terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Para 2026: ser eu mesmo o maior tempo possível



Entrei em 2025 com a ideia de presença, de cuidado e de abertura. Queria viver um dia de cada vez, cuidar do corpo, reduzir excessos, aceitar convites, ouvir mais, irritar menos. O ano passou, e quase tudo seguiu por outros caminhos. A ansiedade voltou em muitos momentos, o corpo nem sempre veio junto, o trabalho pesou mais do que eu gostaria, a leveza ficou intermitente. O que escrevi em janeiro permaneceu ali como desejo, não como roteiro.

Pensar 2026 talvez passe por reconhecer isso sem correção imediata. O descompasso entre o que se deseja e o que se vive faz parte do modo como o tempo se impõe. As intenções de 2025 não foram inúteis por não terem se cumprido; elas marcaram um ponto de escuta, mesmo quando a vida seguiu em outra direção. Há algo de honesto em admitir que nem sempre se vive aquilo que se formula.

Talvez 2026 não precise começar com metas, mas com uma atenção mais modesta. Menos promessas feitas a mim mesmo e mais disponibilidade para perceber o que se apresenta. Em vez de presença como ideal, presença como tentativa. Em vez de equilíbrio como meta, equilíbrio como algo que oscila. O corpo, o trabalho, o dinheiro, os afetos seguem pedindo cuidado, mas sem a exigência de acerto.

Pensar o próximo ano pode ser menos um exercício de projeção e mais um gesto de continuidade. Seguir escrevendo quando der, vivendo como for possível, ajustando os ponteiros internos no meio do caminho, não no início. Talvez 2026 peça menos vontade de ser outro e mais disposição para seguir sendo, com pausas, recuos e pequenos avanços.

Para 2026, junto a tudo isso, fica um desejo mais simples e talvez mais difícil: ser eu mesmo o maior tempo possível. Não como afirmação grandiosa, mas como permanência discreta. Seguir sendo sem me dobrar tanto às expectativas alheias ou sem me dobrar às expectativas incorporadas ao longo desses anos de vidasem me afastar do que reconheço como meu modo de estar no mundo. Ser eu mesmo nos dias bons e nos dias opacos, nas conversas e nos silêncios, no trabalho e fora dele. Se houver uma meta, ela passa por aí: sustentar essa permanência quando der, aceitar quando não der, e continuar, ainda assim, no caminho.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Retrospectiva: um modo de seguir adiante



Este é o penúltimo texto deste ano. Escrevi no meu blogue em 2025 do mesmo modo como vivi o ano: por aproximações sucessivas, sem um plano definido e sem a intenção de construir um sentido geral. Cada texto nasceu de um impulso pontual, de algo que me atravessou naquele dia, naquela situação, naquele estado de espírito. O blogue acompanhou esse movimento como um espaço onde coube escrever quando escrever se impunha, sem a obrigação de dar unidade ao conjunto.

O que publiquei ao longo do ano forma um acúmulo de registros do cotidiano, de dispersões, de pensamentos breves que pediam passagem. Há textos mais leves, outros mais opacos, alguns atravessados por cansaço, outros por curiosidade, irritação e decepção. Nenhum deles pretende fechar algo. Cada um permanece ali como fragmento de um dia vivido e deixado para trás.

Escrevi sobre o que vi, sobre o que me incomodou, sobre o que me fez parar um pouco. Às vezes uma cidade, às vezes uma cena banal, às vezes uma sensação difícil de nomear. O blogue acolheu essas variações sem exigir coerência temática. Ele foi menos um projeto e mais um lugar onde eu pude deixar marcas do que passou por mim.

A política apareceu como aparece na vida comum: misturada ao cotidiano, às falas alheias, às imagens que circulam, ao desgaste que tudo isso produz. Os textos não buscaram explicação nem aprofundamento. Eles ficaram no registro do impacto, da fadiga, da observação seca de um tempo que pesa.

Quando olho para o que escrevi em 2025, reconheço ali um conjunto de textos que acompanha um ano vivido sem grandes viradas, mas cheio de pequenos movimentos. O blogue guardou esses restos, essas notas, esses instantes. Escrever foi, ao longo do ano, apenas isso: um modo de seguir adiante, deixando palavras pelo caminho.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma névoa entre mim e o mundo


As minhas vistas andam muito cansadas, e essa sensação tem se imposto no corpo de um jeito difícil de ignorar. Há dias em que os olhos parecem pedir descanso antes mesmo de o dia começar. Fica a impressão insistente de que há mato nesse coelho, algo que vai além de um cansaço passageiro e que exige atenção.

Há cerca de dois meses comecei a perceber a visão nublada, especialmente em ambientes muito claros. A luz intensa incomoda, embaralha os contornos, torna o gesto de olhar mais trabalhoso. Ler placas, acompanhar linhas de texto ou simplesmente manter os olhos abertos em certos espaços passou a exigir um esforço que antes não se fazia notar.

Tudo indica que esse estado tem relação direta com o uso prolongado de telas, com a leitura contínua e com a escrita em excesso. No ano passado, essas três atividades ocuparam grande parte dos meus dias e das minhas noites. O tempo diante do computador se acumulou, as pausas foram poucas, e o corpo, silencioso por um período, agora parece cobrar a conta. O uso de colírio tem amenizado um pouco essa sensação, oferecendo um alívio momentâneo, ainda que não resolva o problema de fundo.

Sem os óculos, o incômodo se torna ainda mais presente. Os olhos ficam secos, a visão turva, como se uma névoa persistente se interpusesse entre mim e o mundo. É um desconforto que não grita, mas insiste. Talvez seja o momento de escutar melhor esses sinais e aceitar que até o olhar, instrumento tão cotidiano, também precisa de cuidado.

Da Série: Contos Mínimos

Ele acordava todos os dias com a sensação de que algo lhe pesava no peito, como um objeto esquecido dentro do corpo. Sabia que não era dor, nem tristeza comum. Era uma narrativa inteira comprimida, pedindo passagem. Tentou silenciar aquilo com rotinas, compromissos, frases prontas. Nada bastava. A história insistia, batendo por dentro, exigindo palavras. Na noite em que finalmente escreveu a primeira linha, o peso não desapareceu. Transformou-se em outra coisa: um medo leve, quase feliz. O medo de deixar o mundo saber quem ele era.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma chatice que pesa mais do que qualquer sandália




Os tempos atuais no Brasil são atravessados por uma polarização que parece transformar qualquer gesto banal em campo de batalha simbólico. Uma propaganda de sandálias, algo que durante décadas ocupou o lugar do cotidiano leve e quase despretensioso, passa a ser lida como tomada de posição política. O episódio recente envolvendo a campanha das Havaianas, com Fernanda Torres sugerindo entrar em 2026 com os dois pés, mostra como a vida comum vem sendo capturada por uma lógica de confronto permanente.

Nesse cenário, expressões corriqueiras deixam de circular como brincadeira, humor ou ironia e passam a ser enquadradas como sinal de pertencimento a um lado ou a outro. A extrema-direita, sempre vigilante, mobiliza-se rapidamente para produzir ruído, indignação e sensação de ameaça. A esquerda, por sua vez, muitas vezes se vê compelida a responder, reforçando um clima de tensão contínua que esgota qualquer possibilidade de distensão.

O que se impõe, então, é uma atmosfera de cansaço coletivo. A política transborda seus espaços próprios e se infiltra em tudo, do comercial de televisão à conversa trivial. Esse excesso de leitura, essa busca incessante por mensagens ocultas, vai produzindo um cotidiano pesado, marcado mais pela vigilância do que pela convivência. A alegria, o humor e a ambiguidade vão sendo comprimidos até quase desaparecerem.

Talvez o incômodo maior esteja justamente aí: na dificuldade crescente de aceitar o banal, o simples, o ambíguo. Entrar com os dois pés em um ano futuro poderia ser apenas isso, uma imagem, um jogo de linguagem, um convite leve. Transformar esse gesto em escândalo diz menos sobre a propaganda e mais sobre um país que anda levando tudo a sério demais. E, convenhamos,  essa chatice já pesa mais do que qualquer sandália.
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domingo, 21 de dezembro de 2025

Revê-los é também reencontrar versões de mim





O sábado ganhou uma densidade rara ao reunir pessoas que atravessam a minha vida há décadas. Léo, Vera, Marina, Andréia, Ana, Aline, Denise, Barroso, Robson, Gil, Joá, Marcelo, Ricardo, Patrícia (1ª foto - na casa de Dona Raimunda, em Paciência) formaram um círculo de presenças que dispensa explicações. Em outro momento (segunda foto) do mesmo dia, encontrei Sueli, Neném, Mônica (amigos de longa data). Estar junto deles ativa uma memória viva, feita de reconhecimento imediato, de risos que retomam o fio do tempo como se ele jamais tivesse sido interrompido.

Alguns desses laços nasceram ainda na infância, nos corredores do ensino fundamental, quando o mundo parecia grande demais e, ao mesmo tempo, cabia inteiro em uma conversa no intervalo da aula. Outros vieram do bairro onde vivi por tantos anos, espaço de encontros cotidianos, de aprendizados silenciosos e de uma convivência que nos diz quem somos. Cada trajetória se cruzou com a minha de um modo próprio, e é essa singularidade que torna o grupo tão precioso.

O encontro foi atravessado por muito afeto e carinho, gestos que dizem mais do que longos discursos. Olhares cúmplices, lembranças partilhadas, histórias retomadas com detalhes que só fazem sentido para quem esteve lá. Há uma alegria particular em perceber que certas afinidades resistem ao tempo, às distâncias e às transformações da vida.

As histórias circularam com leveza, algumas antigas, outras atualizadas pelo presente, todas marcadas por experiências comuns e por diferenças acolhidas. Cada nome carrega um pedaço da minha própria história, e revê-los é também reencontrar versões de mim mesmo que seguem vivas nesse convívio. A memória, nesse espaço, deixa de ser arquivo e se torna presença.

Voltei para casa com a sensação de pertencimento renovada. Amigos da vida são isso: pessoas com quem o tempo não pesa, apenas acrescenta. Que encontros como o de sábado sigam acontecendo, alimentando esse laço feito de afinidade, cuidado e uma amizade que continua a dizer muito sobre quem sou.

sábado, 20 de dezembro de 2025

O dinheiro público no escuro





As emendas parlamentares sem rastreamento expõem uma das faces mais graves da apropriação privada do dinheiro público no Brasil. Verbas que pertencem à sociedade circulam sem transparência, sem critérios verificáveis e sem qualquer possibilidade efetiva de acompanhamento pela população. O orçamento, que deveria expressar escolhas coletivas e prioridades sociais, passa a ser manejado em zonas de sombra, onde o interesse público perde lugar para arranjos políticos fechados.

Esse modo de destinação de recursos afronta princípios elementares da vida democrática. A gestão do dinheiro público exige publicidade, responsabilidade e controle social permanente. Quando parlamentares defendem ou naturalizam mecanismos que ocultam quem indica, quem recebe e como as verbas são utilizadas, instaura-se um regime de opacidade deliberada. A ausência de rastreamento não representa falha técnica, mas escolha política que fragiliza a própria noção de Estado comprometido com a sociedade.

Causa indignação a desenvoltura com que alguns políticos lidam com essa prática. Há um cinismo escancarado no discurso que tenta justificar a falta de transparência em nome de suposta eficiência ou rapidez. Isso encobre interesses particulares, barganhas silenciosas e usos do orçamento que jamais suportariam escrutínio público. O dinheiro coletivo passa a ser tratado como instrumento de poder pessoal, administrado longe do olhar de quem o financia.

A questão ultrapassa o campo contábil e alcança o coração da democracia. Sem rastreamento e controle, rompe-se o vínculo entre representantes e população, e consolida-se a percepção de que o Estado serve a poucos. Exigir transparência nas emendas significa defender o direito da sociedade de saber, acompanhar e cobrar. Qualquer país que se pretenda democrático precisa tratar o dinheiro público com luz, responsabilidade e respeito — tudo aquilo que essas emendas insistem em negar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Corações jovens


Corações Jovens, dirigido por Anthony Schatteman, inscreve a juventude como tempo de atravessamento silencioso e desloca expectativas fortemente sedimentadas sobre sexualidade e sofrimento. A aldeia flamenga onde a narrativa se desenrola comparece como materialidade que pesa sobre gestos, pausas e deslocamentos. O campo belga, com seu ritmo próprio e sua proximidade quase excessiva entre as pessoas, cria um espaço em que cada olhar ganha densidade e cada aproximação carrega riscos. Esse ambiente sustenta tensões sem precisar explicitá-las, confiando ao cotidiano a tarefa de produzir sentido.

Desde o início, o filme convoca uma memória social persistente: falar de sexualidade na infância e na adolescência costuma acionar discursos ligados à violência, à repressão e ao trauma, sobretudo no interior da família e da escola. O espectador é levado a antecipar esse caminho narrativo, esperando cenas de sofrimento ou punição. O impacto do filme nasce justamente dessa antecipação, que é mobilizada para, em seguida, ser deslocada. A narrativa recusa organizar a sexualidade juvenil a partir da violência como eixo central.

O encontro entre Elias, adolescente do interior, e Alexander, recém-chegado de Bruxelas, produz uma desorganização afetiva que atravessa também o grupo escolar e, de modo particular, a relação com Valerie, sua namorada até então. O incômodo de Valerie ultrapassa o ciúme e aponta para a dificuldade de lidar com o desejo quando ele passa a circular de forma imprevista, deslocando lugares e expectativas partilhadas. O filme acompanha esse deslocamento sem dramatizações excessivas, apostando na delicadeza dos gestos e nas hesitações.

O espaço escolar, frequentemente representado no cinema como palco de agressões explícitas, aparece aqui de forma rarefeita. Em vez de confrontos espetaculares, surgem silêncios constrangedores, olhares que pesam e pequenas inflexões no convívio cotidiano. A violência, quando se insinua, habita essas relações ordinárias, difíceis de nomear e justamente por isso persistentes. Ao mesmo tempo, o filme deixa entrever brechas de cuidado e reconhecimento, sem transformar esses gestos em exemplos edificantes.

Ao falar de corações jovens, o filme aponta para uma capacidade singular de ajuste. Apesar das pressões do entorno, dos medos e das perdas simbólicas que acompanham o primeiro amor, os personagens encontram modos de seguir adiante. Esse ajuste se dá na negociação cotidiana entre desejo, pertencimento e silêncio, sem promessas de estabilidade plena. Ao deslocar a sexualidade juvenil do campo exclusivo da violência, Corações Jovens reinscreve esse tema no campo da vida, do afeto e da possibilidade, afirmando uma delicadeza rara ao tratar da juventude como experiência atravessada por instabilidade e descoberta.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Das presenças que moldam a memória com afeto


                (Da esquerda à direita - tio Teófilo, meu avô Alberto, minha mãe, Heloísa, e eu, tio Carlinhos e tia Maria)


Há pessoas que atravessam a nossa infância e ficam para sempre. Meu tio Carlinhos foi uma dessas presenças que moldam a memória com afeto, riso e cuidado.

Ele era o homem divertido, gente boa, muito bonito, aquele que chegava trazendo blocos de papel para que eu pudesse desenhar e escrever. Pequenos gestos que, com o tempo, ganham um tamanho imenso. Durante um período da vida, ele, minha mãe — irmã dele — e eu moramos juntos. A casa era também esse espaço de convivência simples, de cumplicidade cotidiana, de aprendizados silenciosos.

Era ele quem me levava para cortar os cabelos. Às vezes dizia, meio em brincadeira, meio a sério, que era meu pai (para as moças desconhecidas). Minha mãe gostava demais dele. Eu também. Havia ali um laço forte, feito de cuidado, presença e afeto compartilhado.

Falei com ele pela última vez em outubro. A mensagem chegou do jeito que sempre foi: afetuosa, generosa. Ele me chamou de “amigo, amigão do peito”. Desejamos saúde um ao outro, falamos da vida (de lá e daqui), combinamos uma visita para janeiro. Essa visita ficou no tempo que não se cumpre. Ele se foi antes.

A tristeza é enorme. Uma dor funda, dessas que apertam o peito e silenciam o dia. Mas junto dela caminha uma alegria igualmente grande: a de ter convivido com ele por tanto tempo, de ter sido cuidado, acompanhado, amado e, sobretudo, de aprender o que é o amor da gente para o outro. Há perdas que doem justamente porque foram precedidas de muito amor.

Fica a saudade, que agora se soma à memória. Fica o riso fácil, a mão estendida, os blocos de papel, o caminho até a barbearia, o jeito de chamar que aquecia o coração. Fica, sobretudo, a gratidão por tudo o que foi vivido.

Algumas pessoas partem, mas continuam presentes. Meu tio Carlinhos é uma delas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Quando o remendo vira rotina



Há momentos em que a gente compra coisas que não precisa tanto assim. Um objeto, uma roupa, um jantar fora, algo que chega como promessa de alívio. Não se trata de excesso ou falha de caráter. Trata-se de um gesto comum, quase banal, de tentar se sentir um pouco melhor consigo mesmo. O consumo, nesses casos, encosta menos na utilidade e mais na sensação de valer alguma coisa naquele instante.

Quando o dinheiro entra em cena, ele carrega muito mais do que poder de compra. Ele traz junto sinais de pertencimento, de reconhecimento, de estar à altura do que o mundo parece exigir. Gastar, presentear-se ou exibir algo novo pode produzir uma sensação breve de acolhimento, como se o sujeito fosse visto, validado, incluído. O afeto não está no objeto, mas no que ele permite encenar socialmente.

Essa busca não acontece porque as pessoas são vazias ou fúteis. Ela aparece quando o valor de si anda abalado, quando algo falha no trabalho, nas relações ou na própria imagem. O consumo entra como um remendo provisório, uma tentativa de recompor o ânimo, de sustentar a própria dignidade diante de um cotidiano que cobra demais e oferece pouco retorno afetivo.

O problema começa quando esse remendo vira rotina e a sensação boa dura cada vez menos. O circuito se repete, o alívio encurta, e o gesto precisa ser refeito. Não há vilões nem heróis nesse movimento. Há sujeitos tentando se manter de pé em um mundo que traduz amor, sucesso e reconhecimento em cifras, vitrines e curtidas, deixando pouco espaço para outras formas de sustentar o próprio valor.

domingo, 7 de dezembro de 2025

O mundo sempre continua rodando



Há quem acorde todos os dias pronto para interpretar um personagem. De manhã, a versão profissional impecável; à tarde, o sujeito compreensível e educado; à noite, o ser sociável que sempre tem uma opinião leve e palatável. No fundo, é como se existisse um guarda-roupa infinito de identidades, cada qual escolhida de acordo com o clima, a companhia e o humor. O problema é que, depois de tanto trocar de figurino, pode parecer que falta alguém ali: justamente quem deveria estar no comando.

Bancar-se é outra conversa. É quando o sujeito decide que suas escolhas não precisam passar pelo crivo de uma plateia invisível. É quando percebe que o desejo não espera autorização externa para existir. É um gesto simples e, ao mesmo tempo, audacioso: não se trata de fazer o que der na telha, mas de não pedir desculpas por ser quem se é. Dá trabalho, claro. Sustentar os próprios quereres exige coragem para lidar com a surpresa alheia, o desconforto dos que queriam previsibilidade e, sobretudo, a própria insegurança. Ainda assim, é um alívio inesperado descobrir que o mundo continua girando.

Ao encarar essa empreitada, as máscaras sociais revelam seu caráter cansativo. Elas servem para agradar, para evitar perguntas indesejadas, para fingir convicções que não pertencem a quem as usa. E, mesmo assim, insistimos nelas como se fossem acessórios indispensáveis. É curioso: esconder-se cansa mais do que aparecer. Não há almofada mais dura do que uma vida vivida aos pedaços, sempre editada, sempre adaptada às expectativas de terceiros.

Assumir-se, portanto, não é um ato heroico reservado aos iluminados do autoconhecimento. É um aprendizado cotidiano de coerência interna, um exercício de escolha: seguir o fluxo alheio ou responder aos próprios movimentos. Há dias em que essa tarefa parece suave, quase natural; em outros, surge a tentação de entrar de novo no figurino confortável. A diferença é que, depois de experimentar a leveza de bancar-se, qualquer máscara parece apertada demais. Descobre-se, então, que viver sem disfarces não elimina dificuldades, mas permite algo que vale mais do que qualquer aplauso social: a tranquilidade de reconhecer-se em cada passo que se dá.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A integridade não se negocia



Há uma linha tênue entre o trabalho e aquilo que se vive fora dele, mas existe um princípio que sustenta qualquer atividade profissional: quem assume uma função responde por ela. Um pedido feito no horário de expediente convoca uma responsabilidade, seja responder, encaminhar, resolver ou, no mínimo, dar retorno. Silenciar, fingir ausência ou tratar demandas como algo voluntário enfraquece o sentido do próprio cargo e coloca em risco a confiança que sustenta o ambiente  de trabalho.

O vínculo pessoal pode até florescer entre colegas, mas essa é uma consequência, não um propósito. A convivência diária cria aproximações, afinidades e até cumplicidades, mas nada disso ocupa o lugar da tarefa que nos foi atribuída. A cobrança existe porque há uma posição ocupada. Ninguém está ali apenas porque é simpático, agradável ou querido. A presença se justifica pela capacidade de resposta àquilo que foi assumido institucionalmente.

Em ambientes profissionais, o gesto de tratar a amizade como porta de entrada para privilégios, tolerâncias ou desculpas desestabiliza as relações. Quando a cordialidade passa a valer mais do que a entrega, cria-se uma confusão perigosa entre afeto e responsabilidade. É reconfortante trabalhar com pessoas que admiramos, mas a prioridade recai sobre o trabalho realizado. Se houver afinidade, ótimo. Caso não exista, ainda assim a expectativa permanece: cumprir aquilo que cabe a cada um.

Um capítulo à parte é ocupado por aqueles sujeitos que se dedicam a bajulações. Esse tipo de presença se molda ao desejo do chefe, esvazia o pensamento e troca a reflexão por elogios permanentes. O objetivo não é contribuir, mas se manter protegido, garantindo benefícios financeiros e alguma sensação de importância emprestada. Esses personagens lembram constantemente que, no mundo profissional, há quem prefira o conforto submisso ao risco de pensar. Quem sustenta o próprio lugar, porém, sabe que a integridade nunca se negocia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Ele atravessou a vida como quem caminha sem abrigo



Gerson de Melo Machado atravessou a vida como quem caminha sem abrigo. Sua história, que poderia ter sido apenas a de um rapaz de 19 anos tentando encontrar algum lugar no mundo, se desdobra como um retrato de desamparo. Recebido pela rede pública ainda criança, circulando entre atendimentos, instituições e fugas, ele parecia sempre escapar das mãos que tentavam segurá-lo. Aos olhos de quem o acompanhou desde a infância, havia ali um menino que não teve chance de aprender a existir com alguma proteção mínima.

O domingo em que perdeu a vida no Parque Arruda Câmara expôs o ponto extremo dessa trajetória. O ato de escalar muros e ingressar no recinto da leoa, mais do que uma aventura inconsequente, parece ecoar uma luta silenciosa com limites que nunca lhe foram ofertados de modo consistente. A cena registrada por visitantes transformou-se rapidamente em notícia, mas antes disso havia um jovem atravessado por uma sucessão de ausências, diagnósticos, tentativas de cuidado e interrupções bruscas.

A morte de Gerson, provocada pela reação instintiva do animal, tornou-se um acontecimento que não se encerra no laudo pericial. O parque fechado, a prefeitura instaurando apurações e a leoa em estado de estresse compõem o cenário imediato, mas o que permanece é outra dimensão: a de um percurso marcado por fragilidades, abandonos e escolhas que nunca foram totalmente dele. É impossível olhar para a imagem daquele momento sem pensar nos caminhos que o empurraram até ali.

O que se inscreve agora em nossa memória é mais do que o ataque no zoológico. A história de Gerson convoca perguntas sobre o que se faz, enquanto sociedade, com pessoas que nascem e crescem fora de qualquer horizonte de cuidado contínuo. Sua morte deixa uma tristeza áspera, dessas que não se desfazem com o tempo, porque aponta para distâncias que se ampliam entre quem tem amparo e quem aprende a sobreviver sozinho. A vida desse rapaz, interrompida de maneira brutal, nos coloca diante de uma ausência que não pode ser naturalizada.

The Golden Globe Goes To

O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Age...