sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

17 anos ...



No dia 24 deste mês, este blogue completa 17 anos de postagens. São 6.209 dias de escrita contínua, atravessada por tempos distintos, por leituras, inquietações, deslocamentos e insistências. O que começou como um espaço de expressão foi se tornando, ao longo dos anos, um lugar de pensamento, de elaboração e de partilha, marcado pela convivência entre textos diversos, temas múltiplos e modos distintos de dizer.

Ao longo desse percurso, a escrita permaneceu como exercício cotidiano de atenção ao mundo e à linguagem. Cada texto nasce de uma necessidade de dizer algo que pede forma, ritmo e escolha de palavras. Há textos breves e outros mais longos, alguns mais próximos da reflexão, outros do comentário, outros ainda do ensaio, mas todos partilham o mesmo compromisso com a palavra pensada, trabalhada e assumida.

Esses anos também são feitos de diálogo. Mesmo quando silencioso, o gesto de escrever supõe um outro, uma leitura possível, uma circulação que dá sentido à permanência do blogue. Comentários, mensagens, leituras ocasionais ou recorrentes compõem essa história e fazem com que o texto não permaneça isolado, mas em relação.

Celebrar 17 anos de postagens é afirmar a escrita como prática de continuidade e resistência ao apagamento. É reconhecer o tempo investido, as transformações do próprio autor e a permanência do desejo de escrever. Que os próximos textos sigam abrindo espaço para pensar, dizer e compartilhar, mantendo viva essa trajetória que já atravessa quase duas décadas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Para 2026: ser eu mesmo o maior tempo possível



Entrei em 2025 com a ideia de presença, de cuidado e de abertura. Queria viver um dia de cada vez, cuidar do corpo, reduzir excessos, aceitar convites, ouvir mais, irritar menos. O ano passou, e quase tudo seguiu por outros caminhos. A ansiedade voltou em muitos momentos, o corpo nem sempre veio junto, o trabalho pesou mais do que eu gostaria, a leveza ficou intermitente. O que escrevi em janeiro permaneceu ali como desejo, não como roteiro.

Pensar 2026 talvez passe por reconhecer isso sem correção imediata. O descompasso entre o que se deseja e o que se vive faz parte do modo como o tempo se impõe. As intenções de 2025 não foram inúteis por não terem se cumprido; elas marcaram um ponto de escuta, mesmo quando a vida seguiu em outra direção. Há algo de honesto em admitir que nem sempre se vive aquilo que se formula.

Talvez 2026 não precise começar com metas, mas com uma atenção mais modesta. Menos promessas feitas a mim mesmo e mais disponibilidade para perceber o que se apresenta. Em vez de presença como ideal, presença como tentativa. Em vez de equilíbrio como meta, equilíbrio como algo que oscila. O corpo, o trabalho, o dinheiro, os afetos seguem pedindo cuidado, mas sem a exigência de acerto.

Pensar o próximo ano pode ser menos um exercício de projeção e mais um gesto de continuidade. Seguir escrevendo quando der, vivendo como for possível, ajustando os ponteiros internos no meio do caminho, não no início. Talvez 2026 peça menos vontade de ser outro e mais disposição para seguir sendo, com pausas, recuos e pequenos avanços.

Para 2026, junto a tudo isso, fica um desejo mais simples e talvez mais difícil: ser eu mesmo o maior tempo possível. Não como afirmação grandiosa, mas como permanência discreta. Seguir sendo sem me dobrar tanto às expectativas alheias ou sem me dobrar às expectativas incorporadas ao longo desses anos de vidasem me afastar do que reconheço como meu modo de estar no mundo. Ser eu mesmo nos dias bons e nos dias opacos, nas conversas e nos silêncios, no trabalho e fora dele. Se houver uma meta, ela passa por aí: sustentar essa permanência quando der, aceitar quando não der, e continuar, ainda assim, no caminho.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Retrospectiva: um modo de seguir adiante



Este é o penúltimo texto deste ano. Escrevi no meu blogue em 2025 do mesmo modo como vivi o ano: por aproximações sucessivas, sem um plano definido e sem a intenção de construir um sentido geral. Cada texto nasceu de um impulso pontual, de algo que me atravessou naquele dia, naquela situação, naquele estado de espírito. O blogue acompanhou esse movimento como um espaço onde coube escrever quando escrever se impunha, sem a obrigação de dar unidade ao conjunto.

O que publiquei ao longo do ano forma um acúmulo de registros do cotidiano, de dispersões, de pensamentos breves que pediam passagem. Há textos mais leves, outros mais opacos, alguns atravessados por cansaço, outros por curiosidade, irritação e decepção. Nenhum deles pretende fechar algo. Cada um permanece ali como fragmento de um dia vivido e deixado para trás.

Escrevi sobre o que vi, sobre o que me incomodou, sobre o que me fez parar um pouco. Às vezes uma cidade, às vezes uma cena banal, às vezes uma sensação difícil de nomear. O blogue acolheu essas variações sem exigir coerência temática. Ele foi menos um projeto e mais um lugar onde eu pude deixar marcas do que passou por mim.

A política apareceu como aparece na vida comum: misturada ao cotidiano, às falas alheias, às imagens que circulam, ao desgaste que tudo isso produz. Os textos não buscaram explicação nem aprofundamento. Eles ficaram no registro do impacto, da fadiga, da observação seca de um tempo que pesa.

Quando olho para o que escrevi em 2025, reconheço ali um conjunto de textos que acompanha um ano vivido sem grandes viradas, mas cheio de pequenos movimentos. O blogue guardou esses restos, essas notas, esses instantes. Escrever foi, ao longo do ano, apenas isso: um modo de seguir adiante, deixando palavras pelo caminho.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma névoa entre mim e o mundo


As minhas vistas andam muito cansadas, e essa sensação tem se imposto no corpo de um jeito difícil de ignorar. Há dias em que os olhos parecem pedir descanso antes mesmo de o dia começar. Fica a impressão insistente de que há mato nesse coelho, algo que vai além de um cansaço passageiro e que exige atenção.

Há cerca de dois meses comecei a perceber a visão nublada, especialmente em ambientes muito claros. A luz intensa incomoda, embaralha os contornos, torna o gesto de olhar mais trabalhoso. Ler placas, acompanhar linhas de texto ou simplesmente manter os olhos abertos em certos espaços passou a exigir um esforço que antes não se fazia notar.

Tudo indica que esse estado tem relação direta com o uso prolongado de telas, com a leitura contínua e com a escrita em excesso. No ano passado, essas três atividades ocuparam grande parte dos meus dias e das minhas noites. O tempo diante do computador se acumulou, as pausas foram poucas, e o corpo, silencioso por um período, agora parece cobrar a conta. O uso de colírio tem amenizado um pouco essa sensação, oferecendo um alívio momentâneo, ainda que não resolva o problema de fundo.

Sem os óculos, o incômodo se torna ainda mais presente. Os olhos ficam secos, a visão turva, como se uma névoa persistente se interpusesse entre mim e o mundo. É um desconforto que não grita, mas insiste. Talvez seja o momento de escutar melhor esses sinais e aceitar que até o olhar, instrumento tão cotidiano, também precisa de cuidado.

Da Série: Contos Mínimos

Ele acordava todos os dias com a sensação de que algo lhe pesava no peito, como um objeto esquecido dentro do corpo. Sabia que não era dor, nem tristeza comum. Era uma narrativa inteira comprimida, pedindo passagem. Tentou silenciar aquilo com rotinas, compromissos, frases prontas. Nada bastava. A história insistia, batendo por dentro, exigindo palavras. Na noite em que finalmente escreveu a primeira linha, o peso não desapareceu. Transformou-se em outra coisa: um medo leve, quase feliz. O medo de deixar o mundo saber quem ele era.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma chatice que pesa mais do que qualquer sandália




Os tempos atuais no Brasil são atravessados por uma polarização que parece transformar qualquer gesto banal em campo de batalha simbólico. Uma propaganda de sandálias, algo que durante décadas ocupou o lugar do cotidiano leve e quase despretensioso, passa a ser lida como tomada de posição política. O episódio recente envolvendo a campanha das Havaianas, com Fernanda Torres sugerindo entrar em 2026 com os dois pés, mostra como a vida comum vem sendo capturada por uma lógica de confronto permanente.

Nesse cenário, expressões corriqueiras deixam de circular como brincadeira, humor ou ironia e passam a ser enquadradas como sinal de pertencimento a um lado ou a outro. A extrema-direita, sempre vigilante, mobiliza-se rapidamente para produzir ruído, indignação e sensação de ameaça. A esquerda, por sua vez, muitas vezes se vê compelida a responder, reforçando um clima de tensão contínua que esgota qualquer possibilidade de distensão.

O que se impõe, então, é uma atmosfera de cansaço coletivo. A política transborda seus espaços próprios e se infiltra em tudo, do comercial de televisão à conversa trivial. Esse excesso de leitura, essa busca incessante por mensagens ocultas, vai produzindo um cotidiano pesado, marcado mais pela vigilância do que pela convivência. A alegria, o humor e a ambiguidade vão sendo comprimidos até quase desaparecerem.

Talvez o incômodo maior esteja justamente aí: na dificuldade crescente de aceitar o banal, o simples, o ambíguo. Entrar com os dois pés em um ano futuro poderia ser apenas isso, uma imagem, um jogo de linguagem, um convite leve. Transformar esse gesto em escândalo diz menos sobre a propaganda e mais sobre um país que anda levando tudo a sério demais. E, convenhamos,  essa chatice já pesa mais do que qualquer sandália.
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domingo, 21 de dezembro de 2025

Revê-los é também reencontrar versões de mim





O sábado ganhou uma densidade rara ao reunir pessoas que atravessam a minha vida há décadas. Léo, Vera, Marina, Andréia, Ana, Aline, Denise, Barroso, Robson, Gil, Joá, Marcelo, Ricardo, Patrícia (1ª foto - na casa de Dona Raimunda, em Paciência) formaram um círculo de presenças que dispensa explicações. Em outro momento (segunda foto) do mesmo dia, encontrei Sueli, Neném, Mônica (amigos de longa data). Estar junto deles ativa uma memória viva, feita de reconhecimento imediato, de risos que retomam o fio do tempo como se ele jamais tivesse sido interrompido.

Alguns desses laços nasceram ainda na infância, nos corredores do ensino fundamental, quando o mundo parecia grande demais e, ao mesmo tempo, cabia inteiro em uma conversa no intervalo da aula. Outros vieram do bairro onde vivi por tantos anos, espaço de encontros cotidianos, de aprendizados silenciosos e de uma convivência que nos diz quem somos. Cada trajetória se cruzou com a minha de um modo próprio, e é essa singularidade que torna o grupo tão precioso.

O encontro foi atravessado por muito afeto e carinho, gestos que dizem mais do que longos discursos. Olhares cúmplices, lembranças partilhadas, histórias retomadas com detalhes que só fazem sentido para quem esteve lá. Há uma alegria particular em perceber que certas afinidades resistem ao tempo, às distâncias e às transformações da vida.

As histórias circularam com leveza, algumas antigas, outras atualizadas pelo presente, todas marcadas por experiências comuns e por diferenças acolhidas. Cada nome carrega um pedaço da minha própria história, e revê-los é também reencontrar versões de mim mesmo que seguem vivas nesse convívio. A memória, nesse espaço, deixa de ser arquivo e se torna presença.

Voltei para casa com a sensação de pertencimento renovada. Amigos da vida são isso: pessoas com quem o tempo não pesa, apenas acrescenta. Que encontros como o de sábado sigam acontecendo, alimentando esse laço feito de afinidade, cuidado e uma amizade que continua a dizer muito sobre quem sou.

The Golden Globe Goes To

O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Age...