Franz Kafka escreveu, em 1917, o conto Um relatório para a Academia. Nele, um macaco chamado Pedro Vermelho narra como, após ser capturado e trancado em uma jaula, percebeu que sua única saída era aprender a linguagem e os costumes humanos. Não se tratava de libertação, mas de sobrevivência: ou permanecia na jaula da sua animalidade, condenado à morte, ou aceitava a outra jaula — a subjetividade humana, repleta de regras, domesticação e artifícios.
Paul B. Preciado retoma essa metáfora e a desloca para pensar sua própria condição de homem trans e para questionar os limites da subjetividade que o mundo normativo impõe. Assim como Pedro Vermelho, Preciado não romantiza a passagem de uma prisão para outra. Reconhece que, ao adentrar a “normalidade” exigida — seja pela medicina, pela lei ou pela psicanálise —, não se conquista liberdade, apenas se troca de gaiola.
O que Preciado denuncia é a violência invisível dessa troca. O macaco de Kafka não escolhe tornar-se humano; faz isso porque é a única forma de escapar da morte. O sujeito trans, por sua vez, é frequentemente empurrado para modelos identitários pré-fabricados: ou se adequa às normas médicas e jurídicas para existir socialmente, ou permanece preso na jaula da marginalização. Em ambos os casos, a liberdade aparece como miragem: sempre há uma estrutura que delimita o possível.
Nesse movimento, Preciado fala a partir da sua “jaula escolhida e redesenhada”, lembrando que toda escolha é atravessada por condições históricas e políticas. Ele não reivindica uma saída definitiva, mas expõe a precariedade do espaço em que habita: um lugar de invenção, mas também de vigilância. A jaula pode ter sido reformada, ampliada, pintada de outras cores — ainda assim, continua sendo uma jaula.
A força dessa metáfora está em desestabilizar a ilusão da liberdade plena. Assim como o macaco vermelho, o sujeito contemporâneo vive entre grades que mudam de forma, mas não deixam de aprisionar. O gesto de Preciado não é o de lamentar, mas o de dar visibilidade a esse jogo de capturas e adaptações. O que parece emancipação pode ser apenas outro modo de confinamento, outra armadilha disfarçada de porta aberta.
Ao retomar Kafka, Preciado nos convida a pensar sobre nossas próprias jaulas. Quais são aquelas em que entramos para sobreviver? Quais redesenhamos para torná-las habitáveis? E até que ponto acreditamos ser livres quando apenas mudamos de cela? Talvez seja esse o desafio: aprender a reconhecer as grades sem nos deixar enganar pelas tintas novas com que tentam escondê-las.
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