sábado, 31 de julho de 2010

Amor sazonal (texto)

Às vezes reclamo demais da vida! Mais do que realmente devia. Fui privilegiado em vários sentidos, sobretudo no que diz respeito aos amigos. Hoje reencontrei, aqui nesse mundão virtual, uma grande figura que faz parte dessa sorte toda de tanta gente mundo afora.
Na verdade, fui encontrado, mas isso não desmerece, em nada, aquele privilégio dos grandes amigos. Dessas pessoas especiais que esbarrei, e continuo encontrando, nesses caminhos todos.
Fazia um tempão que não nos comunicávamos. Ele no Rio eu em Cascavel. E apenas um fio nos ligando. Até que num curto circuito faíscas acenderam, sabe-se lá porquê, as estradas e nos vimos.
Somos sazonais: às vezes próximos, às vezes distantes, mas o carinho que tenho por ele é constante, não tem tempo ruim e nem estação específica.
Sorte a minha, minha vida ter cruzado com a dele num momento.

Pé na estrada (texto)

Mal cheguei do recesso de julho e já estou com o pé na estrada. Uma viagem longe e, o pior, a trabalho. Saímos de Cascavel às 9h (em ponto) e chegamos a Wescenlau Brás às 17h30 (não me perguntem nada sobre a região, a população, o tamanho da cidade, porque não sei onde estou).
Para os meus companheiros de viagem, o trabalho já começou. O meu inicia hoje às 14 e vai até amanhã, quando pegamos a estrada mais uma vez para retornar a Cascavel.
Minhas pernas estão podres. 8h sentado num carro, ainda que confortável, não é a melhor posição para pernas que já não funcionam como antes (adoro um drama!)
Já que tenho a manhã "livre", aproveito para ler uma dissertação de mestrado, ou seja, otimizar o tempo, já otimizado, é essencial.
É isso. Que todos nós tenhamos um bom final de semana.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aderindo à campanha (texto)

Esquecido em uma casa de chá na Inglaterra, um ursinho de pelúcia ganhou uma página no Facebook para ajudá-lo a voltar para casa.
A página chamada "I'm lost. Help me find my family" ("Estou perdido. Ajude-me a encontrar minha família") foi criada pela dona do estabelecimento na cidade de Thorpeness, Liz Everett, e já ganhou o apoio de mais de 1,3 mil internautas.
No perfil, ela colocou fotos do bichinho, chamado de "Meare-Kat", na praia, passeando de barco e "tomando sorvete", entre situações. Na descrição, explicou que o brinquedo foi esquecido no domingo, dia18.
Na mensagem mais recente postada no mural, nesta quinta-feira (29), um agradecimento às pessoas que aderiram à campanha: "1000 pessoas. Não esperava por isso. Obrigado a todos. Mas, por favor, continuem divulgando e tenho certeza de que estarei em casa em breve".

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um dica (texto)

Comprei o CD Raconte-moi de Stacey Kent. Se fosse vinil já teria furado.

Chorei, chorei, até ficar com dó de mim (texto)

Voltei. O coração partido (não dá para não ser exagerado!) . Minha vontade era a de ficar pelo Rio. Foram ótimas as duas semanas. Não me conformo em ter que trabalhar.
Queria ter vindo de férias, mas não foi bem assim. Sabe que até arrisquei na mega-sena. Ah se eu ganhasse. rs.
Voltava apenas para me despedir dos alunos, dos amigos. Que meu reitor não me leia.
Enfim, férias encerradas. Agora é encarar o semestre.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Esperando ainda (texto)

Parece que chego em casa ainda hoje. Estou, faz alguns minutos, em Curitiba (faz frio) e a aeronave que fará o voo para Cascavel chega por aqui às 21h22. A previsão é chegar no interior às 22h45 (será?).
Já tentei seguir o conselho da Cris, olhei pro lado, tentei um sorriso, mas o cara (um único amigo em potencial) não foi muito receptivo, melhor continuar aqui escrevendo um pouco mais.
De qualquer forma, saber que posso chegar em casa, ainda hoje, me animou.

Espera (texto)

Continuo no aeroporto esperando para embarcar. Meu voo, cancelado ontem, sem menos nem mais, continua uma incognita. Já devia estar trabalhando, já devia estar organizando uma prova, um curso para quarta-feira, mas continuo sentado aqui numa sala de embarque lotada sem notícias.
Não sei de chuvas, não sei de ventos, não sei de nenhuma catástrofe que justifique tanta demora. Já tomei café da manhã, almocei, café da tarde no aeroporto. Espero apenas não jantar.
Já briguei tb em virtude da demora. Pelo jeito não adiantou. Já ri tb porque me sinto perseguido pelas empresas aéreas. Sempre, sem exageros, tenho problemas para chegar e voltar.

domingo, 25 de julho de 2010

Peixe - (Luís Capucho)

Eu vivo só mergulhado
O céu cai como um mar entre os edifícios
E eu ando na rua embaixo feito um peixe
Ouço sem pensar os ônibus passando
Os carros passando
Resolvo entrar num bar
Você olhou pra mim
Meu coração parou
Peço uma coca
Será o que você viu
Será o que você quer
Eu preciso de alguém
Eu preciso de alguém
Eu preciso de alguém assim como você
Alguém que olhe desse jeito
Desses que ficam junto no dia frio.

sábado, 24 de julho de 2010

A alma do artista (texto)

Acabo de chegar em casa de mais uma sessão (segunda) do documentário sobre os Dzi Croquettes (trupe intrépida da década de 70/80 que revolucionou o espetácula de dança no Brasil). Mas não é sobre o documentário que vou escrever.
É claro que se assisti duas vezes ele, no mínimo, me bateu de alguma forma inesperada. Saí dessa segunda sessão com vontade de voltar no tempo e viajar com a trupe.
O que quero escrever é sobre a alma do artista. Não sei se consigo traduzir esse sentimento em palavras. Sei perceber isso, mas talvez não consiga expressar-me como gostaria/deveria.
A alma do artista não pertence a tempo nenhum. Ela não pode ser explicada. Não tem rótulos. Essa alma está aberta a todas as novidades, sem exceção. Não existe limite nem censura: tudo é possível.
Ela nunca diz não, ou melhor, ela sempre está pronta pro novo. Seja ele o que for. A arte é um estado de espírito. E são poucos os que conseguem se despreender a ponto de permitir.
Conheço (e olha que conheço gente!) apenas duas pessoas com esse talento, com essa abertura pro novo, com a disposição para ver aquilo que ainda não se estabeleceu: a Valdeci e o Êmerson. Fiquei matutando durante algum tempo até chegar a esses nomes.
Impressionante (acabo de me dar conta): os dois são professores de literatura, mas não é isso que os define, nem isso suficiente para que as suas almas estejam abertas, escancaradas. Eles têm uma sensibilidade fora do comum para entender o desejo do outro. Corre sangue em suas veias e o mais interessante é o fascínio em relação as possibilidades que, às vezes, não estão claras nem mesmo para os envolvidos na situação. Eles se encantam com o novo. E são capazes de, nesse encantamento, entender o avant garde. Não há espaço, nessa alma, para o medo da concorrência, isso não existe porque o mais importante é a superação.
Eu precisarei reescrever isso algumas vezes, porque não consegui dar conta do que eu havia pensado.
Eu não tenho alma de artista, sou um censor. A alma do artista é livre e por sê-lo liberta.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

QUADRILHA DA DIVERSIDADE (paráfrase)

Márcio amava Sandro que amava Cacá que amava Marcelo que amava Juscelino que amava Jack que não amava ninguém.
Márcio foi para o cinema, Sandro para Jacarepaguá, Cacá resolveu estudar moda, Marcelo fotografia, Juscelino enlouqueceu, Jack casou-se com Fábio de Alencar que não estava na história.

QUADRILHA (Poesia - Drummond)

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.  João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

O mínimo para ser o máximo (texto)

Qual seria o mínimo necessário para se viver em harmonia? Fiquei pensando nisso hoje em virtude dos depoimentos dos amigos/familiares em torno na morte de Rafael Mascarenhas.
O respeito pelos outros passa por muitos lugares. Acredito que educação (nada a ver com escolarização) é a base pra tudo. Por exemplo, ao dirigir não se deve falar no celular (básico). A luz do pisca não é um acessório, mas o que indica entrar à direita ou à esquerda (evita acidentes).
Será que o mundo fica mais chato se as regras de educação forem respeitadas?
Furar fila é falta de educação (não importa se a fila termina a dois lugares depois); chegar atrasado tb é falta de educação.
Parar em lugar não permitido tb é falta de educação. Correr além do permitido tb é infração (legal e social). Respeitar o sinal verde/vermelho/amarelo tb é sinal de educação.
Falar ao mesmo tempo tb é sinal de ausência de educação (mas e se os humores estiverem alterados?). Não se controla tudo, é bem verdade.
Beber e dirigir é uma tremenda falta de educação. Automóvel é uma arma na mão de quem não é treinado.
Mas não é só isso. A forma como a gente é educado reflete a forma como os nossos filhos são educados (quase sempre isso é uma verdade).
Tem menino que queima índio e se explica dizendo que "achou que fosse um mendigo"; tem menino que bate em mulher e se justifica falando que "pensou que fosse uma prostituta"; tem menino que saí puxando criança pelas ruas e se justifica: "pensei que fosse um boneco de Judas". Tem gente que mata e afirma que foi por amor e por aí vai. O caminho é longo e a cada passo mais estranho, bizarro.
Andar de skate num túnel interditado é perigoso, mas não é crime como fazer pega. É errado, certo? Mas não é crime. Se policiais estivessem vigiando de alguma forma o túnel, duvido muito que os meninos estivessem lá, ou continuassem lá.
Acho que (nem sei se estou falando de um passado que existiu. É possível que não) olhar o outro como humano deixou de fazer parte da educação. Se é que algum dia isso já tenha sido feito.
A cidade não tem lei. A polícia não faz o serviço que devia fazer (sempre sem generalizar). Quem fiscaliza, não faz tb a sua parte. Quase tudo é medido pelo dinheiro que se ganha ou que se perde.
Mas é possível que exista um mínimo necessário para poder viver entre os outros. A questão é saber que mínimo é esse.

A copa de 2014, o Rio de Janeiro e um tanto de coisa pra fazer (texto)

Eu nunca estive num país que tivesse sediado uma Copa do mundo de futebol, durante o evento. Mas penso que o mínimo de organização em algumas áreas é fundamental caso a gente queira receber (muitos) visitantes.
A Copa de 2014 é no Brasil e reparando o Rio de Janeiro nesses últimos dias (quase duas semanas) tenho a impressão de que muito (muito mesmo) precisa ser feito.
A Lapa está uma confusão! Tem cinco mil bares, restaurantes, casas de samba, mas não tem calçada. Mesas e cadeiras tomam conta do espaço reservado ao pedestre (obs.: sexta e sábado, desde a semana passada, um trecho da Mén de Sá - dos Arcos até a Rua do Rezende - foi destinado ao pedestre das 22h às 5h). O movimento é intenso de segunda a sábado.
Um posto da prefeitura (choque de ordem) foi instalado na Mén de Sá (rua que liga o centro a zona norte) e pelo visto alguma coisa mudou (não vejo mais aquele bando de criança agindo nas redondezas: numa postagem de janeiro eu me indignei com os assaltos etc; os antigos flanelinhas tb sumiram). Por outro lado, a sujeira toma conta das ruas (precisamos de uma campanha de conscientização da população para não jogar NADA no chão): alguns bueiros (por aqui eles não explodem) lançam excrementos 24h por dia. Um nojo!!! Precisamos nos equilibrar ou correr risco de atropelamento para desviar de tanta sujeira (sem falar do mal cheiro).
Táxi no Rio é um perigo (sem querer generalizar)! Há uma tabela para corrigir o valor de alguns táxis que ainda não aferiram o taxímetro e um selo vermelho que indica os táxis que já o fizeram, no entanto, peguei um táxi com o selo de aferição, mas com uma tabela extra. Um confusão!
Existe, por aqui, preços diferenciados para os gringos: basta ir à praia, por exemplo, e confirmar. Tudo, ou quase tudo, é o dobro do preço se o cliente falar uma língua estrangeira ou se o seu "r" for "caipira" (é um termo técnico, antes que alguém me chame de preconceituoso).
Nos aeroportos não têm placas informativas, por exemplo, sobre ônibus. E aí os taxistas fazem a festa (mesmo os táxis de cooperativas)! O preço chega, do Galeão até o Centro, a R$70,00 reais (um táxi oficial). Um absurdo! E alguns no Santos Dumont (o aeroporto no Centro) escolhem os passageiros.
Sobre a infraestrutura, não é preciso escrever. Tudo estar por fazer. E acredito que esse quesito seja resolvido, mas o que diz respeito à educação e ao trato entre as pessoas ... esse sim já deveria iniciar.

Mistério da blogosfera (texto)

Abri meu e-mail pessoal e encontrei uma mensagem do site TOPBLOG: seu blog foi indicado para a edição 2010. Além disso, um selo para baixar e colar na página. Fiz. Tá aí ao lado (dos dois lados, diga-se).
Entrei no site e pouco descobri sobre essa indicação. Não sei a que categoria, já que não tenho uma específica (em se tratando de blog tb). E não me encontrei por lá.
Mistérios da blogosfera!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O luto (texto)

Não me atrevo a escrever sobre as dores de ninguém, sobre as dores do mundo, como disse Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. No entanto, ao falar da nossa dor, podemos, de certa forma, tangenciar a dor do outro e quem sabe, essa seria mesmo a intenção, ajudar um pouco.
Perder alguém não é fácil, seja lá como essa perda tenha acontecido: seja causa natural ou não. Seja um ente jovem ou mais velho, sadio ou doente, pouco importa. Perder sempre é, por mais que a gente compreenda que o sofrimento do amado(a) não seja pouco, dolorido demais.
Não temos respotas, ou, se temos algumas para essas nossas perdas, elas, às vezes, são insuficientes ou incapazes de aliviar essa dor. Podemos buscar respostas nas religiões, e acho que são lugares para se encontrar algum conforto.
Além disso, o tempo é sábio. Ele não mata a saudade, não diminui as distâncias, mas nos faz reorganizar sozinhos, quase sempre, aquele momento que nos parecia sem fim.
Queremos entender o porquê. Gostaríamos de ter explicações que nos aliviassem. Precisamos compreender o que aconteceu. Mas, de imediato, nada faz sentido. Temos muitas perguntas e quase nenhuma resposta.
Um dia, outro dia, a primeira semana, o primeiro mês, as noites mal dormidas, os pesadelos, os sonhos, o silêncio, a dor que se sente na alma, aquela vontade de um sinal. Tudo isso é passagem para aquele que perde alguém que ama.
Procurar ajuda profissional tb é importante, sobretudo para que a gente possa, aos poucos, nos ouvir e pensar sobre o que estamos fazendo aqui, nessa vida.
Os amigos tb são importantes. Os amigos sempre são importantes. O silêncio desses amigos, o abraço, a companhia, um olhar apenas faz muita diferença nesse momento.
O que acho importante, por mais que a gente tenha a sensação de precisar fazer, é não se isolar. Não me refiro a ficar sozinho, isso tb faz parte do luto. Mas o isolamento não é bom (é claro que estou legislando sobre mim).
Pode falar sobre a perda faz diferença. Acho que já escrevi aqui (neste e em outros posts) diversas vezes sobre essa necessidade. E ter fé (porque vivemos dela, mesmo que não sejamos religiosos) no outro dia, acreditar que se vai conseguir forças para refazer (no sentindo da tranquilidade) essa nossa história.

domingo, 18 de julho de 2010

O Medo de Ser (por Jefferson Lessa)

Li no O Globo e acho importante compartilhar, além disso, recebi o link de alguns amigos.

(Ilustração de Claudio Duarte)

Na semana em que a Argentina aprova o casamento gay, peço licença para relatar uma historinha banal. Moro num bairro aprazível e “tranquilo”, sonho de consumo de dez entre dez cariocas. Dos que não vivem lá, obviamente. “A grama do vizinho...”. Pois é. De um tempo para cá, por motivos que me são alheios, alguns playboys deram de gritar “veaaaaaado!!!”  quando me veem na rua. Outro dia, derrubaram minha pasta no chão. Numa noite anterior, rolou um inesperado banho de uísque com Redbull no casaco novo... Depois disso, a calçada ficou mais longa que uma maratona. Chegar à varanda torna-se uma decisão pesada, difícil de tomar. A pasta, o cheiro do uísque com Redbull... Difícil. Como vocês podem ver, trata-se de uma história de bullying, a palavra do momento. Seria só mais uma, não fosse o caso de atingir um certo cara no auge da meia-idade. Eu.
Nunca havia passado por isso antes. E não pretendia experimentar agora. Mas aconteceu — fazer o quê? Penso em várias “soluções”. A mais radical é mudar de bairro. Deixar para trás uma casa que adoro e que montei aos poucos, no ritmo que o salário aguado permitiu. Deixar para trás, também, um prédio no qual fiz amigos. É uma “solução” penosa e triste, creio. Faz com que eu me sinta covarde, pequeno, sujo, miserável. Sem falar no trampo, né? Mudança, segundo pesquisas, é uma das situações que mais geram estresse na vida. As outras são separação, morte... Mudança é um pouco separação e morte.
A outra “solução” é sugerida por amigos, que perguntam: Por que você não denuncia? Por que não procura a polícia?” Simplesmente porque não vivo dentro de um episódio de “Law & order: Special Victims Unit”, a genial série americana que ficcionaliza o cotidiano da unidade de elite da polícia novaiorquina especializada na investigação de crimes de natureza sexual. Se eu tivesse a certeza de que meu “caso” seria tratado pelos detetives Stabler e Benson, correria para a delegacia mais próxima. Na maior confiança. Como todos sabemos, não é bem o caso por aqui.
E também posso fazer o que estou fazendo neste instante: expor meu pequeno drama (que, convenhamos, não interessa a quase ninguém) nas páginas de um grande jornal como este O GLOBO. Vai ter gente se identificando, é claro. Vai ter gente criticando a superficialidade do texto (provavelmente, com razão: sou meio raso mesmo). Vai haver quem elogie a coragem do repórter, bem como quem o ache um rematado covarde. Sinceramente, leitor, sua opinião me importa. Mas pouco muda. Desculpe qualquer coisa, tá? É que na hora de voltar para casa, não vai ter detetive Benson nem Stabler, amigos, leitores ou páginas para segurar a barra. A mim, restará torcer, solo, para não encontrar os pequenos e medíocres algozes do dia a dia. Em encontrando, restará torcer para que não estejam muito bêbados ou alterados, pois isso conta — e muito — nessas horas.
O cotidiano pode se dividir entre poder ou não ser você mesmo na rua, no ônibus, no boteco... Mas convenhamos: isso ainda não é tão possível no balneário de São Sebastião. Somos toscos, mal educados, infantis e preconceituosos. Friendly my ass, isso sim. Ih, falei.
Eis a história — até agora. As cenas dos próximos capítulos? Não sei o que esperar desta trama triste. Mas sei o que não esperar no curto prazo: civilidade. E aqui me permito repetir uma obviedade: civilidade não se compra no supermercado ou na quitanda. Se constrói. Ao longo de muito tempo. E é aqui que penso numa notícia da última semana: a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina.
Não sei se a notícia foi realmente bem-vinda ou se mereceu um tratamento tão retumbante por ser muito surpreendente. Mas o fato de a Argentina ter se tornado o primeiro país da América Latina e do Caribe a aceitar o chamado casamento gay mereceu amplíssima cobertura da imprensa brasuca. Nas páginas e nas telas, parece algo de muito bom, apesar dos protestos dos usual suspects (Igreja católica, círculos conservadores, arautos da família etc). Ouso pensar que se a notícia tivesse vindo de outro país que não nosso arquirrival, teria sido ainda mais celebrada. É de bom tom na imprensa alardear correção política, mesmo quando o coração se inclina na direção oposta.
Fiel à rivalidade, não consigo parar de comparar, mentalmente, Brasil e o país hermano (que as piadinhas já transformaram em hermana). Mas quando digo país, leia-se cidade. É isso: não consigo parar de comparar mentalmente o Rio, onde sempre vivi, e Buenos Aires, ciudad que conheci ainda criança e à qual já voltei várias vezes. E acho que, no quesito friendly, BsAs ganha de longe, muito longe, do Rio.
Aqui, cabe esclarecer. Grandes questões como direito a adoção de crianças e a herança do(a) companheiro(a) são fundamentais, é óbvio. Palmas para os países que já garantiram tudo isso a seus gays, lésbicas, transgêneros, simpatizantes e quem mais chegar. Mas, em minha humílima opinião, é o dia a dia que conta. É do cotidiano que a vida é feita. Do dia de sol ou chuva, do ônibus que chega na hora ou não, que para ou não no ponto... Do chefe que te saúda ou não no trabalho, do colega que te dá uma força ou puxa o teu tapete, do amigo que te liga no momento certo. Da flanada prazerosa pela tua cidade, sem medo de pitboys e pitbulls. Ou não.
Aqui, volto à Argentina. Foi corajosa a aprovação do chamado casamento gay naquele país. Cheio de inveja, deixo meus parabéns. Não sou idiota a ponto de acreditar que uma lei acabe, magicamente, com pré-conceitos acumulados ao longo de séculos e cevados à base de ódio à diferença. Mas é um primeiro passo para uma rotina mais amena no futuro.
Quando é que vamos dar este passo? Hein?

* Texto publicado este domingo, 18 de julho, na seção LOGO/A Página Móvel,
que saiu na editoria RIO

Um e-mail de uma amiga (texto)

Alexandre,
Lendo o Inventário das sombras de José Castello, um livro em que ele tece perfis de alguns escritores, eis o que ele escreveu (e achei lindo) sobre Saramago:
Ao se debruçar sobre a infância, Saramago encontrou muitas passagens nebulosas, sucessão de verdadeiras armadilhas que começam com a história de seu nome. O sobrenome do pai era Sousa, e não SaramagoJosé de Sousa, ele se chamava. Mas em Azinhaga as famílias não eram conhecidas pelos sobrenomes de registro, e sim por alcunhas afetuosas. A família do escritor tinha a alcunha de Saramago, que é o nome de uma erva silvestre, de flores amarelas ou avermelhadas, bastante semelhante ao espinafre, que cresce pelos cantos, quase sempre esquecida. Quando ele nasceu, o pai se dirigiu a um cartório e, no balcão, limitou-se a dizer: “Vai se chamar José, como o pai!”. O empregado do registro civil, por sua conta e risco, acrescentou ao sobrenome verdadeiro, Sousa, o apelido de Saramago. Ele se tornou, então, José de Sousa Saramago, e o pai só descobriu o engano quando o menino já estava com sete anos de idade. Só em 1929, quando foi matricular o filho na escola primária e teve de apresentar a certidão de nascimento, o pai de Saramago se deu conta do engano, e se sentiu muito decepcionado porque não gostava nem um pouco da alcunha, que o fazia recordar sua origem camponesa e miserável.
Desde que se mudara para Lisboa, em 1924, o pai de Saramago não gostava que lhe recordassem os tempos duras da vida do campo. Vinha de uma família de pastores, que sobrevivia em condições muito adversas, guiando ovelhas e cabras. O pai se orgulhava porque em Lisboa o chamavam sempre de “Sr. Sousa”, nunca de “Sr. Saramago”, e essa substituição de tratamento parecia apagar o passado indesejável. Mas a certidão de nascimento do menino não fora aceita pela escola. O pai, então, não teve outra saída: viu-se obrigado a fazer um registro adicional em que atestava que ele, José de Sousa, era na verdade conhecido como José de Sousa Saramago. “Acho que sou o primeiro caso em que o filho dá o nome ao pai”, disse-me o escritor, tomado por um entusiasmo quase infantil. (Castello, pag. 225)
Beijos,
(...)

sábado, 17 de julho de 2010

Fora da ordem (texto)

Acebei de ler no G1 (portal da Globo) que a Polônia promoveu a sua primeira passeata gay e que ela provocou muitos protestos.
No portal aparecem fotos de integrantes dessa manifestação (aparentemente felizes)  e tb fotos dos contrários a ela (aparentemente revoltados).
Fiquei aqui pensando não num "dia em todos os homens concordem, mas em diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final..."
Como seria se assim o mundo fosse: não quero pra mim, não é a minha, mas se alguém quer e se aquilo não produz mal a ninguém, ou seja, se diz respieto as escolhas de cada um, eu respieto e pronto.
Por que é que preciso que o outro faça a minha escolha ou goste do que eu gosto? Quanta perda de tempo! Quanto tempo gasto em vão.
Por que é, pra uma grande maioria de pessoas, difícil conviver com o diferente? Com o que eu considero diferente?
Às vezes fico tão desanimado com essa mesmice. Me sinto dando murro em ponta de faca.
Orientação sexual diz respeito apenas a mim e a quem estou interessado. A vida sexual dos outros não me interessa e não deveria interessar a mais ninguém.
E o tempo passa...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Lei de união na Argentina (texto)

Los Hermanos adiante no reconhecimento dos direitos dos homossexuais!!! A Argentina torna-se o primeiro país Latino Americano (LA) a reconhecer a união entre pessoas do mesmo sexo e o décimo no mundo.
Depois de 14h de debates, segundo jornais locais, foram 33 votos favoráveis, 27 contrários e 3 abstenções.
Pra mim é motivo de comemoração, justamento porque considero um passo na luta pelos direitos civis, na luta pela igualdade entre os homens, pelo reconhecimento de que não existe cidadãos de segunda classe. Um passo tb na luta contra o preconceito. Sem falar que conto com a contaminação de outros países LA nesse reconhecimento.
É claro que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, visto que não há quaisquer lógicas em não reconhecer o direito em colocar o seu companheiro(a) como dependente no seu plano de saúde, dividir, como qualquer casal hétero, a declaração de imposto de renda, o direito à herança, divisão de bens e adoção.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Teatro Dos Vampiros - Renato Russo (música)

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos

Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...
Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego...
Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia

Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei

Não sou perfeito...
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...
Vamos sair!
Mas estamos sem dinheiro
Os meus amigos todos

Estão, procurando emprego...
Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tem saudade que não acaba nunca (texto)

Ontem fui visitar meu padrasto. Pensei que eu já estivesse pronto para voltar a casa deles. Quero dizer, pensei que essa outra volta, a segunda depois da morte da minha mãe fosse ser mais tranquila. E foi, na verdade.
No entanto, assim que cheguei, ele me mostrou as fotos de minha mãe que havia colocado na moldura. Não me segurei.
Foi como se tivesse, sem nunca ter me esquecido, revivido o nosso último encontro. Numa das fotos ela sorria. Aquele sorriso debochado de quem não se levava a sério. De quem não levava muito a sério quem a estava fotografando.
Tem saudade que não acaba nunca. Tem vazio que nunca se preenche. Tem olhos que nunca se secam. Tem dias...tem outros dias.
Mas vai ficando uma saudade outra, uma que ainda não sei o seu nome. Uma que às vezes bate numa lembrança engraçada dos nossos dias. Outra que me derruba. As intermitências da saudade.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Foi com medo de avião (texto)

Acabei de chegar no Rio. E dessa vez não foi fácil. Saí de Cascavel às 17h e cheguei às 18h em Curitiba. Até aí tudo tranquilo. Nenhuma surpresa além do bom serviço da TRIP.
Em Curitiba, fiquei até às 20h40 para embarcar para o Rio. Tb tudo dentro do esperando, do pago, do certo. No entanto a vinda para a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, foi barra pesada.
Antes disso: foi a primeira vez em toda a minha vida que chego no Rio à noite. E para a minha surpresa (segunda da noite, mas a primeira em cronologia), a cidade é dourado à noite. Lindo demais!
Quase para aterrisar, o comandante nos dá a seguinte notícia: "Em virtude do mal tempo que se abateu sobre a cidade, vamos para o Galeão." Já fiquei inquieto, primeiro, como assim mal tempo? Estou de recesso acadêmico. Tudo bem que não quero praia, estamos em julho, mas mal tempo já é demais! Depois, que história é essa de Galeão, paguei para descer no Santos Dumont (parêntese explicativo: o Galeão é o aeroporto internacional Tom Jobim, fica longe pra burro do Centro da Cidade.)
Em seguida, descubro o que o comandante quis dizer com mal tempo. Um vendaval assolou os ceús da cidade, quiçá da região, e não conseguíamos descer nem no Galeão. Diante do vento forte, eu já havia me conformado em pegar um táxi, gastar meu décimo terceiro, mas chegar vivo em casa.
O avião balançou, deu algumas voltas sobre Santa Teresa. Da terceira vez, apelei para Todos os Santos conhecidos. Só me lembrava de São Longuinho, mas eu ainda não havia perdido nada, mas estava a caminho; Santo Antônio, isso mesmo! São Pedro e São João, acho que por força do mês.
Eu via passar a pista do aeroporto algumas vezes e nada do avião descer. Me lembrei de Chico Xavier, quando numa forte turbulência fez o maior escândalo no avião e o seu mentor espiritual lhe disse para morrer com educação. Ele prontamente respondeu que nunca viu ninguém morrer educadamente. E continuou com o escândalo.
Não cheguei a esse ponto, mas tenho que dizer que estava morrendo de medo de morrer na escuridão sem saber aonde ia cair.
Depois de meia hora, finalmente descemos são e salvos.

domingo, 11 de julho de 2010

Pergunte ao Polvo (texto)

Sou do tipo que acredita sem acreditar muito. Ou melhor, sou como São Tomé, aquele que só vendo para crer. Em todo o caso, o Polvo acertou todas. E os fatos reclamam sentido (alguém me disse isso!). 
Não custa perguntar. Sem falar que a voz do polvo é a voz ... http://especiales.lainformacion.com/polvo-paul.

sábado, 10 de julho de 2010

Que horror! (texto)

Assino a Globo.com (G1) faz muito tempo. Acho que desde 2002 da última vez que voltei para o Rio. Desde então, mantenho este mesmo e-mail  pela praticidade (a de não ficar trocando toda hora de endereço).
Aí, cada vez que verifico a minha caixa de entrada, preciso, necessariamente, passar pelo portal G1. Ultimamente o seu assunto preferido é o caso Bruno (o ex-goleiro do Flamengo) supostamente envolvido na morte de uma mulher.
A cada entrada no site, encontro novidades. Cada uma delas mais sem sentido do que a outra. Da última vez, o portal nos informa sobre a camisa do time de futebol (pelada) do goleiro: "Com uniforme ‘amedrontador’, time de pelada de Bruno está parado".
Fiquei curioso (talvez seja mesmo isso que queira o site) e fui, preparado para me assustar, confirmar a tão temida camisa do uniforme do ex-goleiro: a imagem da morte não é nada além do que uma cópia da máscara do filme Pânico. Acho que não vou dormir mais!
Além dessa imagem de terror tem a legenda: "Só os fortem prevalecem. 100% é nóis". Que horror essa legenda!!! Uns três meses sem dormir.

De longe, vejo a cidade (texto)

Estou de férias. Na verdade, estamos em recesso acadêmico. De qualquer maneira, não entro em sala de aula por duas semanas. Bom pros alunos e pra mim tb. Um descanso, merecido, diga-se.
Um semestre inteiro me equilibrando. Viagens apenas fora dos dias letivos para não deixar a disciplina de pernas quebradas. 
Mas não é sobre aula, alunos, que quero escrever. Vou poder encontrar meus amigos. Alguns, pelo menos, já que viajo apenas uma semana. Caminhar no Aterro no final de semana, ir a Ipanema, ao CCBB, ao CCC, ao Carioca da Gema, ao cinema, à feira pertinho de casa, a Santa Teresa, a Paciência (acho que exagerei na programação. Acorde, Alexandre, uma semana apenas!).
Preciso tb resolver questões familiares pendentes. Morrer não é simples, como pode parecer. Não vejo a hora de estar chegando na Cidade...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O goleiro, o político, a polícia, a missionária, a menina assassinada (texto)

Bruno é jogador do Flamengo. Ele tem o maior salário da equipe, entre R$150 e R$200 mil reais por mês. Tudo indica que ele está envolvido na morte de uma mulher.
A imprensa está adorando tudo isso. Não há Jornal Nacional que não dê, em primeira mão, todas as últimas notícias do caso, mas não é sobre a imprensa que quero escrever.
Ah, enquanto eu escrevo, penso tb sobre todos os fatos.
O que será que faz com que um cara jovem como o Bruno, bem sucedido em sua profissão, com dinheiro, se envolva na morte de uma mulher, supostamente, a mãe de seu filho? Será que ele, e todos os outros envolvidos, contava com a impunidade? O goleiro achava que o crime não seria descoberto? Ou ainda que ele seria poupado mesmo depois da descoberta dos detalhes do episódio?
Acho que por muito tempo, por aqui, ter dinheiro/poder significava não responder por seus atos. Temos centenas de exemplos desse tipo. E isso produziu, de certa forma, um pensamento de que se pode tudo sem ser responsabilizado por nada.
Por exemplo, a procuradora espancava, humilhava uma criança diante dos seus funcionário e contava com a impunidade.
O fazendeiro que mandou matar a missionária Dorothy Stang tb contava com a impunidade. E tantos outros exemplos.
Não tenho respostas. Quem as têm? Tenho perguntas. Muitas perguntas e a sensação de indignação diante desse caso. Sei que tantos outros com personagens nem tanto conhecidos continuam ocorrendo enquanto escrevo este pequeno texto.
Preciso acreditar numa justiça, porque não acredito, definitivamente, na solução dos impasses pessoais de forma educada, racional, inteligente.




quarta-feira, 7 de julho de 2010

Blasé demais (texto)

Olha, vejam vocês (seja lá quem sejam vocês), pra mim não tem comportamento mais brochante do que alguém blasé. Tem gente que, não sei se um tipo, se uma incapacidade, ou se apenas não pode mesmo, por uma séria de motivos, se comover com determinados fatos, que comoveriam pelo menos a maioria das pessoas.
Refiro-me àquele que exprime completa indiferença pela novidade ou pelo que deve chocar etc.
Sabe quando vc está animadíssmo e conta o motivo dessa sua alegria (não me refiro a um desconhecido, pq os desconhecidos podem ter quaisquer comportamentos) e o outro, sabe-se lá porquê, responde: "legal"(?). 
Legal? Legal? Ah, vá para o ponte que partiu! Dê uma voltinha e veja se eu estou na esquina. E caso eu esteja, por favor, passe sem me cumprimentar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O crime de Lady Gaga - Marcia Tiburi analisa o pós-feminismo pop de Lady Gaga



Lady Gaga é o mais recente ídolo pop da cena internacional. Entenda-se por ídolo pop um indivíduo que encanta as massas com a habilidade artística de que é capaz sendo seu autor ou o mero representante de uma estética inventada por publicitários e estrategistas de produtos culturais. Nesse sentido, todo ídolo pop age como o flautista de Hamelin conduzindo por certo efeito de hipnose uma quantidade sempre impressionante de pessoas. Ele é também um guia estético e moral das massas. A propósito, entenda-se por massa um grupo de indivíduos que, ao se encontrar com outros, perde justamente a individualidade, tornando-se sujeito de sua própria dessubjetivação. Em outras palavras, ele é hipnotizado como se estranhamente desejasse sê-lo. A Indústria Cultural depende desse mecanismo, por meio do qual oferece ao indivíduo a oportunidade de se perder com a sensação de que está ganhando. O ídolo pop é a humana mercadoria que permite o gozo pelo logro que o espectador logrado aplica a si mesmo.
Lady Gaga certamente veio para nos lograr. Mas, como disse Walter Benjamin sobre livros (e também putas), muitas vezes a mercadoria vale muito mais do que o dinheirinho que pagamos por ela.

O paradoxal desejo das massas
Antes de mais nada, é preciso ver que Lady Gaga, a despeito da qualidade boa ou má de si mesma e do que ela produz, vem a nós com números impressionantes. Se na internet seus vídeos são vistos por milhões de pessoas (certamente, quando você ler este artigo, os números serão ainda maiores) é porque ela mesma sabe – ou o diretor e roteirista de seus belos videoclipes nos quais a quantidade aparece, seja na nota de dólar com o rosto de Gaga como no vídeo de “Paparazzi”, seja em “Bad Romance” nos índices na cena dos computadores – que se trata em sua obra da questão da quantidade, mais do que da qualidade. A Indústria Cultural sempre tem na quantidade uma questão mais importante do que a qualidade, mas, se Lady Gaga sabe disso e não o esconde, é porque elevou o cinismo a discurso, mas, ao mesmo tempo, lança-nos uma ironia capaz de fazer pensar.
A questão da quantidade adquire um contorno subjetivo na mentalidade dos indivíduos aniquilados no todo. Assim, uma característica expositiva da condição das massas de nosso tempo é o próprio “desejo de ser massa”. Trata-se da ânsia de adesão ao todo que se disfarça no desejo de saber o que todo mundo sabe, ver o que todo mundo vê. Complicado falar de desejo das massas, quando a “massa” remonta à possibilidade de se deixar moldar pela ação exterior justamente por ausência de desejo. Podemos, no entanto, entendê-lo usando uma imagem gasta como a da ovelha a participar do rebanho. Um modo de ter lugar desaparecendo mimeticamente no todo. Nesse sentido, o desejo de ser massa é o mesmo que nos coloca na situação de fazer parte da audiência fazendo com que liguemos a televisão no programa mais visto, que queiramos ver o filme com a maior bilheteria, que, caso cheguemos a desejar um livro, seja da lista dos mais vendidos. Fazer parte da audiência é a garantia de que em algum momento estaremos juntos, que faremos parte de uma comunidade mesmo que ela seja apenas “espectro”. A angústia da solidão, da separação e da própria individuação desaparece por um passe de mágica da imagem do ídolo pop.

Uma estética pop para o pós-feminismo?
A obra da jovem Lady Gaga não é objeto descartável como a maioria das mercadorias promovidas no contexto da indústria e do mercado cultural. Se nos detivermos em sua música, em sua dança ou em sua imagem isoladamente, não entenderemos o todo da mercadoria. Portanto, é preciso estar atento à performance que ela realiza. A apreciação disto que devemos hoje chamar de obra-produto ou produto-obra deve começar por aí, tendo em vista que, acima de tudo, Lady Gaga é uma performer que agrega em seus vídeos diversas formas artísticas que vão da música ao cinema, passando pela dança e chegando a uma relação curiosa com um aspecto inusitado da produção contemporânea nas artes visuais. Lady Gaga tange em seus vídeos mais famosos questões que estão presentes na obra de artistas contemporâneas que podemos chamar de vanguardistas por falta de expressão melhor, tais como Cindy Sherman, Daniela Edburg e Chantal Michel. No Brasil, Karine Alexandrino, Paola Rettore ou o pernambucano Bruno Vilella praticam a mesma suave ironia até o mais cáustico deboche com trabalhos sobre mulheres mortas.
O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.
No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.
A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.
Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.
Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.
O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.
Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer? (grifos meus).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Belo Horizonte por um carioca que mora no Paraná (texto)

Minha primeira vez em Belo Horizonte (BH). Não me encantei de cara com a cidade, como de costume. Acho que ir a trabalho faz toda a diferença. Cheguei quarta-feira à noite morto de tanto viajar. Meia hora embaixo do chuveiro, meia hora desfazendo a pequena mala. Uma saída estratégica para jantar.
Todos os restaurantes encontrados na intenet não estavam mais no lugar indicado. E a fome só aumentando.
O taxista, sugeriu um. Aceitei porque com fome não dá para encarar nada. Nem o sono. É claro que não me lembro o nome, mas foi uma super-sugestão. Era uma churrascaria com tempeiro mineiro, com atendimento mineiro (quero dizer, com toda atenção e um pouco mais).
Na quinta pela manhã, fui conhecer a cidade. Eu estava hospedado no Centro e ficou bem fácil andar pelas ruas desconhecidas. Aos pouco a ficha caiu: como um centro da cidade de uma capital de um grande estado como Minas pode ser tão limpa? Tenho como parâmetro o Centro do Rio e lá é uma tristeza!
O trânsito não é dos melhores e o mineiro não é calmo, como diz  a lenda. 
Eu estava bem próximo do Palácio das Artes e do Mercado Central. Aproveitei para sentir o clima no mercado. Gente de tudo o que é tipo, tudo o que se imagina à venda.
Dei umas cinco mil voltas pelos corredores, observando cada uma das mercadorias. Tem de tudo, pra todos os gostos. Não comprei (nada). Uma mala pequena cheia de casaco. E além disso, pouca grana já que estava bancando toda a viagem.
Almocei no Mercado. Comida mineira, é claro! E, é claro tb, que a melhor culinária brasileira (E tem culinária em outro estado? Uma amiga-carioca_mineira diria que não, só nas Minas Gerais têm doçaria, entrada e pratos. Concordo.)
Aí quase o resto do tempo foi trabalho e uma pequena parada para o jogo do Brasil X Holanda. Sem comentários.
Na sexta-feira à noite, depois da Casa dos Contos (restaurante maravilhoso) uma esticadíssima na noite da cidade: A Obra, Velvet e outra boate da qual não me recordo o nome. Sei dizer que foi uma viagem bem bacana. Cara, é verdade, mas produtiva. Além do meu Grupo de Trabalho na Anpoll ter sido bastante interessante.
Bom demais ter ido a BH. Vontade de me mudar mês que vem pra cidade. Vontade dá e passe, como dizem. A minha tb vai passar.

domingo, 4 de julho de 2010

Em trânsito (texto)

Ainda estou em trânsito. Agora em CWB. Chego em Foz por volta das 18h50 e de lá ainda vou para Cascavel. Ninguém merece isso. Nem mesmo o professor de Estudos Linguísticos I.
De qualquer forma, seja lá o que isso signifique, estou feliz por ter ido a BH. O congresso foi muito bom. Muito melhor do que eu imaginava ser. Gostei demais das apresentações. Gostei tb do texto que preparei para a minha linha de pesquisa.
O clima no GT de Análise do Discurso foi bom demais. É quase um grupo de trabalho único, com pessoas que estão ali para ouvir umas as outras, sem estrelismo, apesar de muitas estrelas no pedaço (no bom sentido, é claro!).
Desde de 2006 eu não participava da Anpoll porque sempre é muito longe (o que não é longe de Cascavel?) e por isso muito caro tb. E não há ajuda da instituição nem para uma ida ao banheiro. Há promessa, mas quem viaja através de promessas é santo ou beato.
Amanhã posto uma pequeno texto sobre BH, porque tem muita coisa para contar. Muita gente e muita risada danada de boa para relatar.
Bem, embarque sendo chamado. Preciso ir. Até amanhã.

sábado, 3 de julho de 2010

Recado para Vera (texto)

Vera, saudades de vc! Saudades sempre de vc. Estou em BH, e por falar em Belo Horizonte, preciso dizer que a cidade é 1000. A cidade é linda, limpa e muito interessante.
Mas não é exatamente sobre BH que quero lhe escrever. Ontem fui a um lugar chamado A OBRA (www.aobra.com.br) e enquanto eu observava as pessoas, por sinal lindas, e ouvia as músicas que tocava, fiquei pensando o quanto seria divertido estar ali com vc. Primeiro porque vc iria adorar o que rolava naquele lugar (a música  é boa demais), depois, as pessoas dançavam com vontade de se divertir.
Além disso, BH é uma cidade com pessoas/personagens. Sabe o que quero dizer? É que por aqui (ainda estou aqui, vou embora amanhã), acho que por conta do clima, pela distância do mar, as pessoas têm um estilo muito particular de se vestir. Elas não vestem a roupa, mas vestem-se de uma roupa.
Conheci tb pessoas interessantes. Através da Vanise, conheci a Cinara, através dela, dois amigos com os quais fiz um tour pela noite na cidade. Vc tb ia gostar disso.
Fomos a 4 boates. Cheguei no hotel às 4h e precisava estar na universidade bem cedo. Quase fui direto. Mas não me cansei porque, ainda que a noite tivesse sido pesada, foi divertido demais estar ali.
Fiquei tb lembrando das nossas noites divertidas aí no Rio. Quando saíamos para dançar, fosse no KuKunK, fosse no Boêmio, fosse no Lomas, sempre era bom! Mesmo se ficávamos preso no trânsito, na estação, mesmo se não fizéssemos nada, era divertido. Tempo bom.
Bom mesmo é quando nos reencontramos. Te amo muito mesmo.