sábado, 26 de setembro de 2026

Autoria


Em uma redação de vestibular, a autoria não aparece apenas quando o candidato apresenta uma opinião original. Ela pode ser percebida no modo como lê a proposta, escolhe o que colocar em primeiro plano e estabelece relações entre as ideias. Dois candidatos podem defender a mesma posição diante de um tema e, ainda assim, escrever textos muito diferentes. Um repete argumentos previsíveis; o outro percebe uma contradição, faz uma pergunta pertinente ou examina um aspecto que parecia secundário.

Há, portanto, uma ampla palheta de critérios para pensar a autoria. O posicionamento crítico diante do tema é um deles, desde que vá além de uma declaração de concordância ou indignação. Também contam a escolha dos argumentos, a maneira de relacioná-los, o uso das referências, a organização dos parágrafos e até aquilo que o texto decide não desenvolver. Uma citação conhecida pode apenas enfeitar a redação; em outro texto, pode ajudar a construir uma reflexão. A diferença está no trabalho que o candidato realiza com o que leu e conhece.

A escolha das palavras também participa desse processo. Chamar um problema de desafio, crise, conflito ou injustiça produz sentidos distintos. Um adjetivo pode reforçar um julgamento apressado; um verbo pode atribuir responsabilidade a alguém ou deixá-la sem sujeito. Essas decisões nem sempre são conscientes, e autoria não significa controlar todos os sentidos do texto. Significa assumir, na escrita, uma posição que se torna perceptível nas escolhas feitas ao longo da redação.

É claro que o vestibular impõe limites: há um tema, um tempo determinado, exigências de gênero e critérios de avaliação. Justamente por isso, reconhecer a autoria exige olhar para o que o candidato faz dentro dessas condições. A redação de fórmulas prontas pode cumprir uma estrutura e obter uma nota, mas costuma deixar pouco espaço para uma voz própria. Quando o texto transforma uma questão proposta em um percurso de reflexão, podemos perceber ali alguém que escreve e se responsabiliza pelo que escreveu.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Alunos zumbis



Tenho observado, entre muitos jovens de dezoito a vinte e poucos anos, uma maneira inquietante de estar no mundo. Eles estudam, trabalham, convivem com outras pessoas e circulam por diferentes espaços, embora pareçam pouco afetados pelas responsabilidades envolvidas em cada situação. Esperam que alguém lhes informe o que fazer, recorde seus compromissos, resolva seus problemas e suporte as consequências de sua falta de iniciativa. A vida acontece ao redor deles, enquanto permanecem numa posição de espera, como se toda dificuldade devesse ser percebida e solucionada por outra pessoa.

Essa postura aparece em comportamentos aparentemente pequenos. Não respondem a uma mensagem, não confirmam uma presença, não avisam que deixarão de cumprir um compromisso e não percebem que alguém depende daquela informação para organizar o próprio tempo. Quando questionados, oferecem respostas vagas ou simplesmente permanecem em silêncio. Agem como se deixar de responder suspendesse a responsabilidade. O silêncio, contudo, não interrompe o problema. Ele apenas transfere para os outros o trabalho, a preocupação e as consequências daquilo que ficou sem resposta.

A dificuldade de ler com autonomia faz parte desse modo de viver. Muitos leem sem conseguir compreender uma orientação, localizar uma informação ou formular uma resposta precisa. Diante de qualquer obstáculo, procuram uma solução pronta antes mesmo de tentar enfrentá-lo. A inteligência artificial intensificou essa expectativa. Passaram a acreditar que uma ferramenta poderá ler, escrever, escolher e pensar em seu lugar. Podem até entregar um texto bem organizado, embora permaneçam incapazes de explicar o que apresentaram ou de assumir como próprio o trabalho realizado.

Chamá-los de alunos zumbis pode parecer excessivo, porém a expressão procura nomear essa presença sem envolvimento, esse caminhar pelo mundo sem se deixar alcançar pelas exigências da vida comum. Há sempre alguém acordando, lembrando, cobrando, orientando, corrigindo ou resolvendo. Talvez tenham sido excessivamente protegidos do erro, da frustração e das consequências de suas escolhas. Em algum momento, contudo, será preciso compreender que crescer envolve responder pelo que se faz e também pelo que se deixa de fazer. Nenhuma família, escola, professor ou inteligência artificial poderá assumir indefinidamente uma responsabilidade que cada pessoa precisa reconhecer como sua.

O medo também vota

O resultado das urnas de ontem exige que pensemos para além da contagem dos votos. O avanço da direita nas assembleias legislativas, na Câma...