sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Corações jovens


Corações Jovens, dirigido por Anthony Schatteman, inscreve a juventude como tempo de atravessamento silencioso e desloca expectativas fortemente sedimentadas sobre sexualidade e sofrimento. A aldeia flamenga onde a narrativa se desenrola comparece como materialidade que pesa sobre gestos, pausas e deslocamentos. O campo belga, com seu ritmo próprio e sua proximidade quase excessiva entre as pessoas, cria um espaço em que cada olhar ganha densidade e cada aproximação carrega riscos. Esse ambiente sustenta tensões sem precisar explicitá-las, confiando ao cotidiano a tarefa de produzir sentido.

Desde o início, o filme convoca uma memória social persistente: falar de sexualidade na infância e na adolescência costuma acionar discursos ligados à violência, à repressão e ao trauma, sobretudo no interior da família e da escola. O espectador é levado a antecipar esse caminho narrativo, esperando cenas de sofrimento ou punição. O impacto do filme nasce justamente dessa antecipação, que é mobilizada para, em seguida, ser deslocada. A narrativa recusa organizar a sexualidade juvenil a partir da violência como eixo central.

O encontro entre Elias, adolescente do interior, e Alexander, recém-chegado de Bruxelas, produz uma desorganização afetiva que atravessa também o grupo escolar e, de modo particular, a relação com Valerie, sua namorada até então. O incômodo de Valerie ultrapassa o ciúme e aponta para a dificuldade de lidar com o desejo quando ele passa a circular de forma imprevista, deslocando lugares e expectativas partilhadas. O filme acompanha esse deslocamento sem dramatizações excessivas, apostando na delicadeza dos gestos e nas hesitações.

O espaço escolar, frequentemente representado no cinema como palco de agressões explícitas, aparece aqui de forma rarefeita. Em vez de confrontos espetaculares, surgem silêncios constrangedores, olhares que pesam e pequenas inflexões no convívio cotidiano. A violência, quando se insinua, habita essas relações ordinárias, difíceis de nomear e justamente por isso persistentes. Ao mesmo tempo, o filme deixa entrever brechas de cuidado e reconhecimento, sem transformar esses gestos em exemplos edificantes.

Ao falar de corações jovens, o filme aponta para uma capacidade singular de ajuste. Apesar das pressões do entorno, dos medos e das perdas simbólicas que acompanham o primeiro amor, os personagens encontram modos de seguir adiante. Esse ajuste se dá na negociação cotidiana entre desejo, pertencimento e silêncio, sem promessas de estabilidade plena. Ao deslocar a sexualidade juvenil do campo exclusivo da violência, Corações Jovens reinscreve esse tema no campo da vida, do afeto e da possibilidade, afirmando uma delicadeza rara ao tratar da juventude como experiência atravessada por instabilidade e descoberta.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Das presenças que moldam a memória com afeto


                (Da esquerda à direita - tio Teófilo, meu avô Alberto, minha mãe, Heloísa, e eu, tio Carlinhos e tia Maria)


Há pessoas que atravessam a nossa infância e ficam para sempre. Meu tio Carlinhos foi uma dessas presenças que moldam a memória com afeto, riso e cuidado.

Ele era o homem divertido, gente boa, muito bonito, aquele que chegava trazendo blocos de papel para que eu pudesse desenhar e escrever. Pequenos gestos que, com o tempo, ganham um tamanho imenso. Durante um período da vida, ele, minha mãe — irmã dele — e eu moramos juntos. A casa era também esse espaço de convivência simples, de cumplicidade cotidiana, de aprendizados silenciosos.

Era ele quem me levava para cortar os cabelos. Às vezes dizia, meio em brincadeira, meio a sério, que era meu pai (para as moças desconhecidas). Minha mãe gostava demais dele. Eu também. Havia ali um laço forte, feito de cuidado, presença e afeto compartilhado.

Falei com ele pela última vez em outubro. A mensagem chegou do jeito que sempre foi: afetuosa, generosa. Ele me chamou de “amigo, amigão do peito”. Desejamos saúde um ao outro, falamos da vida (de lá e daqui), combinamos uma visita para janeiro. Essa visita ficou no tempo que não se cumpre. Ele se foi antes.

A tristeza é enorme. Uma dor funda, dessas que apertam o peito e silenciam o dia. Mas junto dela caminha uma alegria igualmente grande: a de ter convivido com ele por tanto tempo, de ter sido cuidado, acompanhado, amado e, sobretudo, de aprender o que é o amor da gente para o outro. Há perdas que doem justamente porque foram precedidas de muito amor.

Fica a saudade, que agora se soma à memória. Fica o riso fácil, a mão estendida, os blocos de papel, o caminho até a barbearia, o jeito de chamar que aquecia o coração. Fica, sobretudo, a gratidão por tudo o que foi vivido.

Algumas pessoas partem, mas continuam presentes. Meu tio Carlinhos é uma delas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Quando o remendo vira rotina



Há momentos em que a gente compra coisas que não precisa tanto assim. Um objeto, uma roupa, um jantar fora, algo que chega como promessa de alívio. Não se trata de excesso ou falha de caráter. Trata-se de um gesto comum, quase banal, de tentar se sentir um pouco melhor consigo mesmo. O consumo, nesses casos, encosta menos na utilidade e mais na sensação de valer alguma coisa naquele instante.

Quando o dinheiro entra em cena, ele carrega muito mais do que poder de compra. Ele traz junto sinais de pertencimento, de reconhecimento, de estar à altura do que o mundo parece exigir. Gastar, presentear-se ou exibir algo novo pode produzir uma sensação breve de acolhimento, como se o sujeito fosse visto, validado, incluído. O afeto não está no objeto, mas no que ele permite encenar socialmente.

Essa busca não acontece porque as pessoas são vazias ou fúteis. Ela aparece quando o valor de si anda abalado, quando algo falha no trabalho, nas relações ou na própria imagem. O consumo entra como um remendo provisório, uma tentativa de recompor o ânimo, de sustentar a própria dignidade diante de um cotidiano que cobra demais e oferece pouco retorno afetivo.

O problema começa quando esse remendo vira rotina e a sensação boa dura cada vez menos. O circuito se repete, o alívio encurta, e o gesto precisa ser refeito. Não há vilões nem heróis nesse movimento. Há sujeitos tentando se manter de pé em um mundo que traduz amor, sucesso e reconhecimento em cifras, vitrines e curtidas, deixando pouco espaço para outras formas de sustentar o próprio valor.

domingo, 7 de dezembro de 2025

O mundo sempre continua rodando



Há quem acorde todos os dias pronto para interpretar um personagem. De manhã, a versão profissional impecável; à tarde, o sujeito compreensível e educado; à noite, o ser sociável que sempre tem uma opinião leve e palatável. No fundo, é como se existisse um guarda-roupa infinito de identidades, cada qual escolhida de acordo com o clima, a companhia e o humor. O problema é que, depois de tanto trocar de figurino, pode parecer que falta alguém ali: justamente quem deveria estar no comando.

Bancar-se é outra conversa. É quando o sujeito decide que suas escolhas não precisam passar pelo crivo de uma plateia invisível. É quando percebe que o desejo não espera autorização externa para existir. É um gesto simples e, ao mesmo tempo, audacioso: não se trata de fazer o que der na telha, mas de não pedir desculpas por ser quem se é. Dá trabalho, claro. Sustentar os próprios quereres exige coragem para lidar com a surpresa alheia, o desconforto dos que queriam previsibilidade e, sobretudo, a própria insegurança. Ainda assim, é um alívio inesperado descobrir que o mundo continua girando.

Ao encarar essa empreitada, as máscaras sociais revelam seu caráter cansativo. Elas servem para agradar, para evitar perguntas indesejadas, para fingir convicções que não pertencem a quem as usa. E, mesmo assim, insistimos nelas como se fossem acessórios indispensáveis. É curioso: esconder-se cansa mais do que aparecer. Não há almofada mais dura do que uma vida vivida aos pedaços, sempre editada, sempre adaptada às expectativas de terceiros.

Assumir-se, portanto, não é um ato heroico reservado aos iluminados do autoconhecimento. É um aprendizado cotidiano de coerência interna, um exercício de escolha: seguir o fluxo alheio ou responder aos próprios movimentos. Há dias em que essa tarefa parece suave, quase natural; em outros, surge a tentação de entrar de novo no figurino confortável. A diferença é que, depois de experimentar a leveza de bancar-se, qualquer máscara parece apertada demais. Descobre-se, então, que viver sem disfarces não elimina dificuldades, mas permite algo que vale mais do que qualquer aplauso social: a tranquilidade de reconhecer-se em cada passo que se dá.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A integridade não se negocia



Há uma linha tênue entre o trabalho e aquilo que se vive fora dele, mas existe um princípio que sustenta qualquer atividade profissional: quem assume uma função responde por ela. Um pedido feito no horário de expediente convoca uma responsabilidade, seja responder, encaminhar, resolver ou, no mínimo, dar retorno. Silenciar, fingir ausência ou tratar demandas como algo voluntário enfraquece o sentido do próprio cargo e coloca em risco a confiança que sustenta o ambiente  de trabalho.

O vínculo pessoal pode até florescer entre colegas, mas essa é uma consequência, não um propósito. A convivência diária cria aproximações, afinidades e até cumplicidades, mas nada disso ocupa o lugar da tarefa que nos foi atribuída. A cobrança existe porque há uma posição ocupada. Ninguém está ali apenas porque é simpático, agradável ou querido. A presença se justifica pela capacidade de resposta àquilo que foi assumido institucionalmente.

Em ambientes profissionais, o gesto de tratar a amizade como porta de entrada para privilégios, tolerâncias ou desculpas desestabiliza as relações. Quando a cordialidade passa a valer mais do que a entrega, cria-se uma confusão perigosa entre afeto e responsabilidade. É reconfortante trabalhar com pessoas que admiramos, mas a prioridade recai sobre o trabalho realizado. Se houver afinidade, ótimo. Caso não exista, ainda assim a expectativa permanece: cumprir aquilo que cabe a cada um.

Um capítulo à parte é ocupado por aqueles sujeitos que se dedicam a bajulações. Esse tipo de presença se molda ao desejo do chefe, esvazia o pensamento e troca a reflexão por elogios permanentes. O objetivo não é contribuir, mas se manter protegido, garantindo benefícios financeiros e alguma sensação de importância emprestada. Esses personagens lembram constantemente que, no mundo profissional, há quem prefira o conforto submisso ao risco de pensar. Quem sustenta o próprio lugar, porém, sabe que a integridade nunca se negocia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Ele atravessou a vida como quem caminha sem abrigo



Gerson de Melo Machado atravessou a vida como quem caminha sem abrigo. Sua história, que poderia ter sido apenas a de um rapaz de 19 anos tentando encontrar algum lugar no mundo, se desdobra como um retrato de desamparo. Recebido pela rede pública ainda criança, circulando entre atendimentos, instituições e fugas, ele parecia sempre escapar das mãos que tentavam segurá-lo. Aos olhos de quem o acompanhou desde a infância, havia ali um menino que não teve chance de aprender a existir com alguma proteção mínima.

O domingo em que perdeu a vida no Parque Arruda Câmara expôs o ponto extremo dessa trajetória. O ato de escalar muros e ingressar no recinto da leoa, mais do que uma aventura inconsequente, parece ecoar uma luta silenciosa com limites que nunca lhe foram ofertados de modo consistente. A cena registrada por visitantes transformou-se rapidamente em notícia, mas antes disso havia um jovem atravessado por uma sucessão de ausências, diagnósticos, tentativas de cuidado e interrupções bruscas.

A morte de Gerson, provocada pela reação instintiva do animal, tornou-se um acontecimento que não se encerra no laudo pericial. O parque fechado, a prefeitura instaurando apurações e a leoa em estado de estresse compõem o cenário imediato, mas o que permanece é outra dimensão: a de um percurso marcado por fragilidades, abandonos e escolhas que nunca foram totalmente dele. É impossível olhar para a imagem daquele momento sem pensar nos caminhos que o empurraram até ali.

O que se inscreve agora em nossa memória é mais do que o ataque no zoológico. A história de Gerson convoca perguntas sobre o que se faz, enquanto sociedade, com pessoas que nascem e crescem fora de qualquer horizonte de cuidado contínuo. Sua morte deixa uma tristeza áspera, dessas que não se desfazem com o tempo, porque aponta para distâncias que se ampliam entre quem tem amparo e quem aprende a sobreviver sozinho. A vida desse rapaz, interrompida de maneira brutal, nos coloca diante de uma ausência que não pode ser naturalizada.

domingo, 30 de novembro de 2025

Da Série: Contos mínimos



O domingo parecia um lençol estendido no varal, cheio de dobras onde o tempo se escondia. Acordei tarde, tomei café encarando o lado de fora (de mim), já que olhar para dentro me cansava demais. O dia seguia seu curso e, quando percebi, ele já se despedia, levando consigo a impressão de que algo importante poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Ainda assim, guardei um certo alívio na ideia de haver dias que não cobram nada além de estar vivo.

Para 2026: ser eu mesmo o maior tempo possível

Entrei em 2025 com a ideia de presença , de cuidado e de abertura . Queria viver um dia de cada vez, cuidar do corpo, reduzir excessos, ace...