Há filmes em que a história de amor ocupa o centro da narrativa. Em God's Own Country (2017), tive a impressão de que o amor funciona de outra maneira. Ele não chega para resolver a vida de Johnny (o protagonista). Chega para revelar o tamanho do conflito que ele mantém consigo mesmo. Antes de Gheorghe, havia um rapaz que suportava a própria existência trabalhando até a exaustão, bebendo até perder o controle e tratando o próprio corpo com a mesma brutalidade com que tratava os animais e as pessoas ao redor. A dureza não era um traço de personalidade. Era a única forma que ele conhecia de continuar vivendo. Diversos críticos observam que o filme concentra seu olhar menos nos obstáculos externos e mais na dificuldade de Johnny em aceitar a própria vulnerabilidade.
Quando Gheorghe aparece, algo se desloca. Ele não tenta salvar Johnny, tampouco exige que ele se transforme. Apenas introduz uma forma de cuidado que aquele universo desconhecia. O cuidado com os animais, com a terra, com o silêncio e, sobretudo, com o outro. Aos poucos, Johnny percebe que existe uma vida possível fora da violência que sempre dirigiu a si mesmo. O amor, ali, não aparece como recompensa. Surge como uma experiência completamente nova, capaz de colocar em crise tudo aquilo que ele acreditava saber sobre si.
Foi justamente nesse ponto que o filme mais me chamou a atenção. Quando finalmente percebe que pode ser amado, Johnny faz exatamente aquilo que ameaça destruir esse encontro. Volta a beber, procura sexo casual, reage com hostilidade e empurra Gheorghe para longe. À primeira vista, parece uma contradição. Pensando melhor, talvez seja o movimento mais coerente de toda a narrativa. Há quem suporte anos de solidão porque ela se tornou familiar. O amor, ao contrário, exige abandonar uma identidade construída sobre a certeza de que ninguém permanecerá. Aceitar o afeto significa também abandonar a imagem que se fez de si. E isso, muitas vezes, assusta mais do que continuar sofrendo. A força do filme está justamente em mostrar que Johnny não foge de Gheorghe. Ele foge da possibilidade de acreditar que alguém possa escolhê-lo.
Talvez seja essa a cena que continua depois que o filme termina. A reconciliação não encerra o conflito; apenas inaugura outra etapa. Johnny volta diferente porque compreende que existe uma alternativa à vida que levava. Isso não significa que tenha deixado para trás tudo o que o constituiu. O medo continua ali. As marcas também. A diferença é que, pela primeira vez, elas deixam de decidir sozinhas o rumo da sua vida. Talvez amar alguém seja mais simples do que aceitar que esse amor sobreviva às partes de nós que aprendemos a considerar indignas de cuidado. É essa travessia silenciosa que, para mim, faz de God's Own Country um filme que permanece muito tempo depois dos créditos finais.
