento, uma forma de lidar com o que não foi vivido e com o que ainda pode surgir. A ideia de pegar o próximo não apaga o anterior, mas desloca o olhar para o que ainda circula, para o que ainda se apresenta como possibilidade.

Entre a pressa e a hesitação, constrói-se uma relação com o tempo que nem sempre é confortável. O desejo de acerto convive com o risco da perda. A vida se apresenta como uma sucessão de chegadas e partidas, em que cada escolha implica deixar algo para trás. Esse movimento constante exige coragem para embarcar, mesmo sem garantia de destino.

Talvez o mais intenso resida justamente nesse trânsito contínuo. O valor de cada instante se delineia na consciência de que ele não se repete. Seguir adiante, então, ganha outro sentido: não como substituição do que passou, mas como continuidade de uma experiência que se reinventa a cada parada. O próximo ônibus não corrige o anterior, mas abre um novo caminho para quem decide entrar.


Como separar aquilo que se fez daquilo que se é?

Há pessoas para quem qualquer comentário dirigido ao trabalho, a uma escolha ou a uma atitude parece alcançar imediatamente algo mais profun...