segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Como separar aquilo que se fez daquilo que se é?


Há pessoas para quem qualquer comentário dirigido ao trabalho, a uma escolha ou a uma atitude parece alcançar imediatamente algo mais profundo. Uma observação profissional é recebida como julgamento pessoal; uma discordância soa como rejeição; uma correção adquire o peso de uma desqualificação. Quando a autoestima já se encontra fragilizada, torna-se difícil separar aquilo que se fez daquilo que se é. O problema dessa sobreposição está no fato de que ela altera a dimensão do comentário: o que poderia ser discutido, corrigido ou simplesmente recusado passa a ser vivido como ofensa.

Curiosamente, essa sensibilidade nem sempre produz cuidado com os outros. Às vezes, ocorre justamente o contrário. A pessoa que sofre intensamente com qualquer apreciação sobre si pode falar mal de todos, destacar defeitos, desconsiderar esforços e localizar rapidamente aquilo que não funciona. Forma-se, assim, uma relação desigual: exige-se dos outros uma delicadeza que não se oferece a eles. Talvez essa atitude seja uma forma de proteção, talvez seja um hábito, talvez mostre apenas uma maneira limitada de observar o mundo. Seja qual for a explicação, o resultado costuma ser o mesmo: conviver torna-se difícil quando o olhar está permanentemente treinado para encontrar falhas.

Também seria simplificador concluir que toda crítica nasce da maldade ou que toda sensibilidade representa fraqueza. Há ambientes profissionais violentos, comentários formulados para humilhar e avaliações que encobrem disputas pessoais. Há, igualmente, pessoas que transformam qualquer limite em perseguição e qualquer diferença em ataque. Distinguir essas situações exige alguma distância, inclusive para admitir que nem tudo o que nos incomoda pretende nos ferir. Talvez a questão esteja menos em deixar de sentir e mais em reconhecer que o outro pode avaliar uma parte do que fazemos sem, com isso, definir tudo o que somos.

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