terça-feira, 12 de agosto de 2025

O compromisso com os direitos humanos tem fronteiras definidas pela conveniência



Prometo que será a última vez que me refiro ao Donald Duck Trump. O presidente dos Estados Unidos fez questão de se manifestar publicamente sobre a denúncia de violações de direitos humanos no Brasil. Foi rápido, enfático, com palavras que, na superfície, soam como defesa intransigente dos princípios democráticos e da dignidade humana. Ao se pronunciar dessa forma, colocou o país no centro da vitrine internacional, reforçando a imagem de guardião global dos direitos que os EUA gostam de dizer que representam. Mas, como quase sempre acontece na política, o que é dito tem tanto peso quanto aquilo que fica de fora.

Porque, quando se olha para outros cenários, o mesmo presidente mantém um silêncio eloquente. Israel, por exemplo, segue sob críticas de organizações internacionais por ações que, para muitos, configuram violações massivas de direitos humanos. Mas, nesse caso, as palavras de condenação não atravessam o Atlântico. Ao contrário, as declarações oficiais tendem a reforçar alianças históricas, evitando confrontos que possam afetar interesses estratégicos.

O mesmo acontece com El Salvador. Sob um governo que adota políticas de encarceramento em massa e restringe liberdades civis em nome da segurança, a Casa Branca prefere o tom neutro, quando não opta pelo elogio discreto ao combate ao crime. Não há a mesma urgência em apontar violações, nem a mesma pressão pública para a correção de rumos. É como se o compromisso com os direitos humanos tivesse fronteiras definidas pela conveniência geopolítica.

E, curiosamente, essa lógica seletiva se repete dentro das próprias fronteiras dos EUA. Questões como o tratamento dado a imigrantes — muitos detidos em condições precárias, separados de suas famílias ou deportados sem garantias processuais — raramente ganham o mesmo tom inflamado que se aplica a violações fora do país. O mesmo vale para as minorias de gênero e sexualidade, que enfrentam retrocessos legislativos, ataques à liberdade de expressão e violência motivada por ódio, enquanto o governo mantém um discurso genérico de apoio, sem enfrentar de forma decisiva as raízes estruturais dessa exclusão.

Essa assimetria nos mostra que, no palco internacional e doméstico, as falas presidenciais são gestos calculados. Criticar o Brasil pode ter um custo baixo nas alianças e ainda render dividendos políticos internos e externos. Já confrontar Israel, El Salvador ou assumir um enfrentamento efetivo contra as injustiças que atingem imigrantes e minorias de gênero mexeria com interesses econômicos, militares e estratégicos profundamente enraizados. No fim, o silêncio também fala — e, nesse caso, diz muito mais sobre a política do que qualquer frase de efeito cuidadosamente pronunciada.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Uma multidão



Tem dias em que a mesa parece cheia mesmo quando só há um prato. O silêncio tem gosto de risada antiga, e a cadeira vazia guarda histórias que ninguém contou naquele dia, mas que todos já ouviram. Não há ninguém sentado ali — e, mesmo assim, estão todos. A ausência dos que se foram ou dos que estão distantes não desaparece: ela se acomoda, elegante, como quem sabe que deixou marcas demais para ser esquecida. O lugar vazio, longe de ser vazio, carrega uma multidão.

Porque há amigos que a vida não conseguiu afastar, mesmo que estejam em outros estados, países, tempos. Eles moram naquela receita que a gente aprendeu junto, na lembrança de um bordão repetido mil vezes, no copo que ninguém ousa tirar do armário porque era sempre o deles. Há também os que se despediram para sempre — mas continuam voltando, sem pedir licença, como uma memória teimosa que sabe exatamente onde sentar. O tempo, esse senhor exigente, não dá conta de apagar o afeto.

Às vezes, sem perceber, a gente põe mais um talher. Serve um pouco a mais. Fala no plural. E quando dá por si, está sorrindo para alguém que não está ali — mas que sempre estará. É que a presença, quando é forte, se sustenta mesmo sem corpo, sem toque, sem som. Ela se escreve no ar, no espaço, no cuidado de manter aquele lugar intacto, como se dissesse: Você faz falta, mas ainda é parte.

A cadeira vazia não é ausência. É marca. É rastro de afeto que o tempo não levou. É sinal de que aquele amigo, aquele amor, aquele alguém que foi ou está longe, ainda senta com a gente — mesmo quando não chega.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Escrever, esse desabafo disfarçado de produtividade


Tem gente que corre, há quem malhe, quem medite, quem se entupa de séries e pipoca. Eu escrevo. Não é glamour, é necessidade. Escrever virou meu jeito de lidar com a bagunça interna sem precisar colocar a roupa na máquina. É como se as palavras saíssem pela ponta dos dedos empurrando um pouco da ansiedade, do cansaço e das interrogações existenciais para fora do corpo. Funciona mais ou menos como um grito abafado — só que com pontuação.

Tem dias em que a cabeça parece uma reunião de colegiado: todo mundo quer falar ao mesmo tempo e todo mundo tem razão. É nessa hora que eu escrevo. Não para organizar o caos, mas para dar forma a ele. Escrevo porque a cabeça anda cheia, o coração meio atravessado, e tem sentimento fazendo hora extra sem receber adicional noturno. A página em branco me escuta sem interromper, sem opinar, sem querer me dar conselho. E só por isso, já merece um abraço.

E olha que não escrevo para ser lido, às vezes nem eu me entendo depois. Mas escrevo como quem acende uma luz num corredor escuro só para mostrar que está tudo ali: cansaço, ternura, raiva, gratidão, amor e um pouquinho de tédio com os boletos da vida adulta. Escrevo para não acumular ressentimento no fígado, para dar um destino digno às lágrimas não choradas e às frases que engoli no trabalho para manter o emprego.

Se a escrita não resolve todos os meus problemas, pelo menos me deixa em melhores condições de lidar com eles. Depois de escrever, volto ao mundo mais leve, com menos vontade de xingar no trânsito ou de enviar uma mensagem impaciente no whats. Escrever virou meu jeito de conversar comigo mesmo sem ser interrompido por notificações. É terapia barata, com a vantagem de não ter que marcar horário.

domingo, 3 de agosto de 2025

Um dia desses


Tem dor que a gente arquiva, aperta salvar como rascunho e segue o baile. Mas o corpo não esquece, não perdoa, não perde prazos. Fica tudo ali, adiado, em stand-by, esperando uma brecha na agenda, uma folga no cansaço, um silêncio entre as notificações para finalmente desaguar. Às vezes, é no banho. Às vezes, lavando louça. Às vezes, entre um riso e outro, ele escorrega. Disfarçado. Educado. Envergonhado.

Tem choro que precisa ser chorado com hora marcada, como quem faz exame de rotina ou tira uma tarde pra resolver pendências emocionais. Choro velho, de infância, de perda mal curada, de susto disfarçado de coragem. Choro recente, de notícia difícil, de saudade adiada, de injustiça engolida com café preto. E a gente, cheio de compromissos, tenta ser forte, tenta ser adulto, tenta ser produtivo. Mas chega uma hora em que o choro cobra. Com juros, multa e correção emocional.

Prometo pra mim mesmo: um dia desses eu paro. Ligo o modo offline da alma. Deixo as lágrimas fazerem sua rebelião silenciosa, sem plateia, sem cronômetro. Porque tem tristeza que, se não for chorada, começa a se fantasiar de mau humor, de impaciência, de dor nas costas. E aí, meu caro, o problema já não é só o choro: é tudo que ele empurrou pra dentro quando só precisava sair.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A atenção como capital






Há quem chame a atenção com um argumento bem colocado, com um gesto discreto, com uma ideia que se impõe pela inteligência. E há quem prefira gritar, causar e criar tumulto como método de governo. O atual presidente dos Estados Unidos parece ter optado por essa segunda forma: ocupar o noticiário à base do barulho. Sua gestão se pauta menos por políticas públicas concretas e mais por uma performance contínua de polêmicas, declarações estúpidas e medidas inflamáveis. O objetivo? Estar em todas as manchetes. De Nova York a Nova Délhi, passando por Brasília e Berlim, seu nome circula como se fosse um verbo: ora é conjugado com indignação, ora com ironia, mas nunca com silêncio. E é aqui que mora a astúcia do método: até mesmo este texto — que tenta rir um pouco da situação — acaba, ironicamente, contribuindo para a engrenagem de sua visibilidade. É como tentar apagar um incêndio com gasolina só porque a gente queria fazer um ponto.

Não se trata apenas de vaidade ou de um narcisismo presidencial em alta voltagem — embora isso também esteja no pacote. Trata-se de um modo de fazer política que entende a atenção como capital. Se antes os políticos buscavam a aprovação do eleitorado com promessas, hoje há quem prefira a lógica do engajamento: quanto mais se fala, mais se compartilha; quanto mais se compartilha, mais se consolida uma imagem (mesmo que seja a do vilão da história). E o melhor — para ele — é que a oposição, ao criticá-lo diariamente, contribui para mantê-lo em evidência. É como brigar com alguém que só quer ser notado.

Essa presença onipresente nas manchetes não distingue espectros ideológicos. Jornais progressistas o atacam, canais conservadores o defendem, os do centro o relativizam — mas todos o mencionam. A imprensa internacional acompanha com perplexidade, como quem assiste a uma série de drama político de gosto duvidoso. E enquanto isso, ele segue no palco, como um animador de auditório que aprendeu que o escândalo dá mais audiência que o conteúdo.

No fundo, talvez ele tenha entendido algo perverso sobre o tempo em que vivemos: mais do que governar, é preciso performar. Não é a realização que sustenta o poder, mas a visibilidade. E ele, convenhamos, tem feito isso com maestria. Como um maestro do ruído, rege a orquestra do caos com uma batuta de fake news, provocações e táticas de distração. E o mundo, entre atônito e viciado, continua assistindo — de olhos arregalados e dedos frenéticos no teclado.

sábado, 26 de julho de 2025

Manual de sobrevivência à bagunça alheia (sem perder o humor nem a sanidade)



Tem gente que entra na nossa vida como se fosse furacão de categoria cinco: espalha objetos, opiniões, promessas e atrasos com a mesma leveza de quem espalha confete em bloco de carnaval. E o nosso erro é sempre o mesmo: tentar organizar o outro. Dar conselhos, fazer planilhas, marcar terapia para o fulano — tudo em vão. Porque a verdade, meus caros, é que ninguém se organiza pelo desejo do outro. Só a gente acha que um lembrete no WhatsApp vai fazer milagre. O outro olha, dá dois corações, e segue o caos.

Mas aí vem o pulo do gato: se a gente não pode organizar o outro, que tal blindar o nosso canto? Montar uma cerca elétrica emocional, dessas que só disparam alarme quando a bagunça alheia ameaça invadir nossa calmaria. Isso não significa se isolar num mosteiro (embora às vezes dê vontade), mas sim traçar limites, dizer “isso aqui é meu espaço, meu horário, meu cronograma de lavar roupa e minha sanidade mental”. Não precisa drama nem DR: um simples “essa parte eu prefiro resolver do meu jeito” já faz milagres.

E que fique claro: não é sobre controlar ninguém — é sobre não deixar que o descontrole do outro vire o nosso. A vida já é difícil com boletos, fila no banco e as dores nas costas que vêm sem convite; não precisamos de mais um ser humano confundindo nosso roteiro. Porque tem gente que é um desorganizador nato: começa falando de segunda-feira e termina te convencendo a mudar todos os seus planos de sábado.

Então, se organizar para que a bagunça do outro não bagunce a gente é um ato de autocuidado. É como usar guarda-chuva em dia de chuva emocional: o outro pode até estar ensopado, mas você vai seco, elegante e, quem sabe, até de boas com o tempo nublado. Afinal, se o caos é contagioso, a tranquilidade também pode ser. Desde que a gente se lembre de guardar a vassoura mágica da organização… só para varrer nosso próprio quintal.

terça-feira, 22 de julho de 2025

E, se der sorte, encontrar pelo caminho quem saiba também bordar junto


Viver talvez seja a mais difícil das artes. Não se aprende em curso, não se ensina com apostila, e não há manual que dê conta do improviso que é estar no mundo. É tropeçando, ajustando o passo, caindo e levantando que a gente vai descobrindo que viver é mais ensaio do que apresentação. E, por mais que tentem vender a ideia de que é preciso “ter um plano”, às vezes a beleza está justamente em não saber o que vem depois da vírgula.

A arte de viver inclui aceitar que nem tudo cabe no nosso controle, que o outro é um enigma e que a gente também é. Viver é saber que tem dia que a luz entra pela janela e a gente nem nota. E tem dia que ela falta, e mesmo assim a gente acende alguma coisa por dentro. É não se cobrar tanto, rir de si mesmo, mudar de ideia sem culpa e chorar sem vergonha.

Tem gente que pensa que viver é atingir metas, riscar itens da lista, subir degraus. Mas, às vezes, viver é parar no meio da escada e pensar: e se eu quisesse só sentar aqui um pouco?. É aprender a escutar o silêncio, saborear um café devagar, conversar com um cachorro na rua, lembrar de um amigo com saudade boa. Pequenos gestos que costuram sentido no meio do caos.

No fim das contas, talvez viver bem seja mais sobre acolher do que vencer. Acolher as dúvidas, os afetos, as perdas, os reencontros. Ir costurando os dias com paciência, mesmo quando a linha enrosca. E, se der sorte, encontrar pelo caminho quem saiba também bordar junto.

O desejo é um turista inquieto

O desejo é uma criatura caprichosa. Não se contenta com pouco , mas também não se satisfaz com muito . Você pensa que finalmente encontrou o...