quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Geopolítica da 5ª Série: Quando o Valentão do Recreio Tem Botão Nuclear




Os últimos capítulos da geopolítica envolvendo os EUA parecem briga de recreio em escola pública, só que com mísseis, sanções e pronunciamentos em letras maiúsculas. De um lado, países tentando negociar; do outro, Trump batendo o pé no chão, cruzando os braços e dizendo algo do tipo: é meu brinquedo. A diplomacia, nesse cenário, aparece sentada no canto da sala, pensando onde foi que tudo começou a dar errado.

Trump, aliás, segue como aquele aluno repetente que acha que mandar mais alto faz a regra mudar. Cada fala soa como ameaça de “vou contar pra minha mãe”, só que a mãe, no caso, é o arsenal militar mais poderoso do planeta. A extrema direita internacional vibra, bate palma, grita “mito” (nesse caso, grita "Laranja") e acha genial essa mistura de valentão com apresentador de reality show político. Geopolítica vira campeonato de quem faz mais careta para o outro.

Enquanto isso, a extrema direita global se comporta como panelinha do fundão, rindo alto, compartilhando memes ruins e dizendo que o mundo era melhor “antigamente”, sem explicar exatamente quando. O discurso é simples, repetitivo e grudento, igual chiclete no cabelo: culpa estrangeiro, culpa minorias, culpa qualquer coisa que não seja o próprio espelho. Complexidade vira palavrão.

No fim das contas, o planeta segue assistindo a esse teatro meio pastelão, meio assustador, onde decisões sérias são tratadas com maturidade de quem escreve palavrão na carteira da escola. Dá vontade de rir, mas o riso vem acompanhado daquele silêncio constrangedor de sala quando o professor entra e todo mundo percebe que a bagunça passou do limite. Porque, diferente da 5ª série, aqui a prova final todo mundo paga junto.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

The Golden Globe Goes To





O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, e do prêmio de melhor ator em drama para Wagner Moura por sua atuação no mesmo filme. Esses reconhecimentos colocam o Brasil em evidência num dos palcos mais disputados da indústria audiovisual e reafirmam a força criativa de uma cinematografia que insiste em pensar o país a partir de suas contradições históricas e políticas.

A importância desses prêmios ultrapassa a consagração individual de um diretor e de um ator. Eles incidem diretamente sobre a visibilidade do cinema brasileiro, ampliando circuitos de circulação, abrindo possibilidades de financiamento e reafirmando a legitimidade de uma produção que dialoga com questões locais sem abrir mão de uma linguagem capaz de interpelar públicos diversos. O Globo de Ouro, nesse sentido, atua como um amplificador simbólico da cultura brasileira no cenário internacional.

Agente Secreto chama atenção pelo tema que mobiliza: a memória da ditadura militar brasileira e seus efeitos persistentes na vida social e política do país. O filme constrói uma narrativa densa, marcada pela tensão entre passado e presente, convidando o espectador a confrontar silenciamentos, violências institucionais e formas de autoritarismo que continuam a assombrar a experiência democrática. Trata-se de um cinema que assume a memória como campo de disputa e responsabilidade coletiva.

Durante os pronunciamentos por ocasião da premiação, ontem à noite, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura destacaram a centralidade desse passado autoritário e estabeleceram relações diretas com o período recente do governo Bolsonaro, entre 2018 e 2022. As falas apontaram para a permanência de discursos e práticas que reativam fantasmas da ditadura, reafirmando o papel do cinema como espaço de posicionamento crítico e de elaboração simbólica diante de projetos políticos que ameaçam direitos, pluralidade e democracia.

Ao ser premiado, Agente Secreto reafirma que o cinema brasileiro segue capaz de produzir obras esteticamente vigorosas e politicamente implicadas. A conquista dos Globos de Ouro fortalece a cultura nacional ao mostrar que narrar a própria história, com suas feridas e conflitos, constitui um gesto de afirmação no mundo. Mais do que troféus, esses prêmios inscrevem o Brasil num debate internacional sobre memória, autoritarismo e liberdade, temas que permanecem incontornáveis.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

17 anos ...



No dia 24 deste mês, este blogue completa 17 anos de postagens. São 6.209 dias de escrita contínua, atravessada por tempos distintos, por leituras, inquietações, deslocamentos e insistências. O que começou como um espaço de expressão foi se tornando, ao longo dos anos, um lugar de pensamento, de elaboração e de partilha, marcado pela convivência entre textos diversos, temas múltiplos e modos distintos de dizer.

Ao longo desse percurso, a escrita permaneceu como exercício cotidiano de atenção ao mundo e à linguagem. Cada texto nasce de uma necessidade de dizer algo que pede forma, ritmo e escolha de palavras. Há textos breves e outros mais longos, alguns mais próximos da reflexão, outros do comentário, outros ainda do ensaio, mas todos partilham o mesmo compromisso com a palavra pensada, trabalhada e assumida.

Esses anos também são feitos de diálogo. Mesmo quando silencioso, o gesto de escrever supõe um outro, uma leitura possível, uma circulação que dá sentido à permanência do blogue. Comentários, mensagens, leituras ocasionais ou recorrentes compõem essa história e fazem com que o texto não permaneça isolado, mas em relação.

Celebrar 17 anos de postagens é afirmar a escrita como prática de continuidade e resistência ao apagamento. É reconhecer o tempo investido, as transformações do próprio autor e a permanência do desejo de escrever. Que os próximos textos sigam abrindo espaço para pensar, dizer e compartilhar, mantendo viva essa trajetória que já atravessa quase duas décadas.

A experiência de reinventar-se em outro país

Mudar de país inaugura um deslocamento que ultrapassa a geografia . Atravessa hábitos, ritmos, modos de dizer e de silenciar. O corpo aprend...