O resultado das urnas de ontem exige que pensemos para além da contagem dos votos. O avanço da direita nas assembleias legislativas, na Câmara e no Senado, sua força nos governos estaduais e a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial compõem um quadro que merece atenção. A Presidência permanece em disputa, mas o fortalecimento desse campo político já está posto. Preocupa-me especialmente a adesão a uma direita que oferece agressividade como demonstração de competência, apresenta a construção de presídios como horizonte de governo e transforma a eliminação de pessoas numa promessa de segurança. Há uma autorização sendo concedida junto com o voto: a autorização para tratar determinados grupos como vidas descartáveis. Como essa promessa passa a ser reconhecida como proteção por pessoas que também dependem dos serviços públicos, dos direitos sociais e dos limites impostos à violência do Estado?
Minha vizinha, uma senhora religiosa, dona de casa e defensora da família, votou numa candidata de direita que se declara lésbica. Não conheço suficientemente as razões desse voto para explicá-lo, mas ele me faz pensar nos limites das classificações com que procuramos compreender os outros. A orientação sexual da candidata pode ter ocupado um lugar secundário diante de sua identificação com a autoridade, a punição, a religião ou o combate à esquerda. Pode também haver desconhecimento dessa informação ou uma aceitação que minha própria leitura da vizinha não previa. O voto, sozinho, não permite concluir. Ainda assim, esse episódio sugere que a defesa da família pode funcionar como uma senha de pertencimento político, capaz de reunir pessoas com vidas bastante diferentes. Uma candidata pode ser reconhecida como alguém do nosso lado pela maneira como nomeia os inimigos e promete enfrentá-los.
Algo semelhante merece ser considerado quando perguntamos por que trabalhadores votam em representantes que apoiam a retirada de seus direitos. A pergunta é necessária, embora se torne insuficiente quando pressupõe que a condição de trabalhador deveria produzir automaticamente uma escolha eleitoral. Quem trabalha também se reconhece como religioso, proprietário, pai, mãe, vítima de um assalto, pequeno comerciante ou alguém que teme perder o pouco que conquistou. Essas identificações participam do voto. Quem enfrenta um transporte precário e teme a violência na volta para casa pode atribuir maior urgência à promessa de proteção do que às consequências de uma mudança na legislação trabalhista. Isso ajuda a compreender a adesão, sem tornar benéfica uma política prejudicial. A promessa autoritária ganha força quando oferece ao sujeito uma posição valorizada: a de cidadão de bem que merece proteção e pode apontar quem estaria ameaçando sua vida.
É nessa distribuição de lugares que a expressão bandido bom é bandido morto precisa ser interrogada. Quem recebe o nome de bandido? Quem consegue escapar dele? Há investigações sobre desvios de emendas parlamentares que também apuram lavagem de dinheiro e organização criminosa. Investigações exigem apuração e não autorizam a condenação antecipada de pessoas ou de um campo político inteiro. Contudo, cabe perguntar por que a indignação punitiva pode ser tão intensa diante de um suspeito pobre e tão tolerante diante de suspeitas envolvendo figuras poderosas. A adesão política permite relativizar acusações contra aliados, atribuí-las à perseguição ou simplesmente afastá-las daquilo que importa na escolha eleitoral. A promessa de mão firme pode sobreviver às suspeitas que recaem sobre quem a oferece. O pertencimento ao grupo passa a decidir quais acusações merecem crédito e quais podem ser esquecidas.
A esquerda precisa enfrentar esse problema também pelo que oferece à vida cotidiana. Educação, direitos humanos e redução das desigualdades são indispensáveis, mas quem está com medo precisa reconhecer nessas propostas uma resposta concreta para sua segurança. Precisa poder sair de casa, trabalhar, abrir seu comércio e voltar vivo. Segurança pública exige prevenção, investigação, responsabilização, proteção das vítimas e enfrentamento das redes econômicas e políticas que sustentam o crime. Exige resultados e uma comunicação capaz de relacioná-los à experiência das pessoas. Quando os direitos humanos chegam ao debate apenas como uma expressão abstrata, abre-se espaço para apresentá-los como privilégio de criminosos, apagando o direito de todos à proteção. Tratar o eleitor como ignorante ou moralmente inferior aumenta essa distância. O desafio é compreender como o medo ganha uma direção política e oferecer proteção que as pessoas possam experimentar. Enquanto essa resposta parecer distante, haverá quem entregue seus direitos à promessa de que alguém, finalmente, colocará ordem na casa.