Curiosamente, essa sensibilidade nem sempre produz cuidado com os outros. Às vezes, ocorre justamente o contrário. A pessoa que sofre intensamente com qualquer apreciação sobre si pode falar mal de todos, destacar defeitos, desconsiderar esforços e localizar rapidamente aquilo que não funciona. Forma-se, assim, uma relação desigual: exige-se dos outros uma delicadeza que não se oferece a eles. Talvez essa atitude seja uma forma de proteção, talvez seja um hábito, talvez mostre apenas uma maneira limitada de observar o mundo. Seja qual for a explicação, o resultado costuma ser o mesmo: conviver torna-se difícil quando o olhar está permanentemente treinado para encontrar falhas.
Também seria simplificador concluir que toda crítica nasce da maldade ou que toda sensibilidade representa fraqueza. Há ambientes profissionais violentos, comentários formulados para humilhar e avaliações que encobrem disputas pessoais. Há, igualmente, pessoas que transformam qualquer limite em perseguição e qualquer diferença em ataque. Distinguir essas situações exige alguma distância, inclusive para admitir que nem tudo o que nos incomoda pretende nos ferir. Talvez a questão esteja menos em deixar de sentir e mais em reconhecer que o outro pode avaliar uma parte do que fazemos sem, com isso, definir tudo o que somos.