segunda-feira, 31 de março de 2025

Entre o movimento e a pausa


Nosso tempo encarnado é um breve instante diante da imensidão do mundo. Habitar um corpo é experimentar, a cada dia, a delicada consciência da própria finitude, marcada por alegrias passageiras e dores que nos atravessam quase sempre sem aviso. A vida se faz assim, entre o movimento e a pausa, entre encontros inesperados e despedidas inevitáveis, revelando-nos constantemente nossa fragilidade e força diante da passagem inexorável do tempo.

É justamente por sua delicadeza que a vida nos toca tão profundamente, nos surpreendendo em pequenos gestos e silêncios prolongados. A vida é sempre hiância, abertura inesperada, espaço de faltas e desejos jamais plenamente satisfeitos. É nessa abertura, nesse intervalo, que habitam nossos sonhos, angústias, esperanças e também nossa humanidade mais profunda. Reconhecer a hiância da vida é aceitar que somos feitos não só do que conquistamos, mas também daquilo que nunca conseguimos alcançar plenamente.

Assim, nosso tempo encarnado convida-nos à delicadeza do olhar, à aceitação das faltas e ao acolhimento das perguntas que permanecem sem resposta. Viver é dançar à beira do abismo, é saber que somos transitórios, que cada instante é único, irrepetível, sempre marcado pela ausência que o atravessa. É precisamente essa consciência que confere beleza e sentido à existência: saber que somos efêmeros nos permite amar mais profundamente, cuidar mais atentamente e abraçar com maior intensidade cada instante desse tempo que nos é dado viver.

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