terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"O que é que eu tenho com isso?"

Bem, tb quero entrar nessa discussão. Não dá mesmo para ficar indiferente quando o assunto é racismo. Ou melhor, ficar indiferente seria tão racista quanto o racista mais radical. Só que protegido por um silêncio aparente. Protegido pelo "vamos manter a calma nessa hora." Impossível!
Não sei se a atriz e apresentadora Fernanda Lima disse mesmo que ela "não tinha nada a ver com isso" referindo-se ao fato da FIFA -Federação Internacional de Futebol Associado - ter (des)escolhido a também atriz Camila Pitanga e o ator Lázaro Ramos, ambos negros, e colocado em seus lugares o ator Rodrigo Hilbert e a própria Fernanda Lima.
De qualquer forma, vamos fingir que ela não disse isso e que a declaração tenha sido uma invenção da jornalista Mônica Bérgamo.  Das duas uma: se alguém diz que eu disse alguma coisa, tem que provar. Caso contrário corre um grande risco de ser processado por calúnia e difamação, né verdade? E ainda, eu jamais ficaria indiferente a uma declaração de que eu tive uma atitude equivocada, principalmente, o silêncio, porque, como diz o ditado, quem cala diz duas vezes.
Todos nós temos muito a ver com isso, e todos nós devíamos nos manifestar diante desse episódio para fazer com que a FIFA tenha que se explicar sobre isso. Não se pode simplesmente usar o nome de alguém e de uma instituição dessa forma sem que ambas se expliquem. Sem que ambas deixem claríssimo que houve algum mal entendido, algum erro, ou algum tropeço que tenha que ser reparado.
No entanto, penso eu, o simples fato de não fazer nada em relação a isso já nos diz que "ela tem sim tudo a ver com isso". Nos diz que "ela" não vê qualquer problema no fato de atores negros serem substituídos por atores brancos porque isso faz parte da normalidade. Sempre foi assim. Por que agora seria diferente, sobretudo quando eu fui a escolhida para substituir? Isso é apenas um trabalho. E a FIFA tem o direito de escolher e desescolher quando quiser e quem quiser.
Só que não deveria ser bem assim. A atriz Fernanda Lima tinha a obrigação de não aceitar esse convite feito a seis meses ou a seis horas diante do ocorrido. Ou, depois de refletir melhor sobre o acontecido, declinar do convite mesmo que nunca mais fosse escolhida pela FIFA para qualquer coisa. Não é só uma questão de trabalho, não é só um direito de convidar e depois desconvidar, é uma questão muito mais séria, é uma questão de caráter, de posicionamento diante de uma possível manifestação racista.
Não fazer nada ou achar que "não tem nada com isso" é sim compactuar, é sim perpetuar uma posição de privilégio, é sim contribuir com os sentidos já cristalizados sobre ser negro no Brasil. Sobre o lugar do negro no Brasil. Sobre o que pode o negro no Brasil e, principalmente, sobre o que não pode.
Não conheço a atriz e apresentadora Fernanda Lima, mas gosto muito da abordagem do seu programa Amor e sexo porque lá se tenta desmistificar o sexo como tabu, porque lá tenta se tratar da sexualidade de forma natural e não-sexista, porque lá a questão da homossexualidade é tratada de forma tão natural quanto à heterossexualidade o é, portanto, acho que a apresentadora devia sim não deixar que o seu nome e a sua "boa" reputação fossem manchados por disse me disse. A gente tem sim que se importar com aquilo que dizem que nós fizemos, falamos, achamos, sobretudo quando somos públicos e quando o nosso exemplo pode influenciar outros comportamentos.

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