quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Alunos zumbis



Tenho observado, entre muitos jovens de dezoito a vinte e poucos anos, uma maneira inquietante de estar no mundo. Eles estudam, trabalham, convivem com outras pessoas e circulam por diferentes espaços, embora pareçam pouco afetados pelas responsabilidades envolvidas em cada situação. Esperam que alguém lhes informe o que fazer, recorde seus compromissos, resolva seus problemas e suporte as consequências de sua falta de iniciativa. A vida acontece ao redor deles, enquanto permanecem numa posição de espera, como se toda dificuldade devesse ser percebida e solucionada por outra pessoa.

Essa postura aparece em comportamentos aparentemente pequenos. Não respondem a uma mensagem, não confirmam uma presença, não avisam que deixarão de cumprir um compromisso e não percebem que alguém depende daquela informação para organizar o próprio tempo. Quando questionados, oferecem respostas vagas ou simplesmente permanecem em silêncio. Agem como se deixar de responder suspendesse a responsabilidade. O silêncio, contudo, não interrompe o problema. Ele apenas transfere para os outros o trabalho, a preocupação e as consequências daquilo que ficou sem resposta.

A dificuldade de ler com autonomia faz parte desse modo de viver. Muitos leem sem conseguir compreender uma orientação, localizar uma informação ou formular uma resposta precisa. Diante de qualquer obstáculo, procuram uma solução pronta antes mesmo de tentar enfrentá-lo. A inteligência artificial intensificou essa expectativa. Passaram a acreditar que uma ferramenta poderá ler, escrever, escolher e pensar em seu lugar. Podem até entregar um texto bem organizado, embora permaneçam incapazes de explicar o que apresentaram ou de assumir como próprio o trabalho realizado.

Chamá-los de alunos zumbis pode parecer excessivo, porém a expressão procura nomear essa presença sem envolvimento, esse caminhar pelo mundo sem se deixar alcançar pelas exigências da vida comum. Há sempre alguém acordando, lembrando, cobrando, orientando, corrigindo ou resolvendo. Talvez tenham sido excessivamente protegidos do erro, da frustração e das consequências de suas escolhas. Em algum momento, contudo, será preciso compreender que crescer envolve responder pelo que se faz e também pelo que se deixa de fazer. Nenhuma família, escola, professor ou inteligência artificial poderá assumir indefinidamente uma responsabilidade que cada pessoa precisa reconhecer como sua.

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