domingo, 25 de outubro de 2015

Meu conto dos outros

Eu mal podia esperar pelo fim da chuva. Estava angustiado com tanta história que acabava de ouvir e mal sabia o que fazer com ela. Fazia tempo que eu não ouvia uma história que me incomodasse tanto. 
Eu escutava os mortos desde criança. Não era um ritual que eu me preparasse para as audições. Nada disso. Se eu estivesse sozinho (por muito tempo eu evitei ficar assim) eles me encontravam.
Depois dessa história, digamos, ruim, eu queria dar uma volta pra esvaziar a minha cabeça, mas a chuva e os ventos fortes não me davam a opção de sair de casa. Não, pelo menos, do jeito que eu gostaria.
Era uma ponte circular sobre o nada: se eu estivesse sozinho, as vozes me encontrariam, e na impossibilidade de sair, eu necessariamente estaria só e as elas voltariam.
Estou morando sozinho desde a morte da minha mãe. Isso faz dez anos. Nunca tive um relacionamento que me fizesse pensar em dividir um espaço. 
Namorei muito, mas sempre cada um em sua casa. Tenho dificuldades para dividir espaços, silêncios e sons.
As vozes eram muitas, de todas as idades e de muitos lugares. Eram velhos, crianças, homens e mulheres. A maioria deles nem sabia que tinha morrido. 
A primeira vez que isso me aconteceu eu fiquei muito assustado. Achei que era brincadeira, depois que eu estava maluco. E, sem entender muito bem, fui me acostumando com a situação. Quer dizer, "acostumando" não é exatamente o que acontece, mas como não consigo fazer diferente, fui vivendo assim.
Hoje, uma senhora me contou sobre estar sozinha. Reclamou dos filhos, dos parentes e dos velhos amigos que nunca mais a procuraram. Me contou que se sentia abandonada pelo mundo. Me disse também que mais ou menos era ela a responsável pelo abandono. 
Disse-me que em certa altura da sua vida (enquanto estava viva) se afastou de praticamente todas as pessoas. Ela havia abandonado o mundo a sua volta. E aos poucos, todos foram sumindo. Depois morrendo. E finalmente ela se viu assim, sem ninguém.
Me contou que sua morte foi descoberta apenas depois de 15 anos. Seu corpo ficou caído no chão do quarto. Nem os vizinhos, nem ninguém se deu conta da sua ausência. O corpo ficou ali apodrecendo até restarem apenas os ossos e o silêncio dos cômodos da sua pequena casa. Ela morava num vilarejo de poucas casas.
As correspondências foram se acumulando e um dia, só depois de todo esse tempo, é que desconfiaram de que alguma coisa poderia ter acontecido.
A história me tocou muito porque me vi exatamente vivendo da mesma forma que a velha senhora viveu. Sozinho, longe de todos pela pura incapacidade de saber conviver com os outros ou por um acúmulo de mágoa que eu não conseguia esquecer ou transformar em outro sentimento.
Ela era ressentida. Resmungona. Mal humorada. E eu achava certa graça da sua personalidade. Me contou também que se tivesse nascido em outra época não teria se casado ou tido filhos. Ela queria estudar, mas que tanto ela como suas amigas foram criadas apenas para casar, servir ao marido, depois os filhos. Assim que devia ser. E assim foi. 
Me contou também sobre a saudade que sentia da sua infância, das brincadeiras e do medo de ficar sozinha em casa. Depois que o seu pai morreu, tinha medo do escuro e a sensação de estar sendo vigiada.
Me falou ainda que se sentia feliz por poder conversar comigo e que soube de mim através de outros espíritos. Me disse também que poder falar sobre o passado tinha sido uma boa forma de pensar na vida que levou, mesmo sabendo que não faria qualquer diferença. Acho que conversar com ela, me foi mais valioso do que eu podia acreditar, ainda que eu nao quisesse, pelo menos agora, mudar de vida.



segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um grande privilégio!

videoA Saudades nunca acaba. Bem ao contrário, ela, naturalmente, apenas cresce. Hoje faz 6 anos que a minha mãe morreu. De repente, bateu aquela lembrança dela e aí me dei conta de que se tratava do dia 19 de outubro.
Bem, não lembro dela apenas com tristeza. Na verdade, na maior parte das vezes, lembro-me dela com muita alegria. Já disse, muito provavelmente, isso aqui algumas vezes.
Sinto-me feliz por ter vivido 44 anos em sua companhia. Isso é um privilégio!

sábado, 10 de outubro de 2015

Aqui ou em qualquer lugar

Que chatice que virou essa tomação de conta online. Antes era com o celular: alguém te ligava e achava que você tinha a obrigação de atender porque o celular te acompanha pra todos os lados. Agora virou um inferno: o WhatsApp, o Messenger (principalmente) e tudo o mais que denuncia a sua presença ali.
Sabemos todos que a tecnologia existe pra facilitar a nossa vida. E facilita mesmo, MAS estar online não significa necessariamente que você está com vontade de conversar, com vontade de ler, com vontade de escrever.
Se você estiver com vontade na mesma hora de quem te enviou a mensagem: sorte de todos. Se não, por favor, tenha calma, fique na sua que uma hora (ou não) o seu interlocutor vai te dar uma resposta. Se ele não der, paciência. Ninguém é obrigado a fazer o que não quer. E as consequências disso dizem respeito a cada um.
Às vezes, a gente está dormindo, noutras, a gente está no banheiro, em algumas, a gente está lendo (será que as outras pessoas não fazem isso?), cozinhando, conversando com um amigo, vendo tv, escrevendo, preparando aula ou, simplesmente, não fazendo nada e querendo ficar assim.
Sem falar nas mensagens que chegam dessa maneira: Oi (enter). Tudo bem? (enter). Preciso falar com você! (enter). Tá aí? (enter). Putz, manda logo o que é necessário e pronto.
Aí você responde e a pessoa não dá sequência à conversa que havia inciado antes, ela parte do zero e começa tudo outra vez: Oi. (enter) Tudo bem? (enter). Preciso falar com você! (enter). Tá aí? (enter). Haja paciência e calma pra aguentar esse comportamento.
Fale de uma vez, criatura! Mande a mensagem inteira e depois a gente vê como resolve.
Além disso, que não é pouco, esse comportamento psicótico com os smartphones tem produzido a cada dia mais gente com a necessidade de fazer o check-in em todos os lugares, postar uma fotografia e acompanhar minuto a minuto as curtidas. E, é claro, responder todos os comentários assim que eles entram no novo status.
Se você está sozinho num restaurante. Se está em sua casa sem fazer nada. Mas se você convidou alguém pra almoçar, jantar, tomar um café, por favor, curta a presença do outro, acompanhe minuto a minuto os comentários que estão sendo feitos ali. Do contrário, não seria melhor estar sozinho?
As pessoas não conseguem mais ficar sem ligar o telefone. Seja no cinema, na sala de aula, no almoço, no hospital. Não tem mais hora e lugar. É inacreditável que a maioria não se toque de que se comportando assim você não está em lugar nenhum: nem no mundo virtual nem no mundo real. Se é que existe diferença!
Será mesmo necessário checar se não tem uma nova mensagem a cada dois minutos? A impressão que tenho é a de que a carência tomou conta de todas as relações e você não pode mais estar sozinho. Ficar sozinho é sinônimo de ser esquecido. Ninguém curtir a sua postagem é sinônimo de ser desinteressante.
Tem gente que não se toca dessa dependência. Logo, logo, chegam por aqui as clínicas de reabilitação para tratar da dependência da tecnologia pessoal. Depois a gente não sabe os motivos das nossas crises de ansiedade. Essa necessidade de dar conta de tudo ao mesmo tempo, de estar em todos os lugares e acompanhar tudo o que acontece do Oiapoque ao Chuí. Uma hora o corpo pede socorro. Vamos nos ouvir, pelamordedeus!

Smartphone não é extensão do nosso corpo, gente. Ele é imprescindível, eu sei. Uso muito o meu, mas não confundo a sua função no mundo com os outros prazeres.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Das músicas que me tocam



Meu
(Djavan)

Você sabe fazer
Tudo o que faz
Nada existe em você
Que eu não goste demais
Quando você diz
Me apaixonei por você, "meu"
Faz a cara feliz
De quem sabe o que é seu
Eu nunca vi nada assim "ô loco"!!!
É como faz o amor
Pra se proteger
Dá um "zignal" na dor
É vetado sofrer
Discordar, discutir
Nada é mais saudável, não, não, não
Um olhar neném de ser
Logo fecha a questão
Eu nunca vi nada assim "ô loco"
Ar, só com você
Mar, com você qualquer fundura dá
Tudo é tão meu
Quando você vem se chegando,
De um modo só seu