segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cada um diz o que pode (Texto)

Enquanto a ex-atriz e deputada estadual (PDT-RJ) Myrian Rios aproxima o homossexual da prática de pedofilia, como padres, pastores, homofóbicos o fazem (mais por falta de informação do que de qualquer outra coisa), a Justiça de São Paulo autorizou nesta segunda-feira (27) o primeiro casamento civil gay do Brasil. Há muito o que se comemorar. Isso é fazer história.
Podemos ficar nessa ladaínha: homossexual = pedófilo = doente = criminoso = pecador etc. ou podemos sair dela e construir outras equações: homossexual = cidadão = normal, por isso tem direitos e deveres.  É isso que queremos. Como é que alguém ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa de um Estado com ideias tão passadas?
A deputada é apenas uma deputada e o que ela diz não tem nenhuma importância além do fato dela representar uma parcela da sociedade: alguns poucos católicos. Apenas isso. Ela diz o que pode e não o que quer.
Ela não sabe, talvez, que 90% da prática de pedofilia aconteça entre heterossexuais dentro das próprias casas, ou seja, homens que abusam sexualmente de filhas, enteadas, sobrinhas, primas, vizinhas etc.
Entre os padres católicos, só como exemplo, o percentual é quase o mesmo, 70% é heterossexual. E as práticas são tb em relação às meninas que frequentam às igrejas. Portanto, o que ela diz não faz nenhum sentido além do sentido da ignorância, da falta de informação, ou, para quem estuda análise de discurso, de um efeito de sentido parafrásticos de discursos de séculos passados.
Nem sei se é preciso responder ao que ela diz. Talvez ela tenha mesmo o direito de não querer um funcionário homossexual em sua casa, assim como acho que tenho o direito de não ter uma deputada com um pensamento tão raso, com uma atuação tão medíocre.
Alguém que confunda a religião, a sua religião, como o Estado não deveria sequer se representar. Falta estofo. Falta conhecimento. Falta quase tudo. Quem é Myrian Rios? O que ela fez para melhorar, por exemplo, o funcionamento do Estado do Rio de Janeiro? Quais são os seus projetos? O que ela faz para justificar a sua presença na assembleia estadual? 
Nunca na história desse país essa deputada tomou alguma atitude que nos surpreendesse em se tratando de pensar o Estado do Rio de Janeiro? Quem ela acha que é para dizer o que diz? O que ela sabe da história da homossexualidade? A partir de quê ela dá essas declarações? 
É para-lamentar o que sai da boca dessa gente que usa uns anos de televisão para conseguir se eleger. Bem feito para quem perde tempo  indo às urnas para jogar o seu voto no lixo.

5 comentários:

  1. Adoro seus textos, Alexandre. Eles são convites à reflexão. Apesar de estas bobagens todas que a gente ouve nos causarem indignação e perplexidade, especialmente quando vêm de pessoas públicas e que ocupam funções tão caras ao Estado e à sociedade como a de legislar, penso que elas demonstram o quanto a tentativa de rompimento com os pensamentos retrógrados e preconceituosos têm sido eficaz, tem surtido efeitos. Toda luta por igualdade de direitos e superação de preconceitos provoca reações (mesmo que contrárias e negativas), suscita discussões, desconcerta, abala crenças e convicções. Isto indica que a luta encampada está, mesmo que penosamente, obtendo êxito. É o prenúncio de uma reforma importante. Velhos valores estão sendo questionados e isto incomoda os que resistem às inevitáveis transformações morais e culturais que a sociedade lenta e gradualmente vai conquistando. Manifestações infelizes como esta, como a do Dep. Bolsonaro e de outros ignorantes por aí representam, de certa forma, o mal prestando um serviço ao bem (se é que isto é possível). Como se diz nos estudos introdutórios ao Direito, o fato ou conflito social ocorre, sofre uma valoração para posteriormente receber uma normatização, um regramento que o pacifique. Mantenhamo-nos atentos e atuantes, mas deixemos também os estúpidos falarem. Sem que saibam ou queiram, eles estão contribuindo com a causa que pretendem combater.

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  2. Muito bom poder ler um texto tão bem escrito, tão bem embasado, alias, não poderia esperar outra coisa de um professor, de um profissional que trabalha exatamente para nos fazer pensar da melhor forma possível.
    Sinceramente não entendo porque nos dias de hoje ainda temos que aguentar Tiriricas e Myrians sentados em cadeiras erradas. Definitivamente, enquanto as pessoas não se concientizarem que não devem sentar em acentos de deficientes, idosos e grávidas continuaremos vendo sentados nas cadeiras dos parlamentos tipos como estes. Realmente pensar não é o forte de muitos no nosso país.

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  3. a Myriam Rios não pensou no que dizia...só pode. Enfim, a sociedade precisa amadurecer muito pra enteder tanta coisa ainda.

    Gostei do seu jeito de escrever...

    abração.

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  4. Poxa ! Que texto viu, Parabéns!
    A sociedade é hipócrita e praticam o tal FALSO MORALISMO !!

    Ha!! Estou te seguindo, segue o meu também, e se gostar comenta.. http://taiisfalcao.blogspot.com/

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