quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Retrospectiva: um modo de seguir adiante



Este é o penúltimo texto deste ano. Escrevi no meu blogue em 2025 do mesmo modo como vivi o ano: por aproximações sucessivas, sem um plano definido e sem a intenção de construir um sentido geral. Cada texto nasceu de um impulso pontual, de algo que me atravessou naquele dia, naquela situação, naquele estado de espírito. O blogue acompanhou esse movimento como um espaço onde coube escrever quando escrever se impunha, sem a obrigação de dar unidade ao conjunto.

O que publiquei ao longo do ano forma um acúmulo de registros do cotidiano, de dispersões, de pensamentos breves que pediam passagem. Há textos mais leves, outros mais opacos, alguns atravessados por cansaço, outros por curiosidade, irritação e decepção. Nenhum deles pretende fechar algo. Cada um permanece ali como fragmento de um dia vivido e deixado para trás.

Escrevi sobre o que vi, sobre o que me incomodou, sobre o que me fez parar um pouco. Às vezes uma cidade, às vezes uma cena banal, às vezes uma sensação difícil de nomear. O blogue acolheu essas variações sem exigir coerência temática. Ele foi menos um projeto e mais um lugar onde eu pude deixar marcas do que passou por mim.

A política apareceu como aparece na vida comum: misturada ao cotidiano, às falas alheias, às imagens que circulam, ao desgaste que tudo isso produz. Os textos não buscaram explicação nem aprofundamento. Eles ficaram no registro do impacto, da fadiga, da observação seca de um tempo que pesa.

Quando olho para o que escrevi em 2025, reconheço ali um conjunto de textos que acompanha um ano vivido sem grandes viradas, mas cheio de pequenos movimentos. O blogue guardou esses restos, essas notas, esses instantes. Escrever foi, ao longo do ano, apenas isso: um modo de seguir adiante, deixando palavras pelo caminho.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma névoa entre mim e o mundo


As minhas vistas andam muito cansadas, e essa sensação tem se imposto no corpo de um jeito difícil de ignorar. Há dias em que os olhos parecem pedir descanso antes mesmo de o dia começar. Fica a impressão insistente de que há mato nesse coelho, algo que vai além de um cansaço passageiro e que exige atenção.

Há cerca de dois meses comecei a perceber a visão nublada, especialmente em ambientes muito claros. A luz intensa incomoda, embaralha os contornos, torna o gesto de olhar mais trabalhoso. Ler placas, acompanhar linhas de texto ou simplesmente manter os olhos abertos em certos espaços passou a exigir um esforço que antes não se fazia notar.

Tudo indica que esse estado tem relação direta com o uso prolongado de telas, com a leitura contínua e com a escrita em excesso. No ano passado, essas três atividades ocuparam grande parte dos meus dias e das minhas noites. O tempo diante do computador se acumulou, as pausas foram poucas, e o corpo, silencioso por um período, agora parece cobrar a conta. O uso de colírio tem amenizado um pouco essa sensação, oferecendo um alívio momentâneo, ainda que não resolva o problema de fundo.

Sem os óculos, o incômodo se torna ainda mais presente. Os olhos ficam secos, a visão turva, como se uma névoa persistente se interpusesse entre mim e o mundo. É um desconforto que não grita, mas insiste. Talvez seja o momento de escutar melhor esses sinais e aceitar que até o olhar, instrumento tão cotidiano, também precisa de cuidado.

Da Série: Contos Mínimos

Ele acordava todos os dias com a sensação de que algo lhe pesava no peito, como um objeto esquecido dentro do corpo. Sabia que não era dor, nem tristeza comum. Era uma narrativa inteira comprimida, pedindo passagem. Tentou silenciar aquilo com rotinas, compromissos, frases prontas. Nada bastava. A história insistia, batendo por dentro, exigindo palavras. Na noite em que finalmente escreveu a primeira linha, o peso não desapareceu. Transformou-se em outra coisa: um medo leve, quase feliz. O medo de deixar o mundo saber quem ele era.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma chatice que pesa mais do que qualquer sandália




Os tempos atuais no Brasil são atravessados por uma polarização que parece transformar qualquer gesto banal em campo de batalha simbólico. Uma propaganda de sandálias, algo que durante décadas ocupou o lugar do cotidiano leve e quase despretensioso, passa a ser lida como tomada de posição política. O episódio recente envolvendo a campanha das Havaianas, com Fernanda Torres sugerindo entrar em 2026 com os dois pés, mostra como a vida comum vem sendo capturada por uma lógica de confronto permanente.

Nesse cenário, expressões corriqueiras deixam de circular como brincadeira, humor ou ironia e passam a ser enquadradas como sinal de pertencimento a um lado ou a outro. A extrema-direita, sempre vigilante, mobiliza-se rapidamente para produzir ruído, indignação e sensação de ameaça. A esquerda, por sua vez, muitas vezes se vê compelida a responder, reforçando um clima de tensão contínua que esgota qualquer possibilidade de distensão.

O que se impõe, então, é uma atmosfera de cansaço coletivo. A política transborda seus espaços próprios e se infiltra em tudo, do comercial de televisão à conversa trivial. Esse excesso de leitura, essa busca incessante por mensagens ocultas, vai produzindo um cotidiano pesado, marcado mais pela vigilância do que pela convivência. A alegria, o humor e a ambiguidade vão sendo comprimidos até quase desaparecerem.

Talvez o incômodo maior esteja justamente aí: na dificuldade crescente de aceitar o banal, o simples, o ambíguo. Entrar com os dois pés em um ano futuro poderia ser apenas isso, uma imagem, um jogo de linguagem, um convite leve. Transformar esse gesto em escândalo diz menos sobre a propaganda e mais sobre um país que anda levando tudo a sério demais. E, convenhamos,  essa chatice já pesa mais do que qualquer sandália.
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domingo, 21 de dezembro de 2025

Revê-los é também reencontrar versões de mim





O sábado ganhou uma densidade rara ao reunir pessoas que atravessam a minha vida há décadas. Léo, Vera, Marina, Andréia, Ana, Aline, Denise, Barroso, Robson, Gil, Joá, Marcelo, Ricardo, Patrícia (1ª foto - na casa de Dona Raimunda, em Paciência) formaram um círculo de presenças que dispensa explicações. Em outro momento (segunda foto) do mesmo dia, encontrei Sueli, Neném, Mônica (amigos de longa data). Estar junto deles ativa uma memória viva, feita de reconhecimento imediato, de risos que retomam o fio do tempo como se ele jamais tivesse sido interrompido.

Alguns desses laços nasceram ainda na infância, nos corredores do ensino fundamental, quando o mundo parecia grande demais e, ao mesmo tempo, cabia inteiro em uma conversa no intervalo da aula. Outros vieram do bairro onde vivi por tantos anos, espaço de encontros cotidianos, de aprendizados silenciosos e de uma convivência que nos diz quem somos. Cada trajetória se cruzou com a minha de um modo próprio, e é essa singularidade que torna o grupo tão precioso.

O encontro foi atravessado por muito afeto e carinho, gestos que dizem mais do que longos discursos. Olhares cúmplices, lembranças partilhadas, histórias retomadas com detalhes que só fazem sentido para quem esteve lá. Há uma alegria particular em perceber que certas afinidades resistem ao tempo, às distâncias e às transformações da vida.

As histórias circularam com leveza, algumas antigas, outras atualizadas pelo presente, todas marcadas por experiências comuns e por diferenças acolhidas. Cada nome carrega um pedaço da minha própria história, e revê-los é também reencontrar versões de mim mesmo que seguem vivas nesse convívio. A memória, nesse espaço, deixa de ser arquivo e se torna presença.

Voltei para casa com a sensação de pertencimento renovada. Amigos da vida são isso: pessoas com quem o tempo não pesa, apenas acrescenta. Que encontros como o de sábado sigam acontecendo, alimentando esse laço feito de afinidade, cuidado e uma amizade que continua a dizer muito sobre quem sou.

sábado, 20 de dezembro de 2025

O dinheiro público no escuro





As emendas parlamentares sem rastreamento expõem uma das faces mais graves da apropriação privada do dinheiro público no Brasil. Verbas que pertencem à sociedade circulam sem transparência, sem critérios verificáveis e sem qualquer possibilidade efetiva de acompanhamento pela população. O orçamento, que deveria expressar escolhas coletivas e prioridades sociais, passa a ser manejado em zonas de sombra, onde o interesse público perde lugar para arranjos políticos fechados.

Esse modo de destinação de recursos afronta princípios elementares da vida democrática. A gestão do dinheiro público exige publicidade, responsabilidade e controle social permanente. Quando parlamentares defendem ou naturalizam mecanismos que ocultam quem indica, quem recebe e como as verbas são utilizadas, instaura-se um regime de opacidade deliberada. A ausência de rastreamento não representa falha técnica, mas escolha política que fragiliza a própria noção de Estado comprometido com a sociedade.

Causa indignação a desenvoltura com que alguns políticos lidam com essa prática. Há um cinismo escancarado no discurso que tenta justificar a falta de transparência em nome de suposta eficiência ou rapidez. Isso encobre interesses particulares, barganhas silenciosas e usos do orçamento que jamais suportariam escrutínio público. O dinheiro coletivo passa a ser tratado como instrumento de poder pessoal, administrado longe do olhar de quem o financia.

A questão ultrapassa o campo contábil e alcança o coração da democracia. Sem rastreamento e controle, rompe-se o vínculo entre representantes e população, e consolida-se a percepção de que o Estado serve a poucos. Exigir transparência nas emendas significa defender o direito da sociedade de saber, acompanhar e cobrar. Qualquer país que se pretenda democrático precisa tratar o dinheiro público com luz, responsabilidade e respeito — tudo aquilo que essas emendas insistem em negar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Corações jovens


Corações Jovens, dirigido por Anthony Schatteman, inscreve a juventude como tempo de atravessamento silencioso e desloca expectativas fortemente sedimentadas sobre sexualidade e sofrimento. A aldeia flamenga onde a narrativa se desenrola comparece como materialidade que pesa sobre gestos, pausas e deslocamentos. O campo belga, com seu ritmo próprio e sua proximidade quase excessiva entre as pessoas, cria um espaço em que cada olhar ganha densidade e cada aproximação carrega riscos. Esse ambiente sustenta tensões sem precisar explicitá-las, confiando ao cotidiano a tarefa de produzir sentido.

Desde o início, o filme convoca uma memória social persistente: falar de sexualidade na infância e na adolescência costuma acionar discursos ligados à violência, à repressão e ao trauma, sobretudo no interior da família e da escola. O espectador é levado a antecipar esse caminho narrativo, esperando cenas de sofrimento ou punição. O impacto do filme nasce justamente dessa antecipação, que é mobilizada para, em seguida, ser deslocada. A narrativa recusa organizar a sexualidade juvenil a partir da violência como eixo central.

O encontro entre Elias, adolescente do interior, e Alexander, recém-chegado de Bruxelas, produz uma desorganização afetiva que atravessa também o grupo escolar e, de modo particular, a relação com Valerie, sua namorada até então. O incômodo de Valerie ultrapassa o ciúme e aponta para a dificuldade de lidar com o desejo quando ele passa a circular de forma imprevista, deslocando lugares e expectativas partilhadas. O filme acompanha esse deslocamento sem dramatizações excessivas, apostando na delicadeza dos gestos e nas hesitações.

O espaço escolar, frequentemente representado no cinema como palco de agressões explícitas, aparece aqui de forma rarefeita. Em vez de confrontos espetaculares, surgem silêncios constrangedores, olhares que pesam e pequenas inflexões no convívio cotidiano. A violência, quando se insinua, habita essas relações ordinárias, difíceis de nomear e justamente por isso persistentes. Ao mesmo tempo, o filme deixa entrever brechas de cuidado e reconhecimento, sem transformar esses gestos em exemplos edificantes.

Ao falar de corações jovens, o filme aponta para uma capacidade singular de ajuste. Apesar das pressões do entorno, dos medos e das perdas simbólicas que acompanham o primeiro amor, os personagens encontram modos de seguir adiante. Esse ajuste se dá na negociação cotidiana entre desejo, pertencimento e silêncio, sem promessas de estabilidade plena. Ao deslocar a sexualidade juvenil do campo exclusivo da violência, Corações Jovens reinscreve esse tema no campo da vida, do afeto e da possibilidade, afirmando uma delicadeza rara ao tratar da juventude como experiência atravessada por instabilidade e descoberta.

The Golden Globe Goes To

O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Age...