segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Da Série Contos Mínimos

Foi tomado por uma sensação de felicidade. Fazia muito tempo que não se sentia assim. Nem as dores do coração foram suficientemente capazes de impedir aquele sentimento. Só lhe chamava a atenção o céu azul, as ruas abarrotadas de gente e o sotaque familiar das pessoas falando alto por todos os lados. Teve muito medo de não conseguir viver isso outra vez.

domingo, 24 de agosto de 2014

De volta pro aconchego

Cheguei ao Brasil depois de quase um ano em Portugal. Chegar foi emocionante. Fazia tempo que eu sonhava literalmente com o céu do Rio de Janeiro, com o cheiro da cidade, com a paisagem, com as ruas, com a conversa das pessoas, com essa mistura de caras, idades, cores.
Cheguei muito cansado, primeiro porque na véspera da viagem, dormi apenas uma hora, aquela tensão pré-viagem que me toma sempre, mesmo que eu vá para São Paulo ou em Cascavel, para Rondon. Sou assim e pronto. Depois, porque a TAP não é definitivamente uma boa empresa de aviação: espaço pequeno demais, gente demais nesse pequeno espaço, comissários mal-humorados e atraso. O pior é sempre o atraso.
E foram quase 11 horas de viagem. Sentado numa poltrona (se é que se pode chamar aquilo de poltrona), numa mesma posição sem espaço para mexer os braços. Isso tudo fez com que eu ficasse podre, morto de cansado.
Depois, demora para passar na imigração (apenas dois funcionários atendendo e uma infinidade de pessoas. Ainda que eles fossem rápidos e educados não conseguiam ser suficientemente a ponto de fazer com que a fila andasse depressa), demora para pegar a bagagem.
Depois disso, chego em casa salvo. E aí mala para todos os lados. Mas em minha casa. Eu estava doido para isso acontecer. Coloquei tudo no lugar, já que viajo para Cascavel com o mínimo necessário e possível para uma viagem nacional.
Tomo um banho e a fome bate desesperadamente, e o cansaço ali sem dar trégua. Claro que não há nada para comer. Uma casa não produz uma comida sozinha. Bem, fui comprar porque se eu não fizesse, morria de fome. Aproveitei para dar uma volta na quadra enquanto a comida, no restaurante, ficava pronta. Voltei com o cansaço ainda me acompanhando, comi um pouco daquela comida que daria para 5 Alexandres. E dormi o sono dos justos, das 20h30 até às 5h30 de hoje. Fazia muito tempo que eu não dormia, sem acordar, durante tanto tempo. Acordei renovado e feliz por estar de volta ao Rio.
Lembrei-me que ainda precisava finalizar a leitura de um texto para enviar um parecer ainda hoje. E o passeio de domingo pela manhã ficou para um outro dia, quando eu estiver de volta, nas férias. Tô feliz. Fazia tempo que eu não me sentia assim.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Põe pra fora, Portugal!

Sexta-feira, véspera da minha viagem de volta. Adrenalina correndo solta. Faz uns dias que não consigo dormir direito. Acho que ando no horário do Brasil.
Ontem, à noite, a despedida dos amigos mais próximos que ainda ficaram por aqui e que puderam aparecer. Foi uma noite divertida e cheia de boas surpresas. Depois ainda uma esticada no Bairro Alto porque nas últimas horas dá vontade de rever tudo, fazer tudo outra vez porque fico com a sensação de que Portugal vai ficando no passado.
Bem, aqui nesta foto, em sentido horário: Milton, Giuliano, Giorgia, Manuel, Marco, Rogério, eu, Karen, Katiele e a fotógrafa amiga de graduação (que não aparece), Andrea.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A gente ouve e fala de um lugar, não há neutralidade em nenhum desses momentos

Sinto muito, mas quem ainda não entendeu que se ouve tb de um determinado lugar da mesma forma que se fala de um lugar determinado vai ficar a vida inteira discutindo ponto de vista com quem está em uma outra posição.
Acabei de (re)ver a entrevista que a presidenta deu ao JN, ontem à noite, e não acho que os jornalistas da Globo tenham sido mais agressivos com ela do que foram com os outros dois candidatos entrevistados na semana passada.
Acho que as perguntas foram, inclusive, óbvias demais e que qualquer coordenador de campanha poderia prever quais seriam as perguntas dessa entrevista.
Acho tb que tanto Dilma, quanto Aécio e Eduardo Campos se saíram bem em suas respostas. Não vi nenhum deles acuado, não percebi que algum deles ficou sem dar alguma resposta ou que alguma pergunta tenha encontrado a/o candidata(o) despreparada(o).
Quem não sabia que os jornalistas iriam perguntar sobre as denúncias de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT)? Quem não sabia que a resposta seria a que a presidenta deu? Bem, não fiquei surpreendido nem por um lado e muito menos pelo outro. Acho que a Dilma deu conta de responder tudo o que lhe foi perguntado de forma clara. 
Claro que haveria muito mais para ser dito, mas, por outro lado, havia uma necessidade de fazer mais perguntas para que a candidata entrasse, ao meu ver (é óbvio tb), por alguma contramão. Mas ela não se apressou e respondeu o que podia da forma como quis. 
Acho mais, acho que ELA deu o tom da entrevista de forma a fazer com que os jornalistas ficassem numa ansiedade, ela não. Ela respondeu como quis, no tempo que acho necessário.
Bem, eu continuo votando em Dilma e isso não quer dizer que eu não tenha minhas queixas em relação ao governo. Tenho muitas, sobretudo em relação às coligações que são feitas com determinados partidos. Tenho tb ressalvas em relação às políticas de inclusão, ao crescimento de uma bancada evangélica dando o tom para discussões que não tem nada a ver com religião. Tenho restrições ao silêncio do governo em relação às provocações da oposição etc.
No entanto, tenho ainda mais ressalvas ao PSDB de Aécio e ao "PSB" de Marina Silva. Um e outro não teriam o meu voto nem que fossem apenas os dois os candidatos à presidência.
Sei o que foram os 8 anos de PSDB com o ex-presidente Fernando Henrique e, no Paraná, com o Jaime Lerner. Lembro-me muito bem como ficaram as universidades Federais durante aquele governo e as estaduais do Paraná durante a gestão deste. E, como disse no início do texto, eu falo/ouço do lugar que eu ocupo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Re-sentindo

A gente sai de um jeito e volta de outro. O nosso mundo tb se transforma. E tudo que era pode não ser mais. Tudo aquilo pode não fazer mais nenhum sentido, ou fazer um outro sentido. E a gente vai assim se re-sentindo.
Dizem que a linguagem é  apenas significante e o sentido sempre pode ser outro: sentindo outra vez se ressentindo.

E mais uma vez chegando sozinho em outro lugar

Não gosto de despedidas. Pior, não sei lidar com elas como se eu estivesse apenas dizendo um "até logo". Sou tomado por uma sensação de tristeza que se transborda. Minha voz vai enfraquecendo e os olhos ficam nublados.
Não importa se estou me despedindo do garçon que encontrei muitas vezes no restaurante que frequentei por algum tempo ou se estou abraçando um amigo que fiz tb nessa estadia aqui em Portugal. Tudo me toca de uma forma inexplicável: acho que é um saudosismo, uma certa angústia de ir embora. Um frio na barriga. Sei lá.
Odeio despedidas! Elas me incomodam a ponto de eu ficar sem saber o que dizer ou de não conseguir dizer o que deveria. Bem, sei que posso voltar, um dia. E isso já é, de certa forma, um alívio, mas sei tb que nessas voltas a gente vai se perdendo, o que a gente sente tb vai se perdendo, vai se transformando a ponto de apenas esbarrar naquilo que se sentiu antes: é um mesmo revisitado.
Fiquei me lembrando agora da minha primeira despedida geográfica: quando saí do Rio, em junho de 1993, para morar no interior do Paraná. Minha amiga Cristina, grávida, e meu amigo Robson me levaram à rodoviária Novo Rio e de lá parti para Marechal Cândido Rondon. 
Ninguém me esperava na rodoviária na minha nova cidade. E eu nem sabia ao certo o que iria encontrar. Encontrei amigos, uma nova paisagem, alegrias e tristezas. 
Foram tantas chegadas e partidas que já não me lembro bem de todas elas. 
Deixei tantas pessoas e encontrei tantas outras para outra vez deixar tudo para trás e começar de novo em um outro canto. Fiz isso muitas vezes. E mais uma vez chegando sozinho em outro lugar, deixando amigos, paisagens, uma cidade, uma casa, uma praça, uma rua por onde andei todos os dias desse último ano.
Acho que algum dia mais adiante eu poderei saber o que ganhei desse tempo. Agora não sou capaz de entender com clareza. Esse texto não é uma despedida de Portugal, farei isso quando não estiver aqui.

sábado, 16 de agosto de 2014

Tarde em Belém

Hoje foi um dia muito bom! "Bom" é suavizar o quanto o dia foi gostoso, divertido, cheio de alegria. 
Começou a semana da minha despedida e já com saudade dos amigos que vou deixar por aqui. Foram dois meses de alegrias intensas perto dessas pessoas. Elas estiveram presentes sempre que precisei, e precisei muito de suas companhias. Mesmo quando não era para ser alegre (por conta de questões pessoais), foi alegre.






























terça-feira, 12 de agosto de 2014

Da Série Contos Mínimos

Por vezes, ela atrapalhava-se com o passado e o presente. Tinha alguma dificuldade de saber se já fazia algum tempo ou se aquilo tinha acontecido ontem ou hoje pela manhã. Confundia a tristeza de agora com a alegria de meses, o que não era de todo ruim. Vivia num outro tempo verbal. 

domingo, 10 de agosto de 2014

Era essa a minha intenção.

Minha mãe foi excelente: trabalhava muito porque sozinha precisava dar conta de todas as obrigações. Era carinhosa, educada, ética. Me ensinou a incluir as pessoas. Bem. Ela foi uma mãe maravilhosa, mas não soube ser pai e mãe, como ouço muita gente falar por aí quando tem apenas um dos dois presentes.
Certa vez, numa sessão de análise, o psicanalista me perguntou, não me lembro qual era a situação... o que eu achava que seria a função de um pai? Eu não soube responder e é claro que aquele silêncio dizia muito sobre mim: não sabia o que era ser pai. Não sabia qual a função de um pai numa família.
Aí, conversei com um grande amigo, o Erik, e pergunte para ele como era essa história de ter um pai presente. Ele me respondeu que o pai dele estava presente quando a mãe não estava e que o pai o ensinou muitas coisas. Era função do pai dele, por exemplo, conversar sobre alguns assuntos. O seu pai foi quem lhe ensinou a andar de bicicleta. Era função dele cobrar-lhe algumas decisões. Ele o incentivava diante de algumas situações, aconselhava diante de outras, colocava dúvidas para que ele pensasse a respeito de algumas outras.
Passei toda a minha infância sem uma presença masculina em casa. Minha mãe tinha amigos e acho que eles se alternavam para dar uma força. Ah, tinham os meus tios, irmãos da minha mãe. Alguns eram muito presentes: as tios Carlinhos, Eduardo e Jorge estavam sempre por perto ou eu por perto deles.
Até que minha mãe se casou outra vez. Não foi fácil ter um padrasto. Eu achava sempre que minha mãe estava me deixando de lado por conta do namorado. Infernizei a vida dele por um bom tempo e ele a minha, mas acabamos por nos entender: nunca tivemos uma relação de pai e filho, mas posso dizer que somos amigos. Aprendi a conviver com ele e ele comigo. Ela é camarada. 
Hoje, liguei, já que é o dia dos pais e ele foi muito atencioso. Não lhe disse feliz dia dos pais! Mas era essa a minha intenção.

sábado, 9 de agosto de 2014

Dentro das palavras



Dentro das palavras há a possibilidade do universo.
E por isso, elas não são nada. Sozinhas, não dizem nada.
Estão apenas por aí, vagando em torno delas mesmas.
Voam como moscas sobre qualquer sentido: um qualquer que lhe dê vida.

Travessia - MIlton Nascimento


Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar


Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar


Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver


Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Da Série Contos Mínimos

Depois de muitos anos se reencontraram. Alguma mudança física dificultou, pelo menos para um deles, essa identificação imediata. Não havia mais dor, mágoas, sofrimento, tudo havia ficado em algum canto. Sentaram-se confortavelmente e construíram um novo passado.

domingo, 3 de agosto de 2014

Da Série Contos Mínimos


Varri, lavei, troquei de lugar, tirei o pó: a maior limpeza talvez deva ser feita em outro lugar.

Um grande espaço vazio

Bem, hoje o Alcemar (meu companheiro de apartamento nesse ano em Portugal) foi embora. Bem cedinho nos despedimos e nos falamos logo em seguida para eu saber se tudo estava certinho com as bagagens e com a viagem de volta. Depois disso, voltei para a cama.
Assim que (re)acordei, achei o apartamento muito grande, foi a primeira vez que senti isso em relação a esta casa: grande demais, muito espaço para pouca gente. Estou outra vez sozinho.
Não que isso já não tivesse acontecido por aqui, mas ele sempre voltava, né? Ou eram as férias, ou alguma viagem que ele fazia, para um dia estar de volta. Dessa vez não. Dessa vez nos encontraremos apenas em Cascavel quando eu tb retornar para o Brasil.
Aí, resolvi preencher este espaço com alguma atividade que me ocupasse por algum tempo. Desci um andar, mudei mais uma vez de quarto, reorganizei as minhas coisas (aproveitei para mais uma vez retirar o excesso) e a tarde foi embora como um passe de mágica: minha cabeça centrada apenas nessa mudança para o mesmo apartamento.
Varri, lavei, troquei de lugar, tirei o pó: a maior limpeza talvez deva ser feita em outro lugar. Por hora, não estou pronto.
Bem, por hoje acho que o trabalho braçal terminou. Vi que há ainda algumas coisas para colocar no lugar, mas fiquei muito cansado de tanto subir e descer. Bem, a limpeza de domingo está finalizada.