sábado, 21 de fevereiro de 2026

A experiência de reinventar-se em outro país

Mudar de país inaugura um deslocamento que ultrapassa a geografia. Atravessa hábitos, ritmos, modos de dizer e de silenciar. O corpo aprende outros horários, outra luz, outro desenho de cidade. Cada gesto cotidiano — comprar pão, pedir informação, esperar um ônibus — passa a carregar uma intensidade inédita, como se o mundo pedisse nova escuta e nova leitura.



A língua ocupa um lugar central nesse movimento. Mesmo quando se domina o idioma local, há sempre um intervalo entre o que se quer dizer e o que se consegue formular. Esse intervalo produz consciência sobre a própria palavra, sobre a memória que ela carrega e sobre o lugar a partir do qual se fala. Aos poucos, o estrangeiro percebe que habitar outra língua transforma também a forma de pensar e de sentir.

As relações ganham outra espessura. Amizades antigas passam a existir à distância, sustentadas por mensagens e chamadas que tentam vencer o fuso horário. Ao mesmo tempo, surgem encontros inesperados, marcados por curiosidade mútua e por descobertas compartilhadas. Viver fora implica reconstruir referências e aceitar que pertencimento se constrói no tempo, com paciência e abertura.

Mudar de país é, sobretudo,
uma experiência de reinvenção
. A identidade deixa de parecer fixa e passa a ser percebida como movimento. Aquilo que parecia sólido se rearranja diante do novo cenário. Entre saudade e entusiasmo, instala-se um aprendizado contínuo: viver em outro território ensina que a casa também pode ser um caminho, e que cada deslocamento redesenha quem somos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Entre tempos


Tenho, nos últimos meses, procurando pessoas que fizeram parte de um momento específico da minha vida: antes de eu vir morar no Paraná, ou seja, há 33 anos. Gente que esteve ali, em dias que hoje parecem guardados num álbum de retratos pouco visitado. Durante os meses de dezembro (2025) e janeiro (2026), essa busca foi ganhando um lugar maior dentro de mim, como se o passado tivesse batido à porta com calma, sem pressa, mas com insistência.

No começo, eu pensei que era saudade. Que eu queria reencontrar nomes, rostos, risadas, histórias interrompidas. Mas, conforme as semanas foram passando, percebi que o que me movia era outra coisa, mais funda e mais íntima: eu estava indo em busca de mim. De um “eu” que existiu naquele tempo e que, de algum modo, ficou ali, esperando.

Eu me dei conta de que aquela época tinha uma marca muito própria. Era um tempo de trabalho duro, de correria, de compromisso, de responsabilidades. Mas, ao mesmo tempo, era um momento em que eu me permitia mais. Eu me divertia mais. Eu experimentava mais. Eu me alegrava mais. Havia uma espécie de leveza que convivía com o esforço, e isso hoje me parece raro, quase como um luxo.

Talvez o que eu esteja tentando reencontrar não seja exatamente as pessoas, embora elas sejam parte essencial desse cenário, mas o que me ficou daquele tempo. O modo como eu vivia os dias. O jeito como eu conseguia estar presente, mesmo cansado, mesmo cheio de coisas para fazer. A alegria não era um prêmio depois do trabalho: ela caminhava junto, misturada, fazendo a vida ter um outro brilho.

E, no fim das contas, essa busca tem me ensinado alguma coisa: reencontrar pessoas pode ser uma ponte, mas o destino mesmo é outro. É a tentativa de recuperar um pedaço de mim que eu sinto falta. Um pedaço que lembra que a alegria pode fazer parte do caminho.

Entre o aqui e Pescara

A contagem regressiva já começou, e cada dia agora carrega um peso diferente. O calendário deixou de ser apenas uma sequência de datas e pas...