sábado, 11 de julho de 2026

Um ensaio ainda inacabado ou é irresistivelmente interessante porque foi editado para as redes sociais



Os "shows" de stand-up que fazem sucesso hoje parecem existir principalmente nos cortes que circulam pelas redes sociais. Bastam alguns segundos bem editados para criar a impressão de um espetáculo irresistível. Quem compra um ingresso, porém, encontra outra experiência. Aquilo que parecia intenso na tela frequentemente se transforma em uma apresentação longa, irregular e incapaz de sustentar o interesse durante toda a noite.

Parte desse problema decorre da formação de muitos "artistas". O palco exige tempo, presença, domínio do ritmo, capacidade de conduzir uma plateia e de construir uma apresentação inteira. Sem isso, o "show" passa a depender de improvisos intermináveis e da colaboração do público. Em vez de conduzir a cena, o comediante espera que alguém ofereça o material de que precisa. A sensação é a de assistir a um ensaio ainda inacabado.

Existe também um público que parece ter perdido o prazer de assistir. Algumas pessoas chegam ao teatro dispostas a ocupar o centro da cena. Gritam, interrompem, respondem antes de qualquer convite, falam cada vez mais alto e comemoram quando conseguem arrancar alguns segundos de atenção. O palco se transforma em uma disputa permanente por visibilidade, enquanto a apresentação vai sendo desmontada aos poucos.

Sair de casa para participar de uma experiência como essa provoca uma sensação difícil de ignorar. O ingresso dá acesso a um "show", mas a noite acaba sendo consumida por improvisos frágeis, conversas dispersas e tentativas de transformar espectadores em protagonistas. Os cortes continuarão preservando apenas os instantes em que tudo parece funcionar. Quem esteve presente leva consigo a lembrança de um espetáculo que existiu muito mais na edição do que no palco.

sábado, 4 de julho de 2026

Quando o amor encontra quem desaprendeu a recebê-lo

Há filmes em que a história de amor ocupa o centro da narrativa. Em God's Own Country (2017), tive a impressão de que o amor funciona de outra maneira. Ele não chega para resolver a vida de Johnny (o protagonista). Chega para revelar o tamanho do conflito que ele mantém consigo mesmo. Antes de Gheorghe, havia um rapaz que suportava a própria existência trabalhando até a exaustão, bebendo até perder o controle e tratando o próprio corpo com a mesma brutalidade com que tratava os animais e as pessoas ao redor. A dureza não era um traço de personalidade. Era a única forma que ele conhecia de continuar vivendo. Diversos críticos observam que o filme concentra seu olhar menos nos obstáculos externos e mais na dificuldade de Johnny em aceitar a própria vulnerabilidade.

Quando Gheorghe aparece, algo se desloca. Ele não tenta salvar Johnny, tampouco exige que ele se transforme. Apenas introduz uma forma de cuidado que aquele universo desconhecia. O cuidado com os animais, com a terra, com o silêncio e, sobretudo, com o outro. Aos poucos, Johnny percebe que existe uma vida possível fora da violência que sempre dirigiu a si mesmo. O amor, ali, não aparece como recompensa. Surge como uma experiência completamente nova, capaz de colocar em crise tudo aquilo que ele acreditava saber sobre si.

Foi justamente nesse ponto que o filme mais me chamou a atenção. Quando finalmente percebe que pode ser amado, Johnny faz exatamente aquilo que ameaça destruir esse encontro. Volta a beber, procura sexo casual, reage com hostilidade e empurra Gheorghe para longe. À primeira vista, parece uma contradição. Pensando melhor, talvez seja o movimento mais coerente de toda a narrativa. Há quem suporte anos de solidão porque ela se tornou familiar. O amor, ao contrário, exige abandonar uma identidade construída sobre a certeza de que ninguém permanecerá. Aceitar o afeto significa também abandonar a imagem que se fez de si. E isso, muitas vezes, assusta mais do que continuar sofrendo. A força do filme está justamente em mostrar que Johnny não foge de Gheorghe. Ele foge da possibilidade de acreditar que alguém possa escolhê-lo.

Talvez seja essa a cena que continua depois que o filme termina. A reconciliação não encerra o conflito; apenas inaugura outra etapa. Johnny volta diferente porque compreende que existe uma alternativa à vida que levava. Isso não significa que tenha deixado para trás tudo o que o constituiu. O medo continua ali. As marcas também. A diferença é que, pela primeira vez, elas deixam de decidir sozinhas o rumo da sua vida. Talvez amar alguém seja mais simples do que aceitar que esse amor sobreviva às partes de nós que aprendemos a considerar indignas de cuidado. É essa travessia silenciosa que, para mim, faz de God's Own Country um filme que permanece muito tempo depois dos créditos finais.

Um ensaio ainda inacabado ou é irresistivelmente interessante porque foi editado para as redes sociais

Os "shows" de stand-up que fazem sucesso hoje parecem existir principalmente nos cortes que circulam pelas redes sociais. Bastam a...