terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Por que incluir?

Na perspectiva da Análise do Discurso materialista, a língua é concebida como uma prática social e, portanto, atravessada pela ideologia. A linguagem inclusiva emerge como um gesto político que desloca sentidos estabilizados, questionando as formações discursivas que naturalizam a exclusão de determinados sujeitos. Ao propor alternativas que visibilizem identidades historicamente silenciadas – como pessoas não binárias, mulheres, negros e outros grupos marginalizados –, a linguagem inclusiva desestabiliza a relação entre língua, história e ideologia. Nesse sentido, a escolha por uma linguagem que acolha a diversidade se torna um ato de resistência aos sentidos hegemônicos, produzindo fissuras no simbólico e possibilitando novos lugares de enunciação.



A língua, para a análise do discurso, possui uma opacidade que impede os sujeitos de perceberem imediatamente os efeitos de sentido que produzem. Assim, a linguagem inclusiva desafia essa opacidade ao trazer à superfície os mecanismos de invisibilização e subordinação inscritos nos usos linguísticos. 

Expressões como o uso genérico do masculino ou termos carregados de preconceito são marcas discursivas de uma ordem ideológica que organiza os lugares sociais. Ao interpelar esses sentidos, a linguagem inclusiva não apenas questiona o lugar dominante de determinados sujeitos, mas também torna possível a construção de novos sentidos que contemplam a pluralidade de sujeitos e experiências. Esse processo nos mostra que a língua não é um instrumento neutro, mas um espaço de luta ideológica, onde os sentidos estão sempre em disputa.

A importância da linguagem inclusiva, sob a lente da Análise do Discurso materialista, reside em sua capacidade de produzir deslocamentos discursivos. A proposta inclusiva não consiste em corrigir a língua, mas em transformar as condições de produção do discurso, ao possibilitar novas formas de dizer e significar o mundo. Ao visibilizar sujeitos e experiências antes marginalizados, a linguagem inclusiva não apenas promove um reconhecimento simbólico, mas também intervém materialmente na constituição ideológica dos sujeitos, convidando-os a ocupar novos lugares no discurso. Portanto, trata-se de um gesto ético e político que questiona o funcionamento ideológico da língua e, ao fazê-lo, abre espaço para uma sociedade mais democrática e plural.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Psicopatologia da vida cotidiana e sobre os sonhos (1901)

Ontem eu perdi minha carteira, hoje esqueci uma palavra, troquei o nome de alguém, não me lembrei do nome de uma coisa e de uma pessoa, não consegui recordar de uma palavra em francês, da minha infância eu tenho lapsos de memória, eu li uma palavra por outra, escrevi uma palavra lugar de outra, esqueci o nome de uma rua, de uma cidade, de um bairro.

Freud revela como fenômenos comuns do dia a dia, como lapsos e esquecimentos, são portas de entrada para compreender o inconsciente. Esses atos falhos mostram que o inconsciente interfere ativamente na vida consciente, trazendo à tona desejos, memórias e conflitos reprimidos. O inconsciente permeia a existência cotidiana.

Tema Central: Freud explora os fenômenos do cotidiano que revelam aspectos do inconsciente, como lapsos de linguagem (atos falhos), esquecimentos, erros e enganos. Ele demonstra que esses eventos aparentemente triviais têm causas psíquicas profundas, ligadas a desejos reprimidos e conflitos internos.

Ato Falho: Freud argumenta que os lapsos de fala, escrita e memória não são meras casualidades, mas expressões de conteúdos inconscientes que escapam ao controle do sujeito.

Esquecimentos: Freud analisa casos de esquecimento de nomes, compromissos ou palavras e os relaciona a desejos inconscientes ou memórias reprimidas, muitas vezes associadas a conflitos emocionais.

Enganos: Os erros de julgamento, leitura ou compreensão também são interpretados como manifestações de desejos reprimidos ou conflitos inconscientes.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Da Série: Contos mínimos

Seria muito tarde? Eu relembrava pontos cruciais dos últimos anos. Não eram questões para refazer absolutamente nada, apenas para me entender...o que está lá atrás nunca nos é indiferente. O passado não fica no passado. Ao contrário. Ele volta sempre.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Solidão na velhice...


A solidão na velhice é uma experiência profundamente marcada pela complexidade da existência humana. Com o passar dos anos, os vínculos sociais tendem a se enfraquecer, seja pelo afastamento de familiares e amigos, seja pela perda desses laços devido a fatores como mudanças de residência ou morte. A ausência de conexões significativas pode transformar o idoso em um sujeito isolado, privado de trocas afetivas que são essenciais para a construção de sua identidade e para o sentido de pertencimento. Esse isolamento, muitas vezes invisível para a sociedade, atua como um elemento agravante de questões emocionais, como a depressão, e pode também impactar a saúde física.

No entanto, é importante considerar que a solidão não se resume apenas à ausência de pessoas ao redor. Muitas vezes, ela está presente mesmo em contextos onde há convivência com outras pessoas, mas falta empatia, escuta e verdadeiro interesse nas vivências do idoso. Isso revela que a solidão é, antes de tudo, uma experiência subjetiva, que se manifesta na sensação de não ser visto, ouvido ou compreendido. Na velhice, a escassez de espaços sociais que valorizem a história e a voz desse sujeito amplia essa sensação, tornando-o invisível em uma sociedade que frequentemente prioriza a juventude e o ritmo acelerado da produtividade.

Além dos desafios emocionais, a solidão na velhice também é atravessada por questões materiais. Muitos idosos enfrentam condições econômicas precárias, que limitam sua mobilidade e seu acesso a espaços de convivência e lazer. O isolamento é, nesse sentido, não apenas uma questão afetiva, mas também uma consequência de desigualdades estruturais. Envelhecer em uma sociedade que marginaliza os mais velhos é um desafio que exige reflexão coletiva. É preciso construir políticas públicas e práticas sociais que reconheçam o idoso como sujeito pleno de direitos, capaz de participar ativamente de diferentes esferas sociais.

Por fim, enfrentar a solidão na velhice requer um olhar atento e sensível, que vá além da simples convivência. É necessário valorizar os saberes acumulados ao longo da vida, criar espaços de diálogo e reconhecer o idoso como um sujeito ativo, cuja presença enriquece o tecido social. Em uma sociedade que muitas vezes privilegia a individualidade em detrimento do coletivo, a atenção à solidão dos mais velhos surge como um gesto ético, que reafirma a humanidade de todos. Que essa reflexão nos inspire a construir relações mais solidárias e inclusivas, que acolham as singularidades de cada etapa da vida.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

20 de novembro!!!!! HOJE E SEMPRE!


O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro no Brasil, é uma data dedicada à reflexão sobre a luta histórica da população negra contra o racismo, a escravidão e as desigualdades sociais. A escolha dessa data remonta à morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história brasileira, símbolo de resistência e luta por liberdade. Zumbi representa a força coletiva dos povos negros que, mesmo diante da opressão, mantiveram vivas suas culturas, religiões e modos de vida, enriquecendo a identidade brasileira com suas tradições e saberes.

Essa data não é apenas um momento de comemoração, mas também de análise crítica sobre o racismo estrutural que persiste em diversas esferas da sociedade. A população negra ainda enfrenta desafios históricos, como a desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho, a violência policial e a sub-representação política. O Dia da Consciência Negra, assim, se coloca como um espaço de reivindicação e reconhecimento, evidenciando a necessidade de políticas públicas e ações afirmativas que promovam a igualdade racial e a valorização da cultura afro-brasileira.

Ao celebrar essa data, é importante lembrar que a luta contra o racismo e pela equidade social não é tarefa apenas da população negra, mas de toda a sociedade. Reforçar o papel da educação antirracista, combater estereótipos e valorizar as contribuições culturais e históricas dos negros são passos fundamentais para a construção de um Brasil mais justo. Nesse sentido, o Dia da Consciência Negra não é apenas uma memória do passado, mas um chamado à transformação do presente, rumo a um futuro em que a diversidade seja realmente celebrada e respeitada.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Por outro lado...



Embora a inteligência artificial (IA) tenha revolucionado os trabalhos acadêmicos, sua utilização indiscriminada pode trazer diversos malefícios. Um dos problemas mais evidentes é a dependência excessiva dessas ferramentas, que pode levar à perda de habilidades fundamentais, como a leitura crítica, a interpretação de textos e a escrita autoral. Muitos estudantes e pesquisadores acabam se apoiando em soluções automatizadas para tarefas que deveriam exigir maior envolvimento intelectual, o que enfraquece a capacidade analítica e criativa essencial para a pesquisa acadêmica.

Outro ponto preocupante é a superficialidade que o uso da IA pode introduzir em trabalhos acadêmicos. Ferramentas de IA são eficientes em organizar e sintetizar informações, mas frequentemente carecem de capacidade para interpretar dados de maneira crítica ou contextualizada. Isso pode resultar em análises simplistas ou em interpretações equivocadas de fenômenos complexos, especialmente em áreas como as ciências humanas, onde o sentido é historicamente construído e influenciado por aspectos ideológicos e culturais. Assim, a IA pode gerar trabalhos que aparentam rigor técnico, mas carecem de profundidade teórica.

A questão ética também é um desafio significativo no uso da IA em contextos acadêmicos. Ferramentas de IA que produzem textos automaticamente podem levar ao uso indevido, como a elaboração de trabalhos sem o envolvimento efetivo do autor, o que levanta questões sobre autoria e originalidade. Além disso, os sistemas de IA dependem de bases de dados que nem sempre são transparentes, podendo reproduzir vieses existentes ou até mesmo fornecer informações imprecisas. A falta de crítica a essas limitações pode comprometer a qualidade e a confiabilidade dos trabalhos acadêmicos.

Por fim, a utilização da IA pode agravar desigualdades no meio acadêmico. Instituições e pesquisadores com menos acesso a essas tecnologias podem ser colocados em desvantagem em relação a colegas que dispõem de recursos mais avançados. Além disso, a valorização de ferramentas tecnológicas em detrimento da experiência humana pode marginalizar abordagens mais tradicionais de pesquisa, especialmente em contextos onde o uso da tecnologia não é viável ou apropriado. Assim, o uso desenfreado da inteligência artificial pode ameaçar a diversidade de metodologias e perspectivas que enriquecem o campo acadêmico.

Benefícios da IA em trabalhos acadêmicos



A inteligência artificial (IA) tem se mostrado uma ferramenta poderosa no campo acadêmico, contribuindo significativamente para a produção e o desenvolvimento de pesquisas. Entre os principais benefícios está a capacidade de processar grandes volumes de dados em tempo reduzido, o que facilita análises complexas e permite aos pesquisadores focar em interpretações críticas e na elaboração de hipóteses. Ferramentas de IA auxiliam na organização de referências, localização de fontes bibliográficas e até na análise textual, otimizando o tempo e ampliando o alcance das investigações.

Além disso, a IA tem democratizado o acesso ao conhecimento, permitindo que estudantes e acadêmicos de diferentes regiões possam usufruir de plataformas que traduzem, resumem ou explicam textos complexos em diversas línguas. Isso é especialmente útil para a integração em comunidades acadêmicas internacionais, onde a barreira linguística pode ser um obstáculo. A capacidade de personalização dessas ferramentas, que se adaptam às necessidades específicas de cada pesquisador, também fortalece sua aplicação em áreas diversas, desde ciências exatas até as ciências humanas.

Outro aspecto relevante é o suporte oferecido por sistemas de IA na redação de textos acadêmicos. Softwares de correção gramatical e ferramentas que sugerem melhorias estilísticas garantem maior clareza e precisão nos escritos, essencial para publicações em revistas de alto impacto. Além disso, algoritmos de IA são utilizados para detectar plágio, ajudando a manter a integridade acadêmica. Dessa forma, a IA não apenas contribui para a qualidade do trabalho, mas também auxilia na formação ética dos pesquisadores.

Por fim, a inteligência artificial também tem potencializado a interdisciplinaridade nos trabalhos acadêmicos. Com a habilidade de conectar dados e identificar padrões em diferentes áreas do conhecimento, ela possibilita o surgimento de novas abordagens e metodologias. Pesquisadores podem, por exemplo, utilizar análises de big data em estudos sociológicos ou aplicar algoritmos de aprendizado de máquina em pesquisas biológicas. Assim, a IA não apenas acelera os processos acadêmicos, mas também enriquece a produção científica, ampliando os horizontes da pesquisa.

Entre o movimento e a pausa

Nosso tempo encarnado é um breve instante diante da imensidão do mundo. Habitar um corpo é experimentar, a cada dia, a delicada consciência ...