A decisão de partir implica sustentar o deslocamento que já se produziu. Aceitar o convite do que retorna pode parecer um gesto simples, mas recoloca o sujeito em um ponto que já foi deixado. Nem tudo que reaparece comporta permanência, e reconhecer esse limite faz parte do próprio caminhar. Há passagens que se dão uma única vez, ligadas a condições que não se repetem da mesma maneira, ainda que tentem se apresentar como continuidade.
Em certas situações, aquilo que chama de volta coincide com o que antes impunha barreiras ao avanço. Essa coincidência não se apresenta de forma evidente, pois se manifesta sob a forma do conhecido, do que já foi experimentado, do que oferece uma aparência de estabilidade. A vida, por sua vez, coloca em circulação outras direções, abrindo possibilidades que não se deixam reduzir ao que já foi vivido.
O conforto se apresenta como um ponto de apoio sedutor, associado à ideia de segurança e previsibilidade. Ainda assim, ele não se confunde com a possibilidade de transformação. Permanecer no que é confortável pode significar a repetição de um lugar já percorrido, enquanto o deslocamento implica atravessar zonas de incerteza. Esse atravessamento exige uma relação com o tempo que acolhe o risco implicado em cada escolha.
Seguir adiante envolve reconhecer que a escolha já foi feita e que ela continua produzindo efeitos. O passado pode insistir, convocar, nomear, mas o percurso em curso solicita continuidade. É nesse movimento que se inscrevem outras experiências e outros modos de se relacionar com o que ainda está por vir, sem que o já vivido retome o lugar que deixou de ocupar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário