quinta-feira, 23 de abril de 2026

Perdidos na tradução



Passaram-se trinta e um anos. Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em camadas. Foi em Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná, que nos encontramos pela primeira vez. Ele, um austríaco jovem, curioso, querendo conhecer o mundo. Eu, iniciando a minha carreira acadêmica. Uma amiga (ex-aluna) em comum (foto 1), nos apresentou. Na verdade, levou-o para assistir a uma aula de português, gramática, para que ele aprendesse um pouco da língua. Não funcionou.

Dali em diante, nos aproximamos. Ele queria conhecer o Rio de Janeiro. Eu viajaria de férias no fim daquele ano, 1995. Fomos juntos. Ele agarrado a um litro de guaraná quente. Ficou na casa dos meus pais, depois na casa de um amigo. Meus amigos o adotaram. Apresentei a ele o Rio de Janeiro.

A vida seguiu. Vieram os afastamentos, silenciosos, quase naturais, como parte do próprio movimento do tempo. Durante anos, não houve notícias. Em outro momento da vida, mediado por telas e algoritmos, as redes sociais nos colocaram novamente na mesma órbita. Um gesto simples, uma mensagem, e aquilo que parecia distante encontrou uma forma de retorno, deslocado, inscrito em outras condições.

Somos outros. Algo se transformou, algo permanece. O que guardo é um afeto que não se dissolveu, mesmo sem presença, como se tivesse sido depositado em algum lugar fora do alcance do desgaste cotidiano. No próximo sábado, vamos nos encontrar. Nesse reencontro, há menos a tentativa de recuperar o que fomos e mais a possibilidade de sustentar o que ainda pode ser dito entre nós, ele em alemão, eu em português. Viva a tecnologia.

Há também um movimento que se dirige à juventude como memória sensível. Um tempo que permanece como marca, como vestígio, como forma de olhar o mundo. Ir ao encontro desse amigo toca essas marcas, sem a ilusão de restaurá-las, mas reconhecendo sua presença.

E há ainda as cidades. Viena e Salzburgo sempre habitaram minha imaginação como espaços de deslocamento e descoberta. Agora deixam de ser apenas imagens e se tornam percurso. Há algo nessa expectativa de caminhar com ele por uma cidade que também o inscreve, como se o encontro não se desse apenas entre nós, mas também entre tempos e lugares que, de algum modo, continuam a nos constituir.


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