quarta-feira, 18 de março de 2026

Entre o aqui e Pescara


A contagem regressiva já começou, e cada dia agora carrega um peso diferente. O calendário deixou de ser apenas uma sequência de datas e passou a marcar a aproximação de um deslocamento que mobiliza memória, desejo e expectativa. Nos últimos dias de março, parto para a Itália, em direção a Pescara, onde me aguardam atividades na Università G. d’Annunzio. Entre o agora e o embarque, instala-se um tempo suspenso, feito de preparação e antecipação.

Viajar, nesse caso, ultrapassa o simples deslocamento geográfico. Trata-se de um encontro com outras formas de dizer, de pensar e de significar o mundo. Pescara, ainda imaginada a partir de imagens e leituras, começa a ganhar contornos mais nítidos à medida que a partida se aproxima. O mar Adriático, as ruas, a universidade — tudo isso já se inscreve como horizonte, mesmo antes da chegada.

Há também um movimento interno que acompanha essa travessia. Preparar aulas, organizar materiais, retomar textos e ideias: cada gesto se vincula ao que está por vir. A experiência de trabalhar em uma universidade italiana traz consigo a possibilidade de diálogo com estudantes e pesquisadores, em um espaço onde línguas e histórias se entrelaçam, produzindo deslocamentos que não são apenas físicos, mas também intelectuais.

Enquanto os dias diminuem até a data da partida, cresce a intensidade dessa espera. A viagem já começou, de certo modo, nesse intervalo que antecede o embarque. Contar os dias torna-se, assim, uma forma de habitar esse entre-lugar: ainda aqui, mas já em trânsito, com Pescara se afirmando pouco a pouco como destino e como experiência que está prestes a se inscrever na própria trajetória.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A experiência de reinventar-se em outro país

Mudar de país inaugura um deslocamento que ultrapassa a geografia. Atravessa hábitos, ritmos, modos de dizer e de silenciar. O corpo aprende outros horários, outra luz, outro desenho de cidade. Cada gesto cotidiano — comprar pão, pedir informação, esperar um ônibus — passa a carregar uma intensidade inédita, como se o mundo pedisse nova escuta e nova leitura.



A língua ocupa um lugar central nesse movimento. Mesmo quando se domina o idioma local, há sempre um intervalo entre o que se quer dizer e o que se consegue formular. Esse intervalo produz consciência sobre a própria palavra, sobre a memória que ela carrega e sobre o lugar a partir do qual se fala. Aos poucos, o estrangeiro percebe que habitar outra língua transforma também a forma de pensar e de sentir.

As relações ganham outra espessura. Amizades antigas passam a existir à distância, sustentadas por mensagens e chamadas que tentam vencer o fuso horário. Ao mesmo tempo, surgem encontros inesperados, marcados por curiosidade mútua e por descobertas compartilhadas. Viver fora implica reconstruir referências e aceitar que pertencimento se constrói no tempo, com paciência e abertura.

Mudar de país é, sobretudo,
uma experiência de reinvenção
. A identidade deixa de parecer fixa e passa a ser percebida como movimento. Aquilo que parecia sólido se rearranja diante do novo cenário. Entre saudade e entusiasmo, instala-se um aprendizado contínuo: viver em outro território ensina que a casa também pode ser um caminho, e que cada deslocamento redesenha quem somos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Entre tempos


Tenho, nos últimos meses, procurando pessoas que fizeram parte de um momento específico da minha vida: antes de eu vir morar no Paraná, ou seja, há 33 anos. Gente que esteve ali, em dias que hoje parecem guardados num álbum de retratos pouco visitado. Durante os meses de dezembro (2025) e janeiro (2026), essa busca foi ganhando um lugar maior dentro de mim, como se o passado tivesse batido à porta com calma, sem pressa, mas com insistência.

No começo, eu pensei que era saudade. Que eu queria reencontrar nomes, rostos, risadas, histórias interrompidas. Mas, conforme as semanas foram passando, percebi que o que me movia era outra coisa, mais funda e mais íntima: eu estava indo em busca de mim. De um “eu” que existiu naquele tempo e que, de algum modo, ficou ali, esperando.

Eu me dei conta de que aquela época tinha uma marca muito própria. Era um tempo de trabalho duro, de correria, de compromisso, de responsabilidades. Mas, ao mesmo tempo, era um momento em que eu me permitia mais. Eu me divertia mais. Eu experimentava mais. Eu me alegrava mais. Havia uma espécie de leveza que convivía com o esforço, e isso hoje me parece raro, quase como um luxo.

Talvez o que eu esteja tentando reencontrar não seja exatamente as pessoas, embora elas sejam parte essencial desse cenário, mas o que me ficou daquele tempo. O modo como eu vivia os dias. O jeito como eu conseguia estar presente, mesmo cansado, mesmo cheio de coisas para fazer. A alegria não era um prêmio depois do trabalho: ela caminhava junto, misturada, fazendo a vida ter um outro brilho.

E, no fim das contas, essa busca tem me ensinado alguma coisa: reencontrar pessoas pode ser uma ponte, mas o destino mesmo é outro. É a tentativa de recuperar um pedaço de mim que eu sinto falta. Um pedaço que lembra que a alegria pode fazer parte do caminho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Geopolítica da 5ª Série: Quando o Valentão do Recreio Tem Botão Nuclear




Os últimos capítulos da geopolítica envolvendo os EUA parecem briga de recreio em escola pública, só que com mísseis, sanções e pronunciamentos em letras maiúsculas. De um lado, países tentando negociar; do outro, Trump batendo o pé no chão, cruzando os braços e dizendo algo do tipo: é meu brinquedo. A diplomacia, nesse cenário, aparece sentada no canto da sala, pensando onde foi que tudo começou a dar errado.

Trump, aliás, segue como aquele aluno repetente que acha que mandar mais alto faz a regra mudar. Cada fala soa como ameaça de “vou contar pra minha mãe”, só que a mãe, no caso, é o arsenal militar mais poderoso do planeta. A extrema direita internacional vibra, bate palma, grita “mito” (nesse caso, grita "Laranja") e acha genial essa mistura de valentão com apresentador de reality show político. Geopolítica vira campeonato de quem faz mais careta para o outro.

Enquanto isso, a extrema direita global se comporta como panelinha do fundão, rindo alto, compartilhando memes ruins e dizendo que o mundo era melhor “antigamente”, sem explicar exatamente quando. O discurso é simples, repetitivo e grudento, igual chiclete no cabelo: culpa estrangeiro, culpa minorias, culpa qualquer coisa que não seja o próprio espelho. Complexidade vira palavrão.

No fim das contas, o planeta segue assistindo a esse teatro meio pastelão, meio assustador, onde decisões sérias são tratadas com maturidade de quem escreve palavrão na carteira da escola. Dá vontade de rir, mas o riso vem acompanhado daquele silêncio constrangedor de sala quando o professor entra e todo mundo percebe que a bagunça passou do limite. Porque, diferente da 5ª série, aqui a prova final todo mundo paga junto.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

The Golden Globe Goes To





O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, e do prêmio de melhor ator em drama para Wagner Moura por sua atuação no mesmo filme. Esses reconhecimentos colocam o Brasil em evidência num dos palcos mais disputados da indústria audiovisual e reafirmam a força criativa de uma cinematografia que insiste em pensar o país a partir de suas contradições históricas e políticas.

A importância desses prêmios ultrapassa a consagração individual de um diretor e de um ator. Eles incidem diretamente sobre a visibilidade do cinema brasileiro, ampliando circuitos de circulação, abrindo possibilidades de financiamento e reafirmando a legitimidade de uma produção que dialoga com questões locais sem abrir mão de uma linguagem capaz de interpelar públicos diversos. O Globo de Ouro, nesse sentido, atua como um amplificador simbólico da cultura brasileira no cenário internacional.

Agente Secreto chama atenção pelo tema que mobiliza: a memória da ditadura militar brasileira e seus efeitos persistentes na vida social e política do país. O filme constrói uma narrativa densa, marcada pela tensão entre passado e presente, convidando o espectador a confrontar silenciamentos, violências institucionais e formas de autoritarismo que continuam a assombrar a experiência democrática. Trata-se de um cinema que assume a memória como campo de disputa e responsabilidade coletiva.

Durante os pronunciamentos por ocasião da premiação, ontem à noite, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura destacaram a centralidade desse passado autoritário e estabeleceram relações diretas com o período recente do governo Bolsonaro, entre 2018 e 2022. As falas apontaram para a permanência de discursos e práticas que reativam fantasmas da ditadura, reafirmando o papel do cinema como espaço de posicionamento crítico e de elaboração simbólica diante de projetos políticos que ameaçam direitos, pluralidade e democracia.

Ao ser premiado, Agente Secreto reafirma que o cinema brasileiro segue capaz de produzir obras esteticamente vigorosas e politicamente implicadas. A conquista dos Globos de Ouro fortalece a cultura nacional ao mostrar que narrar a própria história, com suas feridas e conflitos, constitui um gesto de afirmação no mundo. Mais do que troféus, esses prêmios inscrevem o Brasil num debate internacional sobre memória, autoritarismo e liberdade, temas que permanecem incontornáveis.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

17 anos ...



No dia 24 deste mês, este blogue completa 17 anos de postagens. São 6.209 dias de escrita contínua, atravessada por tempos distintos, por leituras, inquietações, deslocamentos e insistências. O que começou como um espaço de expressão foi se tornando, ao longo dos anos, um lugar de pensamento, de elaboração e de partilha, marcado pela convivência entre textos diversos, temas múltiplos e modos distintos de dizer.

Ao longo desse percurso, a escrita permaneceu como exercício cotidiano de atenção ao mundo e à linguagem. Cada texto nasce de uma necessidade de dizer algo que pede forma, ritmo e escolha de palavras. Há textos breves e outros mais longos, alguns mais próximos da reflexão, outros do comentário, outros ainda do ensaio, mas todos partilham o mesmo compromisso com a palavra pensada, trabalhada e assumida.

Esses anos também são feitos de diálogo. Mesmo quando silencioso, o gesto de escrever supõe um outro, uma leitura possível, uma circulação que dá sentido à permanência do blogue. Comentários, mensagens, leituras ocasionais ou recorrentes compõem essa história e fazem com que o texto não permaneça isolado, mas em relação.

Celebrar 17 anos de postagens é afirmar a escrita como prática de continuidade e resistência ao apagamento. É reconhecer o tempo investido, as transformações do próprio autor e a permanência do desejo de escrever. Que os próximos textos sigam abrindo espaço para pensar, dizer e compartilhar, mantendo viva essa trajetória que já atravessa quase duas décadas.

Entre o aqui e Pescara

A contagem regressiva já começou, e cada dia agora carrega um peso diferente. O calendário deixou de ser apenas uma sequência de datas e pas...