sábado, 30 de abril de 2011

Da Série Contos Mínimos

Sentia-se como se tivesse trombado com uma manada de elefantes. Pernas, braços, tórax, cabeça: nada fazia sentido. Nada compunha um todo. Um homem aos pedaços.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Para Cris (texto)

Cris, dia desses nos falamos por aqui. O post era sobre música. Eu escrevia sobre as minhas impressões em relação ao mais recente CD da Adriana Calcanhotto. Naquele post eu disse que o CD havia me decepcionado, justamente porque, como gosto muita da Adriana (pareço até íntimo), esperava muito mais de um disco de samba, já que ela é uma compositora especial.
Vc me disse que fazia tempo que não se surpreendia com nada em relação à música. Lembra-se? Pois bem, hoje um aluno me indicou o CD da Mônica Salmaso - Alma Lírica Brasileira (clique aqui para ouvir). Olha, comprei pela net. mas enquanto não chega estou ouvindo pela UOL, sem parar, diga-se.
Ouça e depois me diga o que achou. O selo é Biscoito Fino, raramente produz algum CD/DVD que não seja muito bom. Tomara que, como eu, vc se surpreenda. Além da voz, dos arranjos, dos músicos que a acompanham, a seleção musical é impecável! De Carnavalzinho até Trem das onze, imperdível. A alma é mesmo brasileira da melhor espécie, do mais alto nível.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pra você guardei o amor (Nando Reis)

Que o Nando Reis é um grande letrista não é novidade para ninguém, pelo menos, pra quem já tenha escutado por exemplo All Star, Por onde andei, Luz dos olhos, Relicário, O segundo sol, Cegos do Castelo e tantas, tantas outras músicas, cantados por ele, ou eternizadas pela voz da Cássia Eller.
Dia desses, um amigo me mandou Pra você guardei o amor, e fiquei ouvindo sem parar, até que a música grudou como se tivesse sido parte da minha trilha sonora.
A letra é demais!! Interpretada por ele e por Ana Cañas, é uma declaração de amor. Confira:

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir


Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir


Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar


Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar


Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


Pra você guardei o amor
Que aprendi vem dos meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar


Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar


Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar


Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir


Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar


Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar


Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Da Série Contos Mínimos

Sabia, porque a gente sempre sabe, que nem tudo depende do desejo. Sabia tb que a responsabilidade não era de outra pessoa. Mas, às vezes, sentia uma vontadezinha de compartilhar. Um mesmo espelho sempre é pouco.

Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me (texto)

Ando nostálgico. Mas sei que a nostalgia talvez seja de algo que nem mesmo tenha existido. É possível que esteja apenas numa memória inventada. Uma saudade boa (e triste) de se ter.
Não é o desejo de voltar ao passado, propriamente dito, mas a vontade de se ter alguma coisa que não tenho, nem sei se tive, mas como não a(o) encontro aqui agora, me iludo com a possibilidade de encontrá-la(o) em outro lugar. Se não está aqui e se não a(o) vislumbro num futuro, só poderia achá-la(o) no passado. 
Não sei exatamente o que me faz sentir assim.
Hoje numa conversa com amigos no almoço, me dei conta de que o mês de abril está no fim e a impressão é a de que não fiz nada. Nem um passo. Primeiro, quando penso no que preciso fazer, depois, quando vejo que nem dei conta do que eu deveria ter feito. Estar longe desses pensamentos já seria bom. Mas, por hora, não dá.
Escrever já ajuda um pouco, enquando aperto as letras do teclado, penso um pouco sobre essa sensação. E pensar é, em parte, organizar para resolver.
Quando estou assim tenho vontade de estar com uma grande amiga do Rio, ela sempre tem alguma coisa para me dizer, para me confortar.
Na vitrola The Smiths dá vida à cena, ouço Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me, e seus primeiros versos Last night I dreamt/ That somebody loved me/ No hope, no harm/ Just another false alarm me chamam a atenção para todos esses últimos anos, talvez eu devesse modificar o pronome para a primeira pessoa, talvez fosse preciso repensar os últimos 11 anos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Círculos concêntricos das amizades (texto)

A fuga para as cidades, para as grandes cidades, não representa para os homossexuais somente a possibilidade de viver num certo anonimato. Trata-se, segundo Didier Eribon, de um verdadeiro corte na biografia dos indivíduos.
A cidade pequena é o lugar onde é difícil escapar do único espelho disponível, o que nos é apresentado pela vida familiar, pela escola, pelas instituições de uma forma geral. Nas cidades pequenas é muito difícil escapar dos modelos afetivos, culturais, sociais da heterossexualidade.
Quando refiro-me às pequenas cidade, refiro-me tb aos subúrbios em torno das capitais, por exemplo. Eles são uma espécie de cidades miniaturas onde vizinhos, familiares estão sempre de olho nos comportamentos. É muito comum a migração de gays para os grandes centros, partam eles de cidade menores ou de subúrbios que gravitam em torno de capitais.
Por isso é que a sociabilidade gay - ou lésbica - funda-se primeiramente, e antes de tudo, numa prática e numa "política" da amizade.
Estar com outros homossexuais permite ver a si mesmo. Permite partilhar e experimentar a própria existência, como escreveu Henning Bech.
As redes de amigos são uma das instituições mais importantes da vida homossexual. Só nesse quadro é possível desenvolver uma identidade mais concreta e mais positiva de si.
O círculo de amigos está no centro das vidas gays, e o percurso psicológico do homossexual marca uma evolução da solidão para a socialização em e pelos lugares de encontro.
Assim, o modo de vida homossexual está fundado nos círculos concêntricos das amizades ou na tentativa sempre recomeçada de criar tais redes e de estabelecer tais amizades.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A interpelação sexual e étnica (texto)

Quando nascemos o mundo já está pronto. A língua está pronta. Os sentidos que as palavras têm ou o peso que elas carregam tb estão dados antes mesmo de nascermos.
Os gays, por exemplo, vivem num mundo de ofensas. A linguagem os cercam. O mundo os insulta. As palavras do mundo político, médico,  jurídico atribuem a cada um deles e a toda coletividade um lugar de inferioridade na ordem social. 
Mas essa linguagem os precedeu: Esse mundo já está dado e se apodera deles antes mesmo de eles se reconhecerem como tal.
Tudo isso quer dizer, em outras palavras, que existimos não porque somos reconhecidos mas porque somos reconhecíveis.
Cada sujeito homossexual tem uma história particular, mas ela não está desvinculada desse coletivo que é constituído pelos outros sujeitos que são assujeitados pelo mesmo processo de inferiorização.  
O homossexual nunca é um indivíduo isolado, até quando se acha sozinho no mundo ou quando, depois de entender que não está, busca separar-se dos outros para escapar, precisamente, à dificuldade de se assumir como pertencente a esse conjunto estigmatizado, embora só a consciência reflexiva e crítica desse pertencimento possa permitir que ele se libere tanto quanto for possível fazer.
O coletivo existe independentemente da consciência que dele podem ter os indivíduos e independentemente da vontade destes.
Assim que entra num bar, assim que paquera num parque ou num lugar de encontros, assim que frequenta os lugares da sociabilidade gay, assim que abre um livro e se reconhece (e por isso mesmo que escolhe ler tal ou tal livro: senão, como explicar que os homossexuais leiam Proust, ou Genet, até quando não leem nunca literatura?), um gay se liga a todos aqueles que cumprem esses mesmos gestos, no presente, mas tb a todos aqueles que, no passado, criaram esses lugares, todos aqueles que os frequentaram antes dele, às tenacidades individuais e coletivas que os impuseram e os mantiveram contra a repressão, aos esforços e às coragens que foi preciso empregar para que existissem numa literatura e uma reflexão homossexuais.
Seja consciente ou não, aceita ou não, a subjetividade de um gay é imposta por um mundo e um passado que ele talvez ignore, mas que funda um pertencimento coletivo que a visibilidade contemporânea só fez manifestar à luz do dia.
Já há linguagem quando chego ao mundo. Já há papeis sociais que são designados por palavras, e principalmente por injúrias.
No caso dos negros não é diferente. Quando se trata da cor da pele, designa um estigma visível. É possível alguém esconder que é homossexual, mas esconder a cor da sua pele...
É possível, entre 10 e 15 anos de idade, alguém não saber que é - ou que será - homossexual, mas aos 10 anos, quem é negro sabe disso e, desde a infância, experimenta todos os dias o que isso significa em sociedade ocidentais, raramente isentas de todo o racismo.
No entanto, essa diferença não é absoluta, porque um jovem negro pode ignorar que é negro antes de ser confrontado com a violência do preconceito racial (em casa por exemplo, longe de experimentar seu ser para o outro).
Um jovem negro, por exemplo, tem todas as chances de viver numa família negra e, portanto, ser apoiado, na medida em que é vítima do racismo, ao passo que um jovem gay tem pouquíssimas chances de viver numa família gay ou lésbica, e o estigma ou a injúria que lhes são enviadas pelo mundo exterior atravessam igualmente o meio no qual vive.
O que engendra nos jovens gays um silêncio, uma prática da dissimulação e talvez produza traços psicológicos muito particulares pelos quais os homossexuais puderam ser definidos na literatura e no cinema (sorrateiros, mentirosos, traidores), que remetem, é claro, à percepção homófoba da homossexualidade, mas tb a certas realidades produzidas pela homofobia e a dissimulação de si que ela implica, e que seria absurdo querer negar. Em todo caso, as infâncias gays e lésbicas são fundamentalmente cheias de segredos, e isso não pode deixar de ter efeitos profundos e duráveis na personalidade deles.

A partir do texto de Didier Eribon - Reflexões sobre a questão gay.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A burca, o cuspe do ator e a morte da travesti em Campina Grande (texto)

O que a proibição do uso de véus em lugares públicos na França, a cusparada do ator Paulo Vilhena no rosto do repórte do CQC, Rafael Cortez, a morte de uma travesti em Capina Grande nos revelam?
Em princípio, todos esses fatos não teriam quaisquer vínculos, mas pensando melhor, eles têm sim uma relação.
Os franceses decretaram Lei proibindo o uso de dois tipos de véus mulçumanos: a burca e o niqab (que mostram apenas os olhos). Os argumentos são vários:  o Estado é laico, as pessoas são livres (ah, como assim?), o véu é uma forma de opressão, esconder o rosto pode significar esconder um terrorrista.
É verdade que as mulçumanas que são obrigadas por seus maridos a esconder os seus rostos estariam livres para mostrá-los. E as que querem usar a burca, as que não abrem mão de se vestirem assim? Obrigar a quem quer que seja se padronizar é um desrespeito, é violar os direitos.
Por detrás dessa lei, penso eu, há uma espécie de xenofobia. Quer usar a burca? Pois bem, volte, então, para o seu país! Ops, como assim seu país? Muitas são francesas.
Além disso, há uma espécie de superioridade racional dos franceses: vejam vocês como somos civilizados e respeitamos nossas mulheres. Se quiserem ficar na França, faça como os franceses.
Cuspir na cara do repórte, como fez o playboy e dublê de ator Paulo Vilhena diante de uma câmera ligada nos sinaliza uma forma de se colocar em um lugar que lhe permite fazer o que bem entende. Quem sou eu para lhe falar assim? Quem é vc para se dirigir a mim desse jeito? Não sabe com quem está falando? Pois bem, cuspir na cara é dizer ao outro quem ele é e como ele deve se comportar. Veja vc, reportezinho, sou um ator Global, me respeite ou...
Tb diante de câmeras, só que agora de trânsito, em Campina Grande, três homens esfaquearam uma travesti de 24 anos. Deram-lhe mais de 30 facadas. A vítima morreu no local.
Um dos assassinos justificou a morte por conta de um desacordo sobre o valor de um programa sexual com o travesti.
A vida da travesti valia para os assassinos o que vale um programa sexual. Para satisfazer os desejos sexuais dos meninos, ou do menino, porque não se sabe ao certo o que aconteceu, a travesti servia, mas ela não era, definitivamente, igual aos rapazes. Sua essência (e travesti tem essência?) era de outra natureza. A relação aí era desigual. Ela tb não sabia com quem estava lidando e nem o que poderia esperar. Quem manda se meter com gente (ops) de outras castas?

Quando "dois" é pouco (texto)

Dizem por aí que um é pouco, dois é bom e três, demais. É bem verdade que em algumas situações o ditado popular tá certo. Por exemplo, se uma relação a dois já é complicada, a três  se deve  acrescentar, pelo menos, um terço de complicação (uns poderiam dizer, mas se deve acrescentar tb, pelo menos, um terço de diversão etc.).
No entanto, quando não se tem uma margem, um a mais, em se tratando, por exemplo, de uma família,  se falta um, sobra apenas um. Aí  não é fácil segurar a barra sozinho.
Decidir sozinho, resolver com vc mesmo, fazer exatamente sem ouvir o outro, não ter uma segunda impressão, não ter outra opinião, não é das situações a mais confortável.
É bom ter uma margem de segurança, e margem aqui não é estepe, reserva, moletas, é ter segurança para, se pintar uma barra bem pesada, poder dividi-la.

Em torno de uma mesa (texto)

Já era para eu estar dormindo, ou, pelo menos, me praparando para isso. Hoje o dia foi puxado, além de Sobrados teve Mucambos. Não parei um minuto, mas nem posso reclamar. Muito bom, muito agradável meu final de noite. Acho que posso dizer mais, muito bom esse final de semana.
Fazia tempo que eu não tinha por aqui dias tão intensos. Algum tempo sem pessoas interessantes que me tirassem de um certo lugar de conforto, aquele de ficar sozinho ouvido a minha música, ou vendo o meu filme, ou escrevendo o meu texto, ou lendo qualquer coisa. Bom poder sair desse meu-mundo-igual-de-todo-fim-de-semana. Não é uma reclamação, de jeito nenhum!, não fico em casa por falta de opção, fico porquer gosto (fi-lo porque qui-lo).
De qualquer forma, aproveito para pensar um pouco no que ouço por aí, para haver diversão nem é preciso tanto malabarismo, mágicos, trapezistas, globo da morte, um pequeno comitê reunido em torno de uma mesa é suficiente.

sábado, 16 de abril de 2011

Vontade de rever amigos (Joyce)

Revendo amigos
Vontade de rever amigos
Os gestos de sempre, a risada em comum
Contando as histórias e os casos antigos
As músicas novas
Sem moda, sem tempo nenhum

Vontade de rever amigos
Dizer que estou solta na minha prisão
Gritar pras pessoas
Vem cá que eu tô viva
Me tira a tristeza de dentro
Do meu coração

Saber quem morreu
Perguntar quem chegou de viagem
Se foi porque quis
Explicar que o amor me pegou de mal jeito
Mas tudo somado acho que fui feliz

No entanto, cadê meus amigos
Vai ver que a poeira do tempo levou
A barra da vida tem muitos perigos
E a gente se afasta sem querer
Se esquece sem querer
Se perde dos velhos amigos

Se esquece e se perde dos velhos amigos.
 
Pra vocês: Teresa, Robson, Dias, Vera, Maga, Aline, Nanci, Renato, Gil, Patrícia, Íngridi, Luciana, Rômulo, Zequinha, Suzana, Márcia Crepaldi, Bárbara, Renato, Léo, Michael, Sandro, Zé, Mônica, Cátia, Aparecida, Rosana, Célia, Georges, Suley, Neném, Ana, Anselmo, Marina, João, Sebastian, Mauro, D. Teresa, Helô, Nika, Madelon, Serginho, Renato, Dórian, Binha, Tom, Rose, Tony, Glauco, Narda, Lu, Toninho, Paulo, Inês e tantos outros velhos amigos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Da Série Contos Mínimos

Espalhou fotografias por toda a casa para se encontrar, ou não se perder, na ausência do seu rosto.

Naftalina (texto)

Que tristeza quando vai chegando a época de retirar do sarcófago todos os casacos, edredons, cobertores, pijamas, meias, pantufas, gorros, luvas, cachecóis etc.
Ontem a noite foi fria. Estava eu deitado, depois de um dia daqueles (conversas, provas corrigidas, aula preparada), quando me dei conta de que o quarto já estava frio e nem era madrugada. Pensei algumas vezes antes de me levantar (eu estava podre) para pegar um edredon.
Achei até que pudesse ser demais. Mas já estamos no outono (estamos?!) e a possibilidade de esfriar sempre está presente.
Não me enganei. Fez frio. Fez um frio de verdade e eu estava agasalhado. Mas é claro que isso não é tudo, hoje acordei cedo, às 7h, para dar aula e ainda estava frio. Aí, realmente, não dá para ficar de bom humor. Quem pode achar bom acordar nessas condições: neblina, chuva fina, 2 casacos, luvas? Não dá, né?
Pois bem, a manhã foi desse jeito. A chuva parou não faz muito tempo. Relaxar porque vai piorar.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

O micróbio do samba - Adriana Calcanhotto (texto)

Como já dito no post abaixo, não sou do tipo que me apaixono de cara por um CD. Insisto um pouco. Insisto um pouco mais se tenho boas referências do cantor.
E tb não tenho mais idade para sair por aí dizendo que vale o que se vê de imediato. Definitivamente, não. Mas a impressão que tive do mais recente CD de Adriana Calcanhotto, O micróbio do samba, não foi das melhores.
Fiquei com a sensação de que ela tenta fazer (considerando sempre as condições de cada um dos artistas) um samba sofisticado como o de Paulinho da Viola, mas derrapa. Achei o CD pretensioso e sem qualidade.
Samba com guitarra é modernoso, mas... 
Nem mesmo as já conhecidas Beijo sem gravada por Teresa Cristina e Marisa Monte ou Vai saber? gravada por Marisa Monte funcionaram na voz da cantora. Fiquei desapontado, primeiro, porque, em geral, uma música sempre cola em mim quando se trata da gaúcha cantando e compondo, depois, porque nem uma letrinha, umazinha sequer, me surpreendeu.
Tomara que na insistência eu mude de opinião.

Marcelo Camelo (Texto)

Não sou do tipo que se apaixona de cara por um CD inteiro. Na verdade, sou do tipo que vai gostando um pouquinho hoje, outro amanhã, até gostar (ou não, como diria Caetano) da obra. Mas o novo CD do compositor, cantor, intrumentista Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos, é muito bom.
Desde o primeiro acorde até surgir a sua voz em A noite ou até finalizar o último som em Meu amor é teu, é tudo bom demais! Coloquei para tocar assim que cheguei ontem de viagem e não dá para parar de ouvir.
Destaque para Despedida. Por enquanto, minha favorita. Mas todas as outras são bem feitas, casando voz, letra e música. O encarte é um datelhe que conta (tb por isso não deixo de comprar CD) de forma positiva para o conjunto. Bom demais ter um artista dessa qualidade no mercado.

Que só quando eu cruzo a Ipiranga com a Avenida São João (texto)

Acabei de chegar de São Paulo, foram apenas 2 noites e 3 dias. Bem pouco para uma capital com tanto para fazer, muito para ver, quantidades de lugares para ir.
Fiz quase nada, diante de um mundo. A ida foi motivada pelo show do U2, que merece um post exclusivo. Fica pra depois. Mas, honestamente, fiquei mais feliz por estar em Sampa.
Primeiro porque participei da comemoração de 8 anos do casamento de amigos, e nessa festinha, pra poucos, me diverti muito. Éramos onze, com os anfitriões, ou seja, um pequeno comitê. Participei quase que por um acaso...de qualquer forma foi bom demais estar por lá. Ri muito, conversei bastante, me senti como se fosse velho amigo dos amigos dos amigos.
No sábado, depois de uma sexta-feira meio alcoólica, acordei relativamente tarde, mas o Conjunto Nacional eu não poderia perder. Fiquei boa parte da manhã em volta dos livros e CD´s. Pena não ter grana suficiente para comprar tudo que me fez suspirar. O saldo foi positivo, posso dizer assim.
Em seguida, almocei com um velho amigo (Cacau) e passamos a tarde juntos. Comemos num lugar delicioso, comida tailandesa. Todos os gostos, cheiros, sabores me impressionaram. Muito. Além disso, o papo foi divertido. Colocamos um pouco dos assuntos em dia. E daí para a Augusta e Frei Caneca foi um pulo. Menos até.
Mas não é exatamente isso que me encanta na mais capital das capitais, é alguma coisa que só se encontra por lá. Gente demais na rua sem que se tenha essa impressão, gente em toda a parte e em todos os lugares sem que isso seja alguma coisa para se achar fora do catálogo. E tb fazer parte disso sem que isso seja um tom acima do demais.
Meus amigos reclamam do cada um por si da cidade, eu tb reclamaria, com certeza, mas estava ali de passagem e isso, inclusive, me fazia bem. Mais um na multidão. Tudo é tanto, tanto é tão grande, muito é demais que dois olhos são poucos para ver o que se passa, quem passa, como se passa. Um ano é pouco pra São Paulo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Qual a máscara que vc mais usa? (texto)

Todos nós temos máscaras sociais, ou seja, a gente se traveste, às vezes de nós mesmos (isso acontece quando a gente vira uma autocaricatura), para dar conta de situações diversas. Fiquei agora pensando nessa minha máscara mais batida, velha de uso, empoeirada, mas que me salva em alguns momentos.
Acho, eu escrevi acho, que a minha máscara mais frequente é a de engraçado. Não sou engraçado, ou melhor, não quero ser divertido sempre. Bem ao contrário, sou silencioso, não gosto de muita falação, mas para sobreviver, não me afogar, não me jogar do terceiro andar e cair em mim, brinco. Faço piadas. Rio de mim mesmo.
Qual a máscara que vc mais usa?

sábado, 2 de abril de 2011

A bíblia como o único parâmetro para explicar o mundo (texto)

Nada contra quem carrega a bíblia embaixo dos braços e a cada fala cita um provébio, salmo ou alguma passagem para justificar os comportamentos humanos.
Nada contra quem acha que tudo é possessão. Uma dor de cabeça é um demônio que habita o corpo.
Nada contra quem acha que a miséria é uma provação. Que o sofrimento é o desejo de Deus.
Nada contra nenhuma religião. Nada contra pastores, padres, pastoras, papas, pais e mães de santo, entidades, santos, espíritos desencarnados, profetas.
Enfim, tenho por princípio: cada um é o que pode e o que se pode diz respeito apenas a cada um. Eu sou o que eu posso, não o que eu quero ser.
A partir disso, não posso admitir que se use um livro, seja ele qual for, como parâmetro único para explicar, justificar, impelir comportamentos.
Tô cansado, muito mesmo, de responder provocações que giram em torno da normalidade heterossexual em detrimento da anormalidade homossexual. Isso não me diz mais nada. Não tenho tempo para isso, meu trabalho me consome de tal forma que tenho selecionado, com muito critério, o que ler. Antes, quando da graduação, eu lia tudo, tudo me interessava.
Continuo me interessando por muitas coisas, mas cada vez menos por pessoas que se interessam apenas por verdade absoluta, única, de uma só mão
O site da ABGLT foi invadido nesta madrugada, dia 02, por ráqueres que por lá postaram textos. Um deles um enunciado sobre Bolsonaro (o tal deputado sexista, racista, homofóbico, burro) para a presidência da república. O que sozinho já seria o suficiente para me calar.
Não se pode esperar de um presidente comportamentos que desrespeitem a Constituição, por exemplo. Todos somos iguais perante a Lei e isso significa que Todos, sem exceção, temos os mesmos direitos. Ou teremos cidadãos de segunda classe. Não sou de classe alguma.
Como se pode esperar de um presidente declarações racistas, preconceituosas, homofóbicas, ou coisas parecidas?
O outro, um texto com base numa leitura bíblica de inteligência tão duvidosa que tb não merece comentário. Nenhum. Deus criou o homem e a mulher. Deus criou o sexo para procriação. Deus criou a boca para o beijo? Sexo anal só acontece entre dois homens? Todo sexo tem por objetivo se multiplicar? Cansei. Por que não: Nada acontece sem que seja vontade dEle?
Não sei muita coisa, ou melhor, sei quase nada, mas tenho a certeza apenas de que estamos perdendo o nosso tempo com brigas sem propósito, que não nos levam a lugar nenhum, mas que produzem sofrimento. 
Estranho, eu acho, falar em nome de deus para produzir sofrimento, separação, desigualdades, ódio, diferenças. Mais estranho ainda se achar no lugar de poder falar em nome dele. Mas como disse há algumas linhas, cada um acha o que pode e não o que quer.