quinta-feira, 23 de abril de 2026

Perdidos na tradução



Passaram-se trinta e um anos. Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em camadas. Foi em Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná, que nos encontramos pela primeira vez. Ele, um austríaco jovem, curioso, querendo conhecer o mundo. Eu, iniciando a minha carreira acadêmica. Uma amiga (ex-aluna) em comum (foto 1), nos apresentou. Na verdade, levou-o para assistir a uma aula de português, gramática, para que ele aprendesse um pouco da língua. Não funcionou.

Dali em diante, nos aproximamos. Ele queria conhecer o Rio de Janeiro. Eu viajaria de férias no fim daquele ano, 1995. Fomos juntos. Ele agarrado a um litro de guaraná quente. Ficou na casa dos meus pais, depois na casa de um amigo. Meus amigos o adotaram. Apresentei a ele o Rio de Janeiro.

A vida seguiu. Vieram os afastamentos, silenciosos, quase naturais, como parte do próprio movimento do tempo. Durante anos, não houve notícias. Em outro momento da vida, mediado por telas e algoritmos, as redes sociais nos colocaram novamente na mesma órbita. Um gesto simples, uma mensagem, e aquilo que parecia distante encontrou uma forma de retorno, deslocado, inscrito em outras condições.

Somos outros. Algo se transformou, algo permanece. O que guardo é um afeto que não se dissolveu, mesmo sem presença, como se tivesse sido depositado em algum lugar fora do alcance do desgaste cotidiano. No próximo sábado, vamos nos encontrar. Nesse reencontro, há menos a tentativa de recuperar o que fomos e mais a possibilidade de sustentar o que ainda pode ser dito entre nós, ele em alemão, eu em português. Viva a tecnologia.

Há também um movimento que se dirige à juventude como memória sensível. Um tempo que permanece como marca, como vestígio, como forma de olhar o mundo. Ir ao encontro desse amigo toca essas marcas, sem a ilusão de restaurá-las, mas reconhecendo sua presença.

E há ainda as cidades. Viena e Salzburgo sempre habitaram minha imaginação como espaços de deslocamento e descoberta. Agora deixam de ser apenas imagens e se tornam percurso. Há algo nessa expectativa de caminhar com ele por uma cidade que também o inscreve, como se o encontro não se desse apenas entre nós, mas também entre tempos e lugares que, de algum modo, continuam a nos constituir.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Em curso




Há momentos em que a escolha pelo novo deixa de ser apenas uma abertura e passa a marcar uma posição no percurso de quem decide seguir. Nesse movimento, o que ficou para trás reaparece, como se ainda pudesse ocupar o lugar que já foi atravessado. O antigo insiste, tenta se reinscrever, sustentado pela familiaridade que carrega. Esse retorno não ocorre ao acaso; ele se ancora na memória do já vivido, buscando reativar sentidos que pareciam encerrados.

A decisão de partir implica sustentar o deslocamento que já se produziu. Aceitar o convite do que retorna pode parecer um gesto simples, mas recoloca o sujeito em um ponto que já foi deixado. Nem tudo que reaparece comporta permanência, e reconhecer esse limite faz parte do próprio caminhar. Há passagens que se dão uma única vez, ligadas a condições que não se repetem da mesma maneira, ainda que tentem se apresentar como continuidade.

Em certas situações, aquilo que chama de volta coincide com o que antes impunha barreiras ao avanço. Essa coincidência não se apresenta de forma evidente, pois se manifesta sob a forma do conhecido, do que já foi experimentado, do que oferece uma aparência de estabilidade. A vida, por sua vez, coloca em circulação outras direções, abrindo possibilidades que não se deixam reduzir ao que já foi vivido.

O conforto se apresenta como um ponto de apoio sedutor, associado à ideia de segurança e previsibilidade. Ainda assim, ele não se confunde com a possibilidade de transformação. Permanecer no que é confortável pode significar a repetição de um lugar já percorrido, enquanto o deslocamento implica atravessar zonas de incerteza. Esse atravessamento exige uma relação com o tempo que acolhe o risco implicado em cada escolha.

Seguir adiante envolve reconhecer que a escolha já foi feita e que ela continua produzindo efeitos. O passado pode insistir, convocar, nomear, mas o percurso em curso solicita continuidade. É nesse movimento que se inscrevem outras experiências e outros modos de se relacionar com o que ainda está por vir, sem que o já vivido retome o lugar que deixou de ocupar.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Entre o que passa e o que se perde


Há momentos em que a vida se apresenta como uma plataforma movimentada, na qual cada gesto carrega um peso que só se percebe depois. O tempo passa como os ônibus que chegam e partem sem aviso, e cada escolha desenha um trajeto que não retorna ao ponto de partida. A sensação de que algo poderia ter sido diferente surge tarde demais, quando o veículo já seguiu adiante e deixou para trás aquilo que ainda parecia possível.

A ideia de que sempre haverá outra oportunidade sustenta muitas decisões apressadas ou adiadas. Ainda assim, certas passagens ocorrem de modo singular, ligadas a circunstâncias que jamais se repetem da mesma maneira. Um encontro, uma palavra, um gesto concentram uma densidade própria, inscrita naquele instante. Quando ele passa, o que permanece é a memória e a tentativa de compreender o que se perdeu.

Seguir em frente implica reconhecer que cada ônibus perdido também compõe o percurso. Há um aprendizado silencioso nesse movimento, uma forma de lidar com o que não foi vivido e com o que ainda pode surgir. A ideia de pegar o próximo não apaga o anterior, mas desloca o olhar para o que ainda circula, para o que ainda se apresenta como possibilidade.

Entre a pressa e a hesitação, constrói-se uma relação com o tempo que nem sempre é confortável. O desejo de acerto convive com o risco da perda. A vida se apresenta como uma sucessão de chegadas e partidas, em que cada escolha implica deixar algo para trás. Esse movimento constante exige coragem para embarcar, mesmo sem garantia de destino.

Talvez o mais intenso resida justamente nesse trânsito contínuo. O valor de cada instante se delineia na consciência de que ele não se repete. Seguir adiante, então, ganha outro sentido: não como substituição do que passou, mas como continuidade de uma experiência que se reinventa a cada parada. O próximo ônibus não corrige o anterior, mas abre um novo caminho para quem decide entrar.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Elaborar o que ficou de antes ou Quando o passado se atualiza


As relações que construímos ao longo da vida costumam carregar marcas de experiências muito antigas, muitas vezes situadas na infância, quando ainda aprendíamos, de forma silenciosa, o que significava amar, ser cuidado e também lidar com frustrações. 

Aquilo que buscamos nos outros, como acolhimento, reconhecimento, segurança e intensidade, ganha forma a partir das primeiras relações que tivemos, especialmente com aqueles que ocuparam o lugar de cuidado em nossos primeiros anos de vida. Durante a infância, a criança depende dos adultos para sobreviver e também aprende, pouco a pouco, o que esperar de um vínculo.

Quando encontra presença, atenção e afeto, passa a associar o amor a um espaço de confiança e estabilidade, o que pode favorecer vínculos mais seguros e uma maior disponibilidade para o encontro com o outro. Quando vivencia ausências, instabilidade ou exigências excessivas, carrega uma inquietação que tende a reaparecer nas relações amorosas, marcando tanto a busca por completude quanto a dificuldade em sustentar a própria estabilidade, como se algo permanecesse em aberto.

Essa repetição não se apresenta de forma consciente. Muitas vezes, alguém se vê atraído por pessoas com características semelhantes às de figuras importantes da infância, mesmo quando essas características trouxeram sofrimento. Trata-se de uma tentativa silenciosa de reorganizar uma experiência anterior, como se, desta vez, fosse possível alcançar um desfecho diferente. Assim, escolhas afetivas podem parecer livres, mas guardam uma história que as antecede.

A maneira como aprendemos a lidar com o desejo do outro também se inscreve nesses primeiros vínculos. Algumas pessoas crescem tentando corresponder às expectativas alheias para garantir afeto, enquanto outras desenvolvem distanciamento como forma de proteção. Esses modos de se posicionar reaparecem nas relações adultas, influenciando desde a aproximação até a forma de lidar com conflitos, perdas e separações.

A ligação entre passado e presente se inscreve nas marcas deixadas pela infância, que permanecem ativas nas formas de se relacionar com o outro. Essas marcas não se apresentam como lembranças claras ou narrativas organizadas, mas como traços que atravessam escolhas, expectativas e modos de aproximação, comparecendo de maneira discreta e persistente nos vínculos. Desse modo, as relações atuais se constituem em continuidade com aquilo que foi vivido, reinscrevendo, em novos contextos, algo que não se encerrou e que segue se atualizando nas experiências afetivas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O que permanece porque não é nomeado



Há pessoas que erram, percebem o erro e, ainda assim, evitam encará-lo de frente. Em vez de dizer simplesmente errei, preferem contornar a situação com explicações longas, justificativas que não chegam ao ponto ou até mesmo um silêncio que pesa mais do que qualquer palavra. O que poderia ser resolvido com poucas frases claras acaba se alongando e criando um desconforto desnecessário. O problema deixa de ser o erro em si e passa a ser essa recusa em nomeá-lo diretamente, como se falar de forma simples fosse mais difícil do que sustentar um enredo inteiro ao redor dele.

Pedir desculpa de maneira direta exige algo básico e, ao mesmo tempo, pouco comum: assumir o que foi feito sem tentar amenizar, dividir a responsabilidade ou deslocar o foco. Um pedido sincero não precisa de grandes construções nem de justificativas detalhadas. Ele se sustenta justamente pela simplicidade. Quando alguém diz com clareza o que fez e demonstra consideração pelo outro, abre-se um espaço para que a situação se reorganize. Quando isso não acontece, fica uma sensação de incompletude, como se a conversa tivesse sido interrompida antes de chegar ao que realmente importa.

Muitas vezes, quem evita pedir desculpa acredita que está se protegendo, preservando uma imagem ou evitando um desconforto momentâneo. Mas o efeito tende a ser o inverso. A falta de um reconhecimento direto cria ruídos, acumula pequenas tensões e vai desgastando a convivência aos poucos. As pessoas percebem quando algo não foi dito como deveria e esse não-dito permanece circulando, reaparecendo em outros momentos, em outros gestos, em outras conversas. Aquilo que poderia ter sido resolvido rapidamente passa a ocupar um espaço maior do que merecia.

Reconhecer um erro, por outro lado, tem algo de simples e potente ao mesmo tempo. Um pedido de desculpa claro interrompe o mal-estar, reposiciona quem fala e também quem escuta, e permite que a relação siga sem esse peso acumulado. Trata-se de um gesto cotidiano, quase mínimo, mas que sustenta a possibilidade de convivência mais leve. Dizer errei e me desculpe não resolve tudo, mas abre uma passagem importante para que o que ficou desalinhado encontre outro lugar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Entre o aqui e Pescara


A contagem regressiva já começou, e cada dia agora carrega um peso diferente. O calendário deixou de ser apenas uma sequência de datas e passou a marcar a aproximação de um deslocamento que mobiliza memória, desejo e expectativa. Nos últimos dias de março, parto para a Itália, em direção a Pescara, onde me aguardam atividades na Università G. d’Annunzio. Entre o agora e o embarque, instala-se um tempo suspenso, feito de preparação e antecipação.

Viajar, nesse caso, ultrapassa o simples deslocamento geográfico. Trata-se de um encontro com outras formas de dizer, de pensar e de significar o mundo. Pescara, ainda imaginada a partir de imagens e leituras, começa a ganhar contornos mais nítidos à medida que a partida se aproxima. O mar Adriático, as ruas, a universidade — tudo isso já se inscreve como horizonte, mesmo antes da chegada.

Há também um movimento interno que acompanha essa travessia. Preparar aulas, organizar materiais, retomar textos e ideias: cada gesto se vincula ao que está por vir. A experiência de trabalhar em uma universidade italiana traz consigo a possibilidade de diálogo com estudantes e pesquisadores, em um espaço onde línguas e histórias se entrelaçam, produzindo deslocamentos que não são apenas físicos, mas também intelectuais.

Enquanto os dias diminuem até a data da partida, cresce a intensidade dessa espera. A viagem já começou, de certo modo, nesse intervalo que antecede o embarque. Contar os dias torna-se, assim, uma forma de habitar esse entre-lugar: ainda aqui, mas já em trânsito, com Pescara se afirmando pouco a pouco como destino e como experiência que está prestes a se inscrever na própria trajetória.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A experiência de reinventar-se em outro país

Mudar de país inaugura um deslocamento que ultrapassa a geografia. Atravessa hábitos, ritmos, modos de dizer e de silenciar. O corpo aprende outros horários, outra luz, outro desenho de cidade. Cada gesto cotidiano — comprar pão, pedir informação, esperar um ônibus — passa a carregar uma intensidade inédita, como se o mundo pedisse nova escuta e nova leitura.



A língua ocupa um lugar central nesse movimento. Mesmo quando se domina o idioma local, há sempre um intervalo entre o que se quer dizer e o que se consegue formular. Esse intervalo produz consciência sobre a própria palavra, sobre a memória que ela carrega e sobre o lugar a partir do qual se fala. Aos poucos, o estrangeiro percebe que habitar outra língua transforma também a forma de pensar e de sentir.

As relações ganham outra espessura. Amizades antigas passam a existir à distância, sustentadas por mensagens e chamadas que tentam vencer o fuso horário. Ao mesmo tempo, surgem encontros inesperados, marcados por curiosidade mútua e por descobertas compartilhadas. Viver fora implica reconstruir referências e aceitar que pertencimento se constrói no tempo, com paciência e abertura.

Mudar de país é, sobretudo,
uma experiência de reinvenção
. A identidade deixa de parecer fixa e passa a ser percebida como movimento. Aquilo que parecia sólido se rearranja diante do novo cenário. Entre saudade e entusiasmo, instala-se um aprendizado contínuo: viver em outro território ensina que a casa também pode ser um caminho, e que cada deslocamento redesenha quem somos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Entre tempos


Tenho, nos últimos meses, procurando pessoas que fizeram parte de um momento específico da minha vida: antes de eu vir morar no Paraná, ou seja, há 33 anos. Gente que esteve ali, em dias que hoje parecem guardados num álbum de retratos pouco visitado. Durante os meses de dezembro (2025) e janeiro (2026), essa busca foi ganhando um lugar maior dentro de mim, como se o passado tivesse batido à porta com calma, sem pressa, mas com insistência.

No começo, eu pensei que era saudade. Que eu queria reencontrar nomes, rostos, risadas, histórias interrompidas. Mas, conforme as semanas foram passando, percebi que o que me movia era outra coisa, mais funda e mais íntima: eu estava indo em busca de mim. De um “eu” que existiu naquele tempo e que, de algum modo, ficou ali, esperando.

Eu me dei conta de que aquela época tinha uma marca muito própria. Era um tempo de trabalho duro, de correria, de compromisso, de responsabilidades. Mas, ao mesmo tempo, era um momento em que eu me permitia mais. Eu me divertia mais. Eu experimentava mais. Eu me alegrava mais. Havia uma espécie de leveza que convivía com o esforço, e isso hoje me parece raro, quase como um luxo.

Talvez o que eu esteja tentando reencontrar não seja exatamente as pessoas, embora elas sejam parte essencial desse cenário, mas o que me ficou daquele tempo. O modo como eu vivia os dias. O jeito como eu conseguia estar presente, mesmo cansado, mesmo cheio de coisas para fazer. A alegria não era um prêmio depois do trabalho: ela caminhava junto, misturada, fazendo a vida ter um outro brilho.

E, no fim das contas, essa busca tem me ensinado alguma coisa: reencontrar pessoas pode ser uma ponte, mas o destino mesmo é outro. É a tentativa de recuperar um pedaço de mim que eu sinto falta. Um pedaço que lembra que a alegria pode fazer parte do caminho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Geopolítica da 5ª Série: Quando o Valentão do Recreio Tem Botão Nuclear




Os últimos capítulos da geopolítica envolvendo os EUA parecem briga de recreio em escola pública, só que com mísseis, sanções e pronunciamentos em letras maiúsculas. De um lado, países tentando negociar; do outro, Trump batendo o pé no chão, cruzando os braços e dizendo algo do tipo: é meu brinquedo. A diplomacia, nesse cenário, aparece sentada no canto da sala, pensando onde foi que tudo começou a dar errado.

Trump, aliás, segue como aquele aluno repetente que acha que mandar mais alto faz a regra mudar. Cada fala soa como ameaça de “vou contar pra minha mãe”, só que a mãe, no caso, é o arsenal militar mais poderoso do planeta. A extrema direita internacional vibra, bate palma, grita “mito” (nesse caso, grita "Laranja") e acha genial essa mistura de valentão com apresentador de reality show político. Geopolítica vira campeonato de quem faz mais careta para o outro.

Enquanto isso, a extrema direita global se comporta como panelinha do fundão, rindo alto, compartilhando memes ruins e dizendo que o mundo era melhor “antigamente”, sem explicar exatamente quando. O discurso é simples, repetitivo e grudento, igual chiclete no cabelo: culpa estrangeiro, culpa minorias, culpa qualquer coisa que não seja o próprio espelho. Complexidade vira palavrão.

No fim das contas, o planeta segue assistindo a esse teatro meio pastelão, meio assustador, onde decisões sérias são tratadas com maturidade de quem escreve palavrão na carteira da escola. Dá vontade de rir, mas o riso vem acompanhado daquele silêncio constrangedor de sala quando o professor entra e todo mundo percebe que a bagunça passou do limite. Porque, diferente da 5ª série, aqui a prova final todo mundo paga junto.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

The Golden Globe Goes To





O cinema brasileiro vive um momento de projeção internacional com a conquista do Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa por Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, e do prêmio de melhor ator em drama para Wagner Moura por sua atuação no mesmo filme. Esses reconhecimentos colocam o Brasil em evidência num dos palcos mais disputados da indústria audiovisual e reafirmam a força criativa de uma cinematografia que insiste em pensar o país a partir de suas contradições históricas e políticas.

A importância desses prêmios ultrapassa a consagração individual de um diretor e de um ator. Eles incidem diretamente sobre a visibilidade do cinema brasileiro, ampliando circuitos de circulação, abrindo possibilidades de financiamento e reafirmando a legitimidade de uma produção que dialoga com questões locais sem abrir mão de uma linguagem capaz de interpelar públicos diversos. O Globo de Ouro, nesse sentido, atua como um amplificador simbólico da cultura brasileira no cenário internacional.

Agente Secreto chama atenção pelo tema que mobiliza: a memória da ditadura militar brasileira e seus efeitos persistentes na vida social e política do país. O filme constrói uma narrativa densa, marcada pela tensão entre passado e presente, convidando o espectador a confrontar silenciamentos, violências institucionais e formas de autoritarismo que continuam a assombrar a experiência democrática. Trata-se de um cinema que assume a memória como campo de disputa e responsabilidade coletiva.

Durante os pronunciamentos por ocasião da premiação, ontem à noite, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura destacaram a centralidade desse passado autoritário e estabeleceram relações diretas com o período recente do governo Bolsonaro, entre 2018 e 2022. As falas apontaram para a permanência de discursos e práticas que reativam fantasmas da ditadura, reafirmando o papel do cinema como espaço de posicionamento crítico e de elaboração simbólica diante de projetos políticos que ameaçam direitos, pluralidade e democracia.

Ao ser premiado, Agente Secreto reafirma que o cinema brasileiro segue capaz de produzir obras esteticamente vigorosas e politicamente implicadas. A conquista dos Globos de Ouro fortalece a cultura nacional ao mostrar que narrar a própria história, com suas feridas e conflitos, constitui um gesto de afirmação no mundo. Mais do que troféus, esses prêmios inscrevem o Brasil num debate internacional sobre memória, autoritarismo e liberdade, temas que permanecem incontornáveis.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

17 anos ...



No dia 24 deste mês, este blogue completa 17 anos de postagens. São 6.209 dias de escrita contínua, atravessada por tempos distintos, por leituras, inquietações, deslocamentos e insistências. O que começou como um espaço de expressão foi se tornando, ao longo dos anos, um lugar de pensamento, de elaboração e de partilha, marcado pela convivência entre textos diversos, temas múltiplos e modos distintos de dizer.

Ao longo desse percurso, a escrita permaneceu como exercício cotidiano de atenção ao mundo e à linguagem. Cada texto nasce de uma necessidade de dizer algo que pede forma, ritmo e escolha de palavras. Há textos breves e outros mais longos, alguns mais próximos da reflexão, outros do comentário, outros ainda do ensaio, mas todos partilham o mesmo compromisso com a palavra pensada, trabalhada e assumida.

Esses anos também são feitos de diálogo. Mesmo quando silencioso, o gesto de escrever supõe um outro, uma leitura possível, uma circulação que dá sentido à permanência do blogue. Comentários, mensagens, leituras ocasionais ou recorrentes compõem essa história e fazem com que o texto não permaneça isolado, mas em relação.

Celebrar 17 anos de postagens é afirmar a escrita como prática de continuidade e resistência ao apagamento. É reconhecer o tempo investido, as transformações do próprio autor e a permanência do desejo de escrever. Que os próximos textos sigam abrindo espaço para pensar, dizer e compartilhar, mantendo viva essa trajetória que já atravessa quase duas décadas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Para 2026: ser eu mesmo o maior tempo possível



Entrei em 2025 com a ideia de presença, de cuidado e de abertura. Queria viver um dia de cada vez, cuidar do corpo, reduzir excessos, aceitar convites, ouvir mais, irritar menos. O ano passou, e quase tudo seguiu por outros caminhos. A ansiedade voltou em muitos momentos, o corpo nem sempre veio junto, o trabalho pesou mais do que eu gostaria, a leveza ficou intermitente. O que escrevi em janeiro permaneceu ali como desejo, não como roteiro.

Pensar 2026 talvez passe por reconhecer isso sem correção imediata. O descompasso entre o que se deseja e o que se vive faz parte do modo como o tempo se impõe. As intenções de 2025 não foram inúteis por não terem se cumprido; elas marcaram um ponto de escuta, mesmo quando a vida seguiu em outra direção. Há algo de honesto em admitir que nem sempre se vive aquilo que se formula.

Talvez 2026 não precise começar com metas, mas com uma atenção mais modesta. Menos promessas feitas a mim mesmo e mais disponibilidade para perceber o que se apresenta. Em vez de presença como ideal, presença como tentativa. Em vez de equilíbrio como meta, equilíbrio como algo que oscila. O corpo, o trabalho, o dinheiro, os afetos seguem pedindo cuidado, mas sem a exigência de acerto.

Pensar o próximo ano pode ser menos um exercício de projeção e mais um gesto de continuidade. Seguir escrevendo quando der, vivendo como for possível, ajustando os ponteiros internos no meio do caminho, não no início. Talvez 2026 peça menos vontade de ser outro e mais disposição para seguir sendo, com pausas, recuos e pequenos avanços.

Para 2026, junto a tudo isso, fica um desejo mais simples e talvez mais difícil: ser eu mesmo o maior tempo possível. Não como afirmação grandiosa, mas como permanência discreta. Seguir sendo sem me dobrar tanto às expectativas alheias ou sem me dobrar às expectativas incorporadas ao longo desses anos de vidasem me afastar do que reconheço como meu modo de estar no mundo. Ser eu mesmo nos dias bons e nos dias opacos, nas conversas e nos silêncios, no trabalho e fora dele. Se houver uma meta, ela passa por aí: sustentar essa permanência quando der, aceitar quando não der, e continuar, ainda assim, no caminho.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Retrospectiva: um modo de seguir adiante



Este é o penúltimo texto deste ano. Escrevi no meu blogue em 2025 do mesmo modo como vivi o ano: por aproximações sucessivas, sem um plano definido e sem a intenção de construir um sentido geral. Cada texto nasceu de um impulso pontual, de algo que me atravessou naquele dia, naquela situação, naquele estado de espírito. O blogue acompanhou esse movimento como um espaço onde coube escrever quando escrever se impunha, sem a obrigação de dar unidade ao conjunto.

O que publiquei ao longo do ano forma um acúmulo de registros do cotidiano, de dispersões, de pensamentos breves que pediam passagem. Há textos mais leves, outros mais opacos, alguns atravessados por cansaço, outros por curiosidade, irritação e decepção. Nenhum deles pretende fechar algo. Cada um permanece ali como fragmento de um dia vivido e deixado para trás.

Escrevi sobre o que vi, sobre o que me incomodou, sobre o que me fez parar um pouco. Às vezes uma cidade, às vezes uma cena banal, às vezes uma sensação difícil de nomear. O blogue acolheu essas variações sem exigir coerência temática. Ele foi menos um projeto e mais um lugar onde eu pude deixar marcas do que passou por mim.

A política apareceu como aparece na vida comum: misturada ao cotidiano, às falas alheias, às imagens que circulam, ao desgaste que tudo isso produz. Os textos não buscaram explicação nem aprofundamento. Eles ficaram no registro do impacto, da fadiga, da observação seca de um tempo que pesa.

Quando olho para o que escrevi em 2025, reconheço ali um conjunto de textos que acompanha um ano vivido sem grandes viradas, mas cheio de pequenos movimentos. O blogue guardou esses restos, essas notas, esses instantes. Escrever foi, ao longo do ano, apenas isso: um modo de seguir adiante, deixando palavras pelo caminho.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma névoa entre mim e o mundo


As minhas vistas andam muito cansadas, e essa sensação tem se imposto no corpo de um jeito difícil de ignorar. Há dias em que os olhos parecem pedir descanso antes mesmo de o dia começar. Fica a impressão insistente de que há mato nesse coelho, algo que vai além de um cansaço passageiro e que exige atenção.

Há cerca de dois meses comecei a perceber a visão nublada, especialmente em ambientes muito claros. A luz intensa incomoda, embaralha os contornos, torna o gesto de olhar mais trabalhoso. Ler placas, acompanhar linhas de texto ou simplesmente manter os olhos abertos em certos espaços passou a exigir um esforço que antes não se fazia notar.

Tudo indica que esse estado tem relação direta com o uso prolongado de telas, com a leitura contínua e com a escrita em excesso. No ano passado, essas três atividades ocuparam grande parte dos meus dias e das minhas noites. O tempo diante do computador se acumulou, as pausas foram poucas, e o corpo, silencioso por um período, agora parece cobrar a conta. O uso de colírio tem amenizado um pouco essa sensação, oferecendo um alívio momentâneo, ainda que não resolva o problema de fundo.

Sem os óculos, o incômodo se torna ainda mais presente. Os olhos ficam secos, a visão turva, como se uma névoa persistente se interpusesse entre mim e o mundo. É um desconforto que não grita, mas insiste. Talvez seja o momento de escutar melhor esses sinais e aceitar que até o olhar, instrumento tão cotidiano, também precisa de cuidado.

Da Série: Contos Mínimos

Ele acordava todos os dias com a sensação de que algo lhe pesava no peito, como um objeto esquecido dentro do corpo. Sabia que não era dor, nem tristeza comum. Era uma narrativa inteira comprimida, pedindo passagem. Tentou silenciar aquilo com rotinas, compromissos, frases prontas. Nada bastava. A história insistia, batendo por dentro, exigindo palavras. Na noite em que finalmente escreveu a primeira linha, o peso não desapareceu. Transformou-se em outra coisa: um medo leve, quase feliz. O medo de deixar o mundo saber quem ele era.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Uma chatice que pesa mais do que qualquer sandália




Os tempos atuais no Brasil são atravessados por uma polarização que parece transformar qualquer gesto banal em campo de batalha simbólico. Uma propaganda de sandálias, algo que durante décadas ocupou o lugar do cotidiano leve e quase despretensioso, passa a ser lida como tomada de posição política. O episódio recente envolvendo a campanha das Havaianas, com Fernanda Torres sugerindo entrar em 2026 com os dois pés, mostra como a vida comum vem sendo capturada por uma lógica de confronto permanente.

Nesse cenário, expressões corriqueiras deixam de circular como brincadeira, humor ou ironia e passam a ser enquadradas como sinal de pertencimento a um lado ou a outro. A extrema-direita, sempre vigilante, mobiliza-se rapidamente para produzir ruído, indignação e sensação de ameaça. A esquerda, por sua vez, muitas vezes se vê compelida a responder, reforçando um clima de tensão contínua que esgota qualquer possibilidade de distensão.

O que se impõe, então, é uma atmosfera de cansaço coletivo. A política transborda seus espaços próprios e se infiltra em tudo, do comercial de televisão à conversa trivial. Esse excesso de leitura, essa busca incessante por mensagens ocultas, vai produzindo um cotidiano pesado, marcado mais pela vigilância do que pela convivência. A alegria, o humor e a ambiguidade vão sendo comprimidos até quase desaparecerem.

Talvez o incômodo maior esteja justamente aí: na dificuldade crescente de aceitar o banal, o simples, o ambíguo. Entrar com os dois pés em um ano futuro poderia ser apenas isso, uma imagem, um jogo de linguagem, um convite leve. Transformar esse gesto em escândalo diz menos sobre a propaganda e mais sobre um país que anda levando tudo a sério demais. E, convenhamos,  essa chatice já pesa mais do que qualquer sandália.
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domingo, 21 de dezembro de 2025

Revê-los é também reencontrar versões de mim





O sábado ganhou uma densidade rara ao reunir pessoas que atravessam a minha vida há décadas. Léo, Vera, Marina, Andréia, Ana, Aline, Denise, Barroso, Robson, Gil, Joá, Marcelo, Ricardo, Patrícia (1ª foto - na casa de Dona Raimunda, em Paciência) formaram um círculo de presenças que dispensa explicações. Em outro momento (segunda foto) do mesmo dia, encontrei Sueli, Neném, Mônica (amigos de longa data). Estar junto deles ativa uma memória viva, feita de reconhecimento imediato, de risos que retomam o fio do tempo como se ele jamais tivesse sido interrompido.

Alguns desses laços nasceram ainda na infância, nos corredores do ensino fundamental, quando o mundo parecia grande demais e, ao mesmo tempo, cabia inteiro em uma conversa no intervalo da aula. Outros vieram do bairro onde vivi por tantos anos, espaço de encontros cotidianos, de aprendizados silenciosos e de uma convivência que nos diz quem somos. Cada trajetória se cruzou com a minha de um modo próprio, e é essa singularidade que torna o grupo tão precioso.

O encontro foi atravessado por muito afeto e carinho, gestos que dizem mais do que longos discursos. Olhares cúmplices, lembranças partilhadas, histórias retomadas com detalhes que só fazem sentido para quem esteve lá. Há uma alegria particular em perceber que certas afinidades resistem ao tempo, às distâncias e às transformações da vida.

As histórias circularam com leveza, algumas antigas, outras atualizadas pelo presente, todas marcadas por experiências comuns e por diferenças acolhidas. Cada nome carrega um pedaço da minha própria história, e revê-los é também reencontrar versões de mim mesmo que seguem vivas nesse convívio. A memória, nesse espaço, deixa de ser arquivo e se torna presença.

Voltei para casa com a sensação de pertencimento renovada. Amigos da vida são isso: pessoas com quem o tempo não pesa, apenas acrescenta. Que encontros como o de sábado sigam acontecendo, alimentando esse laço feito de afinidade, cuidado e uma amizade que continua a dizer muito sobre quem sou.

sábado, 20 de dezembro de 2025

O dinheiro público no escuro





As emendas parlamentares sem rastreamento expõem uma das faces mais graves da apropriação privada do dinheiro público no Brasil. Verbas que pertencem à sociedade circulam sem transparência, sem critérios verificáveis e sem qualquer possibilidade efetiva de acompanhamento pela população. O orçamento, que deveria expressar escolhas coletivas e prioridades sociais, passa a ser manejado em zonas de sombra, onde o interesse público perde lugar para arranjos políticos fechados.

Esse modo de destinação de recursos afronta princípios elementares da vida democrática. A gestão do dinheiro público exige publicidade, responsabilidade e controle social permanente. Quando parlamentares defendem ou naturalizam mecanismos que ocultam quem indica, quem recebe e como as verbas são utilizadas, instaura-se um regime de opacidade deliberada. A ausência de rastreamento não representa falha técnica, mas escolha política que fragiliza a própria noção de Estado comprometido com a sociedade.

Causa indignação a desenvoltura com que alguns políticos lidam com essa prática. Há um cinismo escancarado no discurso que tenta justificar a falta de transparência em nome de suposta eficiência ou rapidez. Isso encobre interesses particulares, barganhas silenciosas e usos do orçamento que jamais suportariam escrutínio público. O dinheiro coletivo passa a ser tratado como instrumento de poder pessoal, administrado longe do olhar de quem o financia.

A questão ultrapassa o campo contábil e alcança o coração da democracia. Sem rastreamento e controle, rompe-se o vínculo entre representantes e população, e consolida-se a percepção de que o Estado serve a poucos. Exigir transparência nas emendas significa defender o direito da sociedade de saber, acompanhar e cobrar. Qualquer país que se pretenda democrático precisa tratar o dinheiro público com luz, responsabilidade e respeito — tudo aquilo que essas emendas insistem em negar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Corações jovens


Corações Jovens, dirigido por Anthony Schatteman, inscreve a juventude como tempo de atravessamento silencioso e desloca expectativas fortemente sedimentadas sobre sexualidade e sofrimento. A aldeia flamenga onde a narrativa se desenrola comparece como materialidade que pesa sobre gestos, pausas e deslocamentos. O campo belga, com seu ritmo próprio e sua proximidade quase excessiva entre as pessoas, cria um espaço em que cada olhar ganha densidade e cada aproximação carrega riscos. Esse ambiente sustenta tensões sem precisar explicitá-las, confiando ao cotidiano a tarefa de produzir sentido.

Desde o início, o filme convoca uma memória social persistente: falar de sexualidade na infância e na adolescência costuma acionar discursos ligados à violência, à repressão e ao trauma, sobretudo no interior da família e da escola. O espectador é levado a antecipar esse caminho narrativo, esperando cenas de sofrimento ou punição. O impacto do filme nasce justamente dessa antecipação, que é mobilizada para, em seguida, ser deslocada. A narrativa recusa organizar a sexualidade juvenil a partir da violência como eixo central.

O encontro entre Elias, adolescente do interior, e Alexander, recém-chegado de Bruxelas, produz uma desorganização afetiva que atravessa também o grupo escolar e, de modo particular, a relação com Valerie, sua namorada até então. O incômodo de Valerie ultrapassa o ciúme e aponta para a dificuldade de lidar com o desejo quando ele passa a circular de forma imprevista, deslocando lugares e expectativas partilhadas. O filme acompanha esse deslocamento sem dramatizações excessivas, apostando na delicadeza dos gestos e nas hesitações.

O espaço escolar, frequentemente representado no cinema como palco de agressões explícitas, aparece aqui de forma rarefeita. Em vez de confrontos espetaculares, surgem silêncios constrangedores, olhares que pesam e pequenas inflexões no convívio cotidiano. A violência, quando se insinua, habita essas relações ordinárias, difíceis de nomear e justamente por isso persistentes. Ao mesmo tempo, o filme deixa entrever brechas de cuidado e reconhecimento, sem transformar esses gestos em exemplos edificantes.

Ao falar de corações jovens, o filme aponta para uma capacidade singular de ajuste. Apesar das pressões do entorno, dos medos e das perdas simbólicas que acompanham o primeiro amor, os personagens encontram modos de seguir adiante. Esse ajuste se dá na negociação cotidiana entre desejo, pertencimento e silêncio, sem promessas de estabilidade plena. Ao deslocar a sexualidade juvenil do campo exclusivo da violência, Corações Jovens reinscreve esse tema no campo da vida, do afeto e da possibilidade, afirmando uma delicadeza rara ao tratar da juventude como experiência atravessada por instabilidade e descoberta.

Perdidos na tradução

Passaram-se  trinta e um anos . Dizer isso em voz alta já produz um certo estranhamento, como se o tempo, em vez de seguir, se acumulasse em...