domingo, 30 de agosto de 2015

Oliver Sacks (1933-2015)

Fui apresentado aos livros do escritor por minha antiga orientadora de doutorado. Ela uma leitora contumaz dos seus artigos e livros. 
Eu fiquei encantado com O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Ele um renomado neurologista totalmente desconhecido pra mim. O mundo é realmente grande. Muitos ainda são e serão pra toda vida totalmente desconhecidos pra mim.
Oliver Sacks um dia deixou de ser. Sua escrita simples e inacreditavelmente sofisticada: ele era mesmo "o poeta da medicina moderna".
Hoje me deparo com a notícia da sua morte. Eu já sabia do câncer, das várias metástases, do artigo que ele escreveu no New York Times sobre os nove anos de sobrevida depois do diagnóstico e da sua felicidade por estar ainda com saúde e poder produzir muito, como o fez.
Bem, serei pra sempre um desconhecido assim como a maior parte dos seus leitores, mas ele um dia fez uma grande diferença na minha vida.

Da Série Contos Mínimos


Resultado de imagem para balanço para criançaO antigo balanço rangia como se nos dissesse que ainda estava vivo. Bem antes de avistá-lo eu ia imaginando uma criança no ar como quem voasse. Era uma menina sozinha num quintal gramado: ela e um velho balanço amarelo. Ele se repetindo - o de sempre com outra geração.

domingo, 23 de agosto de 2015

Discutir gênero pra quê?

Resultado de imagem para pra quê discutir gênero?Sabão, eletrodomésticos, produtos de limpeza, temperos e tudo o mais que tem alguma relação com a casa, com os filhos, tem também uma relação causal com as mulheres. 
Estou em casa assistindo ao programa Esquenta, em 23 de agosto de 2015, veiculado pela Rede Globo, comandado por uma mulher, Regina Casé, e entre uma atração e outra, a apresentadora faz merchandising do sabão líquido Ipê e solta a seguinte pérola: Sabão Líquido Ipê, o sabão da mulher moderna...
E continua mais ou menos assim: a mulher usa o tal sabão e sobra tempo pra ela fazer outras coisas.
Dizer isso é tão natural que não produz qualquer estranhamento: nem na apresentadora, nem na plateia e muito menos da empresa que produz o sabão e contrata uma agência de publicidade que produz esse slogan para vender o seu produto. 
E tudo isso deve fazer algum efeito porque do contrário alguém já teria se rebelado contra ele.
A publicidade também tem um papel fundamental na reprodução desses valores (a relação entre ser mulher e os produtos de limpeza). A mulher até pode ser uma empresária de sucesso, presidenta da república, uma grande professora, mas nunca pode, segundo a mídia, deixar de ser o que é. 
Essa construção social que relaciona ao gênero feminino algumas atribuições (algumas porque ando econômico) nos é tão familiar que quase nos impossibilita ouvir o que nos é imposto como sendo próprio do gênero. A gente não vê, não ouve e, por isso, não se dá conta dessa construção: e muitas vezes somos também os canais responsáveis por essa divulgação.
A imprensa apenas reforça esse imaginário: mas ele está em todos os lugares, inclusive na nossa forma de significar os gêneros. Estranharíamos, acredito, se o sabão ou qualquer outro produto de limpeza nos fossem apresentados como sendo um produto relacionado ao homem, para o homem moderno, por exemplo.
Bem, não estou, é claro, dizendo que naturalizam-se umas relações e não naturalizam-se outras. Inclusive uma alimenta a outra. Aos homens tb cabem outras aproximações, mas quase todos elas se constroem  a partir de uma imaginário tb bastante específico: homens e seu carros, homens e seus esportes perigosos, homens e suas coragens. E nos impõem comportamentos quase sempre difíceis (muito difícil) de nos confrontarmos com eles.
Quando um menino ouve a célebre frase: "Homem não chora" ele, o menino precisa se tocar de que aquela demonstração de fragilidade (materializada no choro) o está colocando em algum lugar no qual ele não deve/pode pertencer. Pra ser homem com H maiúsculo, pra ser homem de verdade ele não pode ter sentimentos, ou pelo menos não deve demonstrá-los. E aí ficamos todos reclamando do homem que não quer discutir relação, do homem que, no caso dos produtos de limpeza, dos filhos etc, não sabe fritar um ovo, trocar uma fralda etc.
Temos que estar atentos justamente para nos colocarmos em oposição a essas cristalizações porque só assim, nesse confronto, conseguiremos construir de verdade um lugar mais justo para as mulheres. 

Não é que eu me surpreenda...


Resultado de imagem para surpreenda-meNão é que eu me surpreenda, mas que história é essa de ser fotografado com uma polícia que parece estar envolvida numa chacina em SP? Bem, as investigações devem estar equivocadas. Nem todo policial é assassino. Igual mesmo é petista. Tudo filho de uma P. As p. que me perdoem, mas que filhos da p. são esses que vocês geraram?
Não é que eu me surpreenda, mas que história é essa de desejar em cartaz que a Dilma tivesse sido enforcada quando da tortura que sofreu durante a ditadura militar? Ou sugerir a morte do ex-presidente Lula como se pedir a morte de alguém ou desejar que que todos os petistas fossem exterminados tivesse relação com a liberdade de expressão ou se justificasse pelo “ódio” que tenho desses filhos de uma P. ?
Não é mesmo que eu me surpreenda, mas como assim dizer que “Cunha é corrupto mas está do nosso lado” pode significar uma forma legítima de “lutar” contra a corrupção? Corrupto mesmo são todos os petistas filhos de uma P.! Tudo igual! Tudo farinha do mesmo saco! Até a corrupção pode ser mais ou menos corrupta. Igual mesmo são os petistas filhos da p. Tudo ladrão! Tudo gente que não presta!
Bem, já disse que não me surpreendo, mas que tipo é esse de “protesto tranquilo”, “manifestação família” que não permite que outras pessoas possam discordar da sua posição e achar que, diante disso, toda e qualquer violência possa ser legítima? Bem, espancar petista filho da P. nem pode ser considerado violência. Violência mesmo é o preço da cebola! Isso sim nos envergonha! Culpa de quem? Nem precisa dizer. Olha o dólar nas alturas! A Crise-mundial-brasileira! A Grécia está desse jeito, Portugal daquele, Itália e Espanha indo pro mesmo caminho. Culpa de quem? Petistas filhos da p.!
Não é que eu me surpreenda. De verdade, não me surpreendo, mas em 2015 palavras de ordem contra comunistas? É isso mesmo? Volta da ditadura militar? Foi isso que eu li? “Não ao gênero”! Será que estou vendo coisas?
Bem, aos 50 não me surpreendo mesmo com muita coisa, mas acreditava que (quanta ingenuidade!) um passo dado a frente não seria mais possível voltar àquele lugar tão anos 70!!!! Bem, não é que eu me surpreenda, mas se não me engano em 70 fomos campeões no México, mas nunca se vestiu tanto a camisa da seleção. E a crise? Ah, vá pra pqp, petista filho da p.!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ainda somos os mesmos...

Havia um comportamento da minha mãe que eu achava muito estranho. Eu lhe dizia sempre que aquilo não podia ser normal. Que ela devia se tratar porque era alguma coisa, no mínimo, esquisita. Bem, aos poucos me percebo exatamente da mesma maneira que ela e é claro que mesmo agindo como ela eu continuo achando que preciso de um tratamento porque não pode ser normal.
Vamos aos fatos: minha mãe não reconhecia algumas pessoas na rua ou se conhecia as pessoas num lugar específico, não era capaz de reconhecê-las em um outro ambiente. Veja bem, não é apenas não se lembrar (isso é normal e comum) é NÃO reconhecer em quaisquer hipóteses.
Era mais ou menos assim. Estávamos juntos em algum lugar e alguém vinha conversar com ela, sabendo o seu nome, tendo algum assunto em comum. 
Minha mãe tratava a pessoa como se a reconhecesse. Conversava, respondia. Só não se estendia ali. Mas bastava a pessoa se afastar e ela me dizia: "Nunca vi esta pessoa na minha vida". 
Eu perguntava: _mãe, como isso é possível? A senhora não pode ser desse jeito! Como é que alguém sabe o seu nome, vem com um assunto que faz sentido e a senhora não sabe quem é a pessoa?
Ela ria muito e me dizia, simplesmente, que a pessoa devia ser maluca. Que a pessoa tinha confundido ela com alguém. E não adiantava argumentar: não adiantava eu dizer que a pessoa sabia o nome dela, etc. etc. etc.
Isso aconteceu muitas vezes. Em situações diversas. Acontecia com muita frequência e ela não se importava com isso. Isso não era uma questão ou era encarado como um problema. Ela simplesmente não tinha essa habilidade.
Comigo, isso acontece tb com muita frequência. E não é não me lembrar de onde eu conheço a pessoa, é, como minha mãe, não reconhecer a pessoa de lugar algum. Hoje, saindo da universidade, veio uma senhora na minha direção com um sorriso que esbarrava as orelhas. Eu retribuí o sorriso, é claro. Ela me chamou pelo nome e perguntou se estava tudo bem. Eu respondi, naturalmente, mas a sensação é a de que ela me confundiu com alguém porque eu NUNCA vi aquela senhora na minha vida.
Bem, ao fazer isso, me lembrei imediatamente na minha mãe. E mais, me lembrei como eu achava isso um absurdo e dizia pra ela que talvez ela estivesse "monada" (monada era uma palavra muito comum nas bocas da minha bisavó, avó e mãe. O sentido é o de ridiculamente cômico; grotesco). Eu caí no riso ao me lembrar de tudo isso. Ri sozinho no meio da rua porque a gente é muito como nossos pais, mesmo que a gente não se dê conta ou que não queira sê-lo.

domingo, 9 de agosto de 2015

Da Série Contos Mínimos

Resultado de imagem para morrer num domingoMorri num domingo, dia que eu odiava. Numa hora totalmente imprópria. Quem gostaria de morrer às 15h, no meio de uma tarde calorenta, abafada, seca e silenciosa? Bem, ao menos fui enterrado numa segunda-feira, dessas cheias de gente nas ruas, de muito movimento, de trabalho intenso. Não se escolhe, é certo, o dia de partir.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Da Série Contos Mínimos


Ontem percebi o efeito do tempo em mim. Nem no meu rosto, nem nas minhas mãos. Pra isso, bastaria rever velhos amigos (a marca no outro que necessariamente reflete a minha)
O efeito estava na deslembrança. Num tempo inteiro de ausência. Em horas sem me dar conta. Ai, Como me senti feliz! E como agradeci ao tempo, sábio que só ele, de me trazer sem que eu soubesse um novo outro lugar para eu estar. Respirei aliviado quando me percebi numa quinta-feira qualquer e única na minha vida. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Da Série Contos Mínimos

Não me lembro ao certo quando foi que deixei de confiar nas pessoas. Talvez isso tenha acontecido faz algum tempo. Talvez seja recente. Sei apenas que diante de alguma pista mínima que seja de desconfiança soa um sinal de alerta para que eu abandone o barco.

domingo, 2 de agosto de 2015

Da Série Contos Mínimos

Resultado de imagem para olhos de velhos
Acordei e fui direto para o banheiro escovar os dentes e tomar banho. Eu tinha um compromisso logo cedo. Mas antes disso me deparei com o espelho, olhei bem fundo nos meus olhos, que começaram a ficar velhos bem antes de mim. Percebi que só agora atingi a idade deles.

Das situações que não acontecem apenas nas crônicas de Fernando Sabino

Resultado de imagem para feirinha da general glicério
Dia desses, na verdade, faz bem mais do que isso, estava eu aguardando uma grande amiga, ali, na feirinha da General Glicério, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, descer do seu apartamento para uma conversa sem compromisso. Enquanto ela não descia, eu e uma outra amiga resolvemos tomar um caldo-de-cana e ouvir um chorinho que é frequente nessa feirinha, aos sábados. 
Caldo de cana vai, caldo de cana vem e nada da primeira amiga chegar. Cariocas têm uma característica bem peculiar: conversam até com pedra se esta lhe der alguma atenção. Bem, engatamos, e e a segunda amiga, um papo com um casal que também estava por ali tomando um caldo. 
Conversa vai, conversa vem, descubro que eles também estão por ali esperando alguém.

A feirinha da General Glicério é um ponto de encontro. Além do chorinho, do pastel e do caldo de cada tem um bolinho de bacalhau delicioso. É muito comum, pessoas que moram na região darem uma passadinha por ali.
Depois de algum tempo, minha amiga, Marta, desce e nos encontra na barraca do caldo. Ela chega e, como de costume, me dá dois beijos, um abraço, beija também a amiga comum e também o casal que está conversando comigo. Ficamos todos ali num papo de amigos de longa data.

Bem, em seguida, minha amiga nos convida pra subir e tomar um café com um bolo de laranja, que ela me devia fazia, pelo menos, uns dez anos. Todos animados subimos, nos sentamos na sala. Ela trouxe o café com bolo, comemos, bebemos, comemos mais, eu comi um pouco mais ainda porque era um bolo de dívida. Enquanto comíamos e bebíamos falamos de quase tudo. O casal muito agradável, ambos engraçados, cheios de histórias pra nos contar. A conversa rendeu.

Num certo momento, o casal se levanta e diz que precisa ir embora porque eles tinham um compromisso. Nos despedimos e como autênticos cariocas combinamos de nos encontrar num próximo sábado ali mesmo, na barraquinha do caldo-de-cana para mais uma conversa e, quem sabe, mais um bolo de laranja e um cafezinho na casa da Marta.

O casal vai embora e a minha amiga me diz:
_ Gostei muito dos seus amigos! 
_ Como assim, meus amigos? Eu não conheço essa gente. (lhe respondo).

De casal agradável passou para essa gente.

Ela, incrédula, acha que estou brincando e faz uma cara de surpresa. E eu lhe digo:

_ Achei que fossem seus amigos também já que você convidou todo mundo para um café com bolo.

Ela responde:
_ Mas só convidei porque achei que eram teus amigos já que estavam ali conversando animadamente.


Conclusão: eles não eram meus amigos, eles não eram amigos de ninguém. Nunca mais nos vimos porque cariocas têm dessas coisas: combinam de se encontrar, de se ligar com toda certeza no próximo fim de semana, mas deixam para o acaso o próximo encontro.